domingo, 26 de dezembro de 2010

Um livro para trabalhar a temática da morte com as crianças... (sobras natalinas)


Seguindo a sugestão da Confraria reinações (Caxias do Sul-RS), nesse Natal  presenteei meu filho com a obra "O Pato, a morte e a tulipa" . Linda! Superou expectativas! Um texto simples- complexo- profundo... As imagens do Pato aquecendo a morte e  da morte carregando o pato são de uma delicadeza ímpar. Texto e ilustrações, belíssimos!  Quem procura algo sobre o assunto, ou queira iniciar uma discussão acerca do tema precisa conferir.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Comer ou não o Menino Jesus?

Entre os presentes que Davi ganhou, no Natal, havia um presépio de chocolate. Passada a euforia da descoberta dessa guloseima, que era maciça (conforme comentário do pai), chegou a hora de saboreá-la. Davi decide iniciar pelas ovelhinhas, assim, as coloca em fila, como se fossem pular numa cerquinha... brinca com elas de saltitar e, com pulmões cheios, grita: “bé, bééééé”. A imitação só termina no glup, glup da digestão. Foram-se uma a uma! Eram seis. Segue a brincadeira com a vaca: “Muuuuuuuuuuu” e glup, glup... Já, com o burro o lance foi muito rápido, quase incompreensível: “inhóÓ”- QUÊ!
Comidos os animais, resolve dar atenção aos outros presentes. Havia ganhado uma bola do time favorito, um livro de piratas, uma pista para carrinhos de corrida; enfim, tinha motivos para distrair-se, e muito, na Noite de Natal. Poderia até ter esquecido o presépio. Nem estava com fome. Mas, agora, com os humanos personagens nas mãos, Davi aproxima-se do pai e pergunta:
─ Qual eu devo comer primeiro?
─ Tanto faz, são todos do mesmo chocolate – responde rapidamente o pai.
─ É, mas... eu não sei...
─ Não sabe o quê?
─ Por quem começar...
─ Então sorteie! (entra na dele, o pai)
Animado, Davi começa a definir a ordem da comilança:
─ Uni, duni, tê! Salamê, minguê! Um presente colorê... O escolhido foi... voooocê!
E lá se vão: primeiro um rei, depois o pastor, outro rei...
Até que... o sorteado pede pausa à degustação: era o Menino Jesus. Indignado com o salamê, minguê, Davi olha para o pai e, antes que o idealizador do sorteio interferisse, justifica:
─ Vou deixar o Menino Jesus por último. Ele é o principal!
O pai faz um sinal com a cabeça, como se concordasse com o argumento.
Davi segue no uni, duni..., come, então, mais um rei lentamente, já demonstrando que o excesso o enfastiava. Precisou fazer outra pausa. A nova vítima sorteada merecia. Era Maria. Olha novamente para o pai e explicando:
─ Se eu comer a Maria, quem vai cuidar do Menino Jesus!?
Sem esperar pela resposta, Davi abocanha o genitor. Foi-se o José, o maior em gramas – concluiu com a boca cheia.
Limpando os beiços, o menino acomoda numa porcelana branca a Maria e o Menino Jesus e guarda-os na geladeira...
Por alguns dias, Davi acompanha a presença de Maria e do Menino Jesus rodeados por outras guloseimas... Era como um novo presépio, em baixa temperatura...
Até que toma coragem e, mesmo indeciso sobre quem deveria comer primeiro – se mãe ou filho com os olhos fechados, abre a porteira do estábulo gelado... Suspira! Tateia rapidamente os chocolates, sem que a identificação das vítimas pudesse ser feita e, glup, glup, dá fim às sobras natalinas...
 (Maria Cristina Schefer- Publicado na Web Artigos: 23-12-2010)

                                        (Presépio de massinha de modelar feito pelo Klaus- 7anos)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A selva e o mar (Rubem Alves)

