domingo, 21 de fevereiro de 2010

Os primeiros dias na educação infantil: um novo parto

Quem leva o filho pela primeira vez à escola, possivelmente passou pela gestação e pela ansiedade, seguida de equívocos, que a chegada de um bebê provoca nas famílias. Assim, para falar sobre os momentos iniciais na Educação Infantil, acredito ser possível uma comparação com a expectativa da primeira maternidade. Durante os nove meses de espera, muita fantasia envolve a chegada do rebento e, em meio ao romantismo, a maioria das mães erra feio tanto na escolha de algumas peças do enxoval quanto nas previsões de como seriam os primeiros dias com o bebê. Isso porque, a representação social da maternidade que temos é a de um evento incondicionalmente sublime: mãe e criança cheirosas, choros sussurrados, meigos e esparsos, amamentação tranquila, sintonia desde o primeiro contato, êxtase! Algo que destoa da realidade, já que os primeiros dias com um bebê costumam ser de muita tensão, onde literalmente as mães vivenciam o “padecer no paraíso”, bebês cheirando a leite azedo, com cólicas frequentes, choros estridentes e tarefas ininterruptas: troca de fraldas, de roupas, de lençóis. Sem esquecer os palpiteiros, “pediatras de ocasião” diagnosticando, prescrevendo, confundindo e questionando as orientações dos médicos de fato. Um estresse!
Rememorado, então, o evento da primeira maternidade, vamos a um novo enxoval e a uma nova gestação, agora da Escola de Educação Infantil, que inicia quando os pais saem em busca da melhor instituição para o filho. Ansiosos e com medo de errar, os novatos tendem a ouvir os mais “experientes”, que, desta vez, assumem o papel de “orientadores pedagógicos”. Não que conselhos sejam de todo ruins, mas, no caso dessa escolha, devem ficar no campo da especulação e jamais da definição. Isso porque, cada situação, assim como cada Ser é único. Nem sempre o que foi bom para uma criança será bom para a outra. Até porque, a aparência e o status da escola geralmente acabam definindo a maioria das  sugestões. Cabe aqui, citar o renomado filósofo e educador, Rubens Alves (2000), quando ele afirma que, “tem muito angu de caroço feito nas melhores panelas”. Tem muita escola bonita e premiada com práticas que envergonhariam até o Aristarco (aquele diretor autoritário da obra, O Ateneu, de Raul Pompéia).
O mais adequado é visitar algumas escolas e, mediante aos parâmetros de qualidade do casal, chegar a uma conclusão. Mais do que verificar se a escola é bonita ou famosa, é preciso avaliar se foi planejada para receber crianças, se o espaço é amplo e seguro e, principalmente, se tem uma boa biblioteca (se não tiver- deem meia volta, e risquem essa da lista). Livros ocupam, nesse novo pós-parto, o lugar do “colostro” e não podem ficar em segundo plano.
Será através de conversas com a coordenação pedagógica (se não tiver, risquem essa opção da lista também) sobre a rotina da criança na escola, sobre as relações hierárquicas defendidas pelos profissionais (se utilizam “estrelinha” para bom desempenho e “cadeirinha de pensar” para corrigir o mau comportamento) que se “estabelecerá o contrato pedagógico” entre família e escola (similar a afinidade ou não, com o obstetra). Esse contrato terá que ser de ideias, onde não pode valer o “Tô pagando”. Trata-se de um encontro entre o que se quer e o que a escola tem para oferecer. Uma sintonia de crenças.
Cada pai precisa ter clareza quanto aos valores educacionais que deseja para seu filho (Escola tradicional ou construtivista? Pública ou privada? Com cadeirinha de pensar? Ou com diálogo? Com avalição por estrelinhas ou portfólio? Com uniforme obrigatório? Ou de ocasião?). Tudo é questão de princípios. Mas, diante do entendimento dos propósitos de uma escola, aceitos no momento de sua escolha, deve-se evitar a criação de uma expectativa equivocada nas crianças. Elas não podem ir para escola esperando que seja um parque de diversões. Onde, individualmente, escolhem e pagam pelo brinquedo que lhes dará mais prazer.
Focar no essencial é o que garantirá o sucesso desta nova gestação, e evitará que os pais repitam o erro das roupas com babadinhos. Por isso, um último cuidado, a lista de materiais escolares, visto que ela pode ser a fonte da recaída. São muitas as tentações no mercado. Reforçadas ainda pelo: “Compra mãe!”. É bom ponderar que, nessa etapa da educação, geralmente, os itens solicitados na lista serão de uso coletivo, pois a socialização é o grande objetivo a ser atingido pela escola na Educação Infantil. Personalizar a lista (Ben10, Barbie) é dificultar o trabalho do professor, que além das outras particularidades da adaptação, terá que desconstruir o sentimento de posse alimentado pela família. Voltando à primeira gestação, imaginem uma mãe chegando à maternidade com sua mala “metodicamente” arrumada e o médico, munido de autoridade técnica, recolher a preciosa seleção do enxoval e juntar com os pertences de outras mães menos “cuidadosas” para uso coletivo. “Que antipático! Até adulto vira fera!”. É preciso pensar, diante da primeira lista, que haverá outros momentos para materiais individuais, assim como foi possível vestir o filho com laços e rendas depois dos primeiros dias de vida.
Calma é um fator decisivo nos primeiros dias na escola,  para que seu filho vá e volte feliz,  muitas relações de coletividade e de respeito ao outro (e à escola) precisarão ser legitimadas. Isso levará, no mínimo, uns três meses. Como no período das cólicas. Tensão, ajustes. Adaptação!

(Revisão ortográfica: Alcione Maschio)

3 comentários:

Unknown disse...

Fiquei muito feliz ao acessar o teu blog e, muito mais, porque poderei acompanhar teu trabalho de "pertinho".
Parabéns pelo texto... Foste muito feliz na comparação!
Um beijão no teu coração! Lu

Suzana disse...

Oi Cris, amei tua iniciativa e certamente estarei indicando este espaço para pessoas afins!!!!
Parabéns, um grande beijo de saudade
Suzana

Maria Docente disse...

Obrigada pela força meninas!
Tê-las me seguindo é uma enorme satisfação!
MARIA,