Sua mãe nasceu no mar e era, inteirinha, amor ao mar. Ah! Você quer saber o que é o amor... Amar é querer trazer para bem perto aquilo que está longe, abraçar, esforço de pôr dentro aquilo que está fora, beber, com prazer, aquilo que fez os olhos sorrir. Pois é: ela bebia do mar tudo o que via, e o mar nela morava e ela o mar namorava: a imensidão azul mistério, as coisas que viviam nas suas funduras: corais vermelhos, algas verdes, peixes de cores brilhantes, incebergs branco-gelados de mares não vistos, músicas silenciosas de catedrais encantadas. Assim era o corpo da jovem. Você acha estranho? Pensava que o corpo era feito de carne, de sangue e de ossos? Puro engano. Nosso corpo é feito daquilo que o amor pôs lá dentro. E onde o amor quis, mas não pôde, ficou um vazio, que é onde mora a saudade... Assim era o corpo daquela jovem, quase menina: havia os sons acolhidos por seus ouvidos, barulho de ondas, um paciente ir e vir sem fim como a vida... Odores de coisas marinhas entravam lá dentro pelas narinas pulsantes e faziam bem a lugares ocultos; perfumes azuis de marolas e aromas de pérolas brancas... (Você já sentiu isso, o bem que um perfume faz, num lugar de dentro da gente que a gente nem sabe onde fica?) Sua pele brincava com a água e se arrepiava toda quando a brisa lhe fazia cócegas. E em seus olhos se viam gaivotas de brancas asas e barcos a vela ao vento. Quem lhe ouvisse o coração bater juraria que eram ondas... Seus seios, conchas lisas que abrigavam criaturas macias. Seu ventre, lugar de mistérios, como a vida secreta do mar, caverna escura onde nadavam peixes minúsculos e invisíveis sementes ficavam à espera. Mas havia uma coisa que ela não podia entender: era uma tristeza, suave, nostalgia. Não lhe bastava o mar infinito. Havia os Vazios, Desejos, Ausência imensa, Saudade de algo que lhe faltava. E ela sonhava com coisas longínquas, e as amava: florestas que nunca vira, e pensava que seria bom se, um dia, o mar e a selva se encontrassem e o azul e o verde se misturassem. Ela amava o mar que nela morava, e a selva, ausência, pedaço que lhe faltava. E cantava o nome do seu amado: "Os bosques são belos, sombrios, fundos..." (Frost). Seus olhos se voltavam então para o alto das montanhas, longe, e viam as silhuetas de árvores, no céu e imaginavam belezas e mistérios diferentes daqueles do mar. E amava a floresta com que sonhava. Seu pai nascera no meio da selva e o seu corpo crescera com árvores velhas de muitos anos, frutas silvestres de muitas árvores, musgos macios de muitos verdes, aves de vozes de muitos cantos, grilhos ocultos em muitas noites, correntes de águas de muitas pedras, flores silvestres de muitos cheiros, terra macia de muitos brotos, vidas que renascem de muitas formas... Ah! Assim era o seu corpo. "E como ele se entregava! Amava seu mundo interior, caos selvagem, bosque antiquíssimo, sobre cujo silencioso despertar verde-luz seu coração se reerguia" (Riilke). Mas ele também tinha um sentimento triste, vazio, doía-lhe o lugar da Falta. E quando o sol se punha sobre o mar, ele sentia uma nostalgia imensa. Como se a floresta não lhe bastasse, o desejo por algo belo-distante, ausente. E, da sombra verde das árvores, olhava a azul luz do mar, solene no horizonte, brincalhão na areia, e desejava mergulhar nele, e pensava que felicidade é isto: a selva penetrando no mar. Um dia os dois se encontraram, se amaram, a floresta mergulhou no mar, o mar abraçou a floresta, suas sementes se misturaram e uma criança nasceu... E ela tinha no seu corpo um pouco de mar e um pouco de selva... Ah! Felicidade maior não poderia haver, e até pensaram que seria eterna... Foram morar lá em cima, no lugar do pai, os três. Felizes...O pai, no seu mundo verde, velho amigo, conhecido. A mãe, no mundo verde, mistério com que sempre sonhara e desejara. A criança, feliz, por ser selva e ser mar. Mas o tempo passou e a felicidade acabou. No peito da jovem foi crescendo uma dor. Primeiro era saudade mansa que virou tristeza: e a floresta, tão bela de longe, virou prisão... E o jovem que tanto amara ficou estranho, gigante verde, senhor da floresta, seu carcereiro. Ah! Ela já não podia amar a selva e sua face se transtornou. E o mar que morava nela ficou sinistro, uma tempestade enorme cresceu por dentro, e no seu rosto quebraram ondas em cuja fúria até mesmo a criança se debatia. E a jovem virou tristeza por se ver assim, tão feia. (É preciso que você saiba disto: nós amamos as pessoas por aquilo que de belo elas fazem nascer em nós. Como se fossem espelhos. Se nos vimos belos naqueles olhos que nos contemplam, nós as amamos. Mas, se nos vimos feios, as odiamos...) E ela então compreendeu que, por mais belas que as matas fossem, ela seria sempre uma estranha, exilada, sem lar. E foi o que disse a seu companheiro, que a entendeu e disse que não importava. Viveriam à beira-mar para que ela reencontrasse a felicidade perdida. E assim aconteceu. A alegria voltou. Mas o tempo passou e a saudade chegou agora ao peito do jovem, onde a solidão foi crescendo, tristeza de quem vive em degredo, prisioneiro de ilhas cercadas de mar sem fim. E a jovem que ele tanto amara se transfigurou num mar de tristeza,ondas se repetiam de noite e de dia, sem parar: "Nunca mais, nunca mais..." E a floresta que morava nele se enfureceu, e acordaram os bichos sinistros que dormiam nela, cobras e escorpiões, e aflorou tudo naquele rosto outrora manso, e ele ficou sinistro, e havia fogo em seu olhar,e espinhos cortantes no seu falar. E ele chorou ao ver o espanto nos olhos da sua criança, espelhos tristes, e sentiu que já não era o mesmo, e nunca o seria, longe da selva, que era seu lar. E então compreenderam que, para continuar a ser belos, era preciso que o mar e a floresta fossem verdadeiros consigo mesmos e morassem nos seus lugares. E assim viveram, longe: a jovem, à beira-mar, saudosa da floresta, o jovem, na floresta, com saudades do mar... E é por isso que as pessoas se separam, por mais que isso as dilacere, para ficarem bonitas de novo e voltarem aos mares e florestas perdidos... Cada separação é uma busca de um amor que se perdeu: em cada partida, um desejo de reencontro.Quanto à criança, diziam os outros, que nada sabiam: "Não tem onde morar..." Ignoravam os mundos onde vivera e que no seu corpo pequeno moravam um mar e uma selva. E se ora estava com a mãe, à beira-mar, ora com o pai, na floresta, não é que um lar lhe faltasse. Ela era mar, era floresta, e podia sentir-se em casa onde quer que estivesse.
(grifos nossos)
Lero-lero: De acordo com os noticiários de TV  tivemos, neste ano,  um recorde nos divórcios. Mudanças na legislação facilitaram  os processos de separação. Muitas crianças resultantes de uma misturinha "selva e mar" buscam  respostas...
Gosto muito desse texto do Rubem (aliás, gosto de quase tudo que ele escreve). Conheci essa narrativa com a "Maria" Alice, de Caxias. Ela faz parte de meu repertório:  conto  muito!  Acredito (agora, mais ainda) que nos grupos de ouvintes sempre pode ter alguém precisando compreender uma separação.
Cliquem no título e caiam direto na "Casa do Rubem Alves"...

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Presentes de Natal para crianças? Pensemos!

Mês do Natal, as "crianças" vêm sendo bombardeadas com comerciais de toda ordem: roupas, calçados, brinquedos, enfim, uma série  de "coisas" com forte apelo comportamental. Sandálias com relógio que transformarão quem as possuir em Miss infantil. Ou, se menino, em  galã. Rampas que "prometem aventuras",  parques aquáticos que "prometem o lazer"...
Pobres crianças que emergem nos cenários apresentados na televisão e acreditam piamente na felicidade prometida... Pobres pais que "entram na deles" e fazem de tudo para realizar o sonho dos pequenos. Infantes pais, infantes filhos... Maturidade? Somente das equipes de marketing que sabem exatamente como vender o "pacote turístico".
Nos dias de hoje, um presente de Natal precisa partir da pergunta: o que você está precisando? Ou: de que você realmente gosta de brincar?
Além disso, as crianças precisam saber de quanto os pais dispõem para as compras. Crianças com mais de oito anos, provavelmente, já não acreditam no Papai Noel, permitir que escolham um presente a partir de um vale-compras pode ser bem divertido (instrutivo)... A decepção entre o anunciado e o "tateado" poderá ocorrer nas prateleiras e não depois que o produto foi adquirido pelos Noéis.
Sugestões:
Livros são sempre bons presentes, a Série Tubo Maluco da Girassol é muito legal, além da possibilidade das crianças aprenderem sobre um dado assunto, elas podem interagir com os jogos de trilha e com os personagens em miniatura. Nessa linha, muitas outras opções estão disponíveis nas "silenciosas" prateleiras das livrarias. Jogos são brinquedos auto-renováveis novas relações, emoções e aprendizados se efetivam em cada contato.
Os brinquedos de encaixe  (tipo LEGO) também fogem do estático, além de feitos com material durável (não viram sucata no segundo mês) permitem a criação e a interferência direta das crianças. As peças viram casas, estradas, postos, castelos...
Para finalizar, os "kits férias" com os mais diversos materiais: colas coloridas, canetas, massinhas de modelar, purpurina, argila, miçangas, etc. Convites para o envolvimento...

"Diferente de lembrancinhas, um presente é sempre  o desejo de alguém para alguém": a subjetividade está contida no embrulho... Incentivar ou não o consumismo, a criticidade, o MOVIMENTO, depende de nós, MARIAS!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Renê Silva, quem foi teu mestre?

Quem "passou os olhos" na programação televisiva de sábado, certamente ficou surpreso com o menino que criou o twitter vozdacomunidade no morro do Alemão- RJ. O jovem coordena um grupo de "pretensos jornalistas" com idades que variam entre 11 e 17 anos. Do morro, eles postaram notícias da ação policial, de ocupação das favelas, ocorrida semanas atrás.
Qual o diferencial dessas informações? 
Simples: a gurizada falava sob a ótica do morador, do adolescente periférico. Sem formalidades, exageros ou pré-conceitos.
Tudo feito em um único computador, numa mesa de cozinha.
Talento reconhecido, foram presenteados por um programa de auditório. A turma do Renê ganhou uma "redação" com estúdio, computadores e até bolsas de estudos pós-ensino médio.
Sem dúvida Renê é "lótus", seu Mestre principal (apoiador, incentivador) foi o avô. Um Mestre (educador) também é isso, alguém que não impeça que o outro veja além. Que empresta os ombros mesmo desconhecendo teorias filosóficas e aquilo que o outro queira ver... Alguém que permita que o outro sonhe...
Desejo que mais esse "SILVA" continue enxergando além do morro, para além do complexo, mas que ele não se esqueça onde estão seus pés e em nome de quem está falando... (seu twitter precisa manter-se instituição de periferia).
E, principalmente, que o Re não saia dos olhos do avô! São olhos de MÃE!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Natal com a turma da Mônica é sempre muito bom!

Existe missão mais nobre do que devolver uma estrela para o céu?
Segue uma narrativa linda para o mês do Natal, chamem os pequenos para a sala:
Cliquem no título e caiam dentro do Portal da turma da Mônica: muitos jogos virtuais e tirinhas bem bacanas para as férias (dias de chuva).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Noite de Natal (Eduardo Galeano)

Fernando Silva dirige o hospital de crianças, em Manágua.
Na véspera do Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Os foguetes espocavam e os fogos de artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa, esperavam por ele para festejar.
Fez o último percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e estava nessa quando sentiu que passos o seguiam. Passos de algodão: virou e descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penumbra, reconheceu-o. Era um menino que estava sozinho. Fernando reconheceu sua cara marcada para a morte e aqueles olhos que pediam desculpas, ou talvez pedissem licença.
Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão:
_ Diga para... _ sussurrou o menino. _ Diga para alguém que eu estou aqui.
Fonte: Livro dos abraços.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

53º no relatório PISA? Na, na, ni, na, não...

Levando em conta que a avaliação é feita em 65 países, conclui-se que o Brasil está muito distante do ideal... O que falta?
Professoras maluquinhas como as do Ziraldo, escolas de magia feito as do Harry Potter, experiências significativas como as do Franjinha... "Leiturização em todos os MORROS, para todos os sábios-sabiás:verde-amarelos!"...

sábado, 4 de dezembro de 2010

A coruja e a águia- Monteiro Lobato

Coruja e águia, depois de muita briga, resolveram fazer as pazes.
- Basta de guerra - disse a coruja. O mundo é tão grande, e tolice maior que o mundo é andarmos a comer os filhotes uma da outra.
- Perfeitamente - respondeu a águia. - Também eu não quero outra coisa.
- Nesse caso combinemos isto: de agora em diante não comerás nunca os meus filhotes.
- Muito bem. Mas como posso distinguir os teus filhotes?
- Coisa fácil. Sempre que encontrares uns borrachos lindos, bem feitinhos de corpo, alegres, cheios de uma graça especial que não existe em filhote de nenhuma outra ave, já sabes, são os meus.
- Está feito! - concluiu a águia.
Dias depois, andando à caça, a águia encontrou um ninho com três monstrengos dentro, que piavam de bico muito aberto.
- Horríveis bichos! - disse ela. Vê-se logo que não são os filhos da coruja.
E comeu-os.
Mas eram os filhos da coruja. Ao regressar à toca a triste mãe chorou amargamente o desastre e foi justar contas com a rainha das aves.
- Quê? - disse esta, admirada. Eram teus filhos aqueles monstrenguinhos? Pois, olha, não se pareciam nada com o retrato que deles me fizeste...
Para retrato de filho ninguém acredite em pintor pai. Lá diz o ditado: quem o feio ama, bonito lhe parece.
Fonte:Fábulas. São Paulo, Brasiliense, 1972. p. 10-11

Lero-lero: Na cidade onde passei a infância havia um programa de rádio chamado "Historinhas ao pé da cama". Era apresentado no final das tardes de sábado e eu, como muitas outras crianças, tinha "cadeira cativa" ao lado da "caixinha falante". Na escola, as histórias eram comentadas e recontadas nas segundas-feiras. Essa história das corujinhas fazia parte do repertório do contador-locutor: Tio René. Gosto muito de utilizá-la em reuniões de pais. Também tenho três corujinhas (lindas!) e, como mãe, volte e meia me pego fazendo o "discurso da ave mãe".

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A idade para aprender a ler...

"O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam nos bancos:
cinco horas de suplício uma crucificação [...] Não há prisão maior do
que escola primária do interior. A imobilidade e a insensibilidade me
aterraram. Abandonei os cadernos e auréolas, não deixei que as
moscas me comessem. Assim, aos nove anos ainda não sabia ler." (RAMOS, 1993:188)
Fonte: Infância
Lero-lero: Apesar do autor narrar quão hostil era o ambiente escolar na sua infância (obra escrita em 1945) percebe-se, nesse relato, o quanto a condição de ser ou não leitor (com data marcada) imperava na sociedade e na mente infantil. Ainda bem! Hoje as coisas mudaram e, pelo menos na teoria, o tempo de cada alfabetizando é ímpar. Mais curioso, em se tratando de Graciliano, é o fato dele, julgado "retardatário no campo das letras", ter se tornado um dos maiores escritores de nosso país.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tiririca em nova performance: "clap, clap"


Respeitável público!
Com vocês, a partir do dia 17 de dezembro, o deputado federal da alegria: Francisco Everardo, o TIRIRICA!
Viva à "Forentina"! Viva à absolvição desse brasileiro!
Andei muito ocupada, mas minhas mãos estavam ansiosas para teclar sobre o “diagnóstico de analfabetismo funcional” do Tiririca. Lamentei quando a justiça não chamou um pedagogo para aplicar o teste... Mas enfim, pelo menos a fonoaudióloga deu um parecer correto (que resultou na absolvição). E talvez, numa outra ocasião, a justiça chame um pedagogo para avaliar a audição de algum réu “que insista” em dizer que ouve...
Desabafo corporativo feito, seria um absurdo se o deputado federal eleito, Francisco Everardo Oliveira da Silva (nome extenso, de rei; sobrenome de presidente, de brasileiro) não pudesse usufruir da conquista nas urnas. Ele foi o mais votado do país e apesar de alguns creditarem essa vitória ao que chamam de “voto de protesto”, eu discordo. Pois, não acredito que 1,3 milhões de pessoas estejam usando as urnas para “inteligentemente” protestar... Via de regra, expressar “algo” de outro modo é coisa de letrado. É literatura! E se for isso, então os votos dados ao Tiririca também podem ser chamados de VOTOS INTELIGENTES...
Talvez o indizível, nessas circunstâncias, é que muitos eleitores consideram o Tiririca tão ou mais apto que os demais candidatos. Além da possibilidade ( não levada em conta) de que o povo compreendeu o discurso do candidato.
Dar ficha suja ao Tiririca (como queriam alguns) pelo fato de ser analfabeto seria insensatez. O Brasil é um país onde 14,1 milhões de pessoas não sabem ler (IBGE -2010) e em que a situação de analfabeto não é empecilho para votar. O problema das eleições vai além da instrumentalização técnica para a leitura, trata-se do analfabetismo político tanto de eleitores quanto de eleitos.
Meu desejo é que o deputado Francisco Everardo continue a alegrar o povo.
Cabe lembrar que, a origem da representação de palhaço (profissão do eleito) se deve aos lambuzões do passado, homens ordinários, periféricos, excluídos que “geravam” deboches. Segundo consta na Wikipédia (mas em outros termos) é na maquiagem e nas roupas do palhaço que a condição de “coitado” se evidencia: o branco ao redor da boca remete à espuma da cerveja onde afoga as mágoas, o nariz vermelho é o resultado de tanto bater com a cara no chão! Roupas largas e sapatos grandes, revelam vestes doadas. Desse modo, Tiririca será rei em Brasília e não o "bobo da corte". Ele representa uma vasta categoria que supera o seu eleitorado.
("clap, clap")
Informação: De acordo com Irina Borlowa, diretora da Unesco, de cada três analfabetos no mundo, dois são mulheres. (dados de 2010)
Sugestões:
1- A história do Tiririca “humilhado nacionalmente” pelo fato de não ter um atestado de frequencia escolar, lembrou-me o filme O leitor e deixo como dica para os alfabetizadores, juízes, políticos, "fonos"...
2- Dia 10 de dezembro é o dia do palhaço, que tal um projeto de estudos sobre esse personagem mundial que trabalha em prol da alegria?
Nessa ação será possível estudar os principais palhaços brasileiros, organizar um sarau de piadas, oficinas de cambalhotas, festa à fantasia, etc. A alegria vai tomar conta da sala!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

GOLS DE COCURUTO- Luis Fernando Verissimo

O melhor momento do futebol para um tático é o minuto de silêncio. É quando os times ficam perfilados, cada jogador com as mãos nas costas e mais ou menos no lugar que lhes foi designado no esquema - e parados. Então o tático pode olhar o campo como se fosse um quadro negro e pensar no futebol como alguma coisa lógica e diagramável. Mas aí começa o jogo e tudo desanda. Os jogadores se movimentam e o futebol passa a ser regido pelo imponderável, esse inimigo mortal de qualquer estrategista. O futebol brasileiro já teve grandes estrategistas cruelmente traídos pela dinâmica do jogo. O Tim, por exemplo. Tático exemplar, planejava todo o jogo numa mesa de botão. Da entrada em campo até a troca de camisetas, incluindo o minuto de silêncio. Foi um técnico de sucesso mas nunca conseguiu uma reputação no campo à altura de sua reputação no vestiário. Falava um jogo e o time jogava outro. O problema do Tim, diziam todos, era que seus botões eram mais inteligentes do que seus jogadores. (grifos nossos)
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/08/1993.

Lero-lero: Tal narrativa (implacável) pode ser lida como analogia ao planejado e ao realizado nas escolas. Ou melhor, ao distanciamento entre propostas pedagógicas (gestadas pelas elites escolares) e o resultado prático do ensino "pensado". Trabalho em equipe se faz no comprometimento de todos, tendo por base o entendimento de uma proposta somado à competência técnica para efetivá-la. Caso contrário, é pedagogia de Cocuruto ou "enlatada": sem golos!