Bem, conforme contei aqui, utilizei para trabalhar na disciplina de verão: Supervisão e Orientação Escolar (UERGS), fábulas chinesas. A opção de fábulas chinesas não foi aleatória, tenho incentivado a "virada dos pescoços" para o lado oposto daquele que nos treinaram a olhar. Além disso, gosto de "lembrar" onde tudo começou e reforçar que temos muito a aprender com a literatura oral, de base, de essência!
Seguem as fábulas selecionadas, bem como, uma frase dita pelos estudantes após a leitura quando estabeleceram relações entre o tema da narrativa e a prática da coordenação escolar.
Abraços, e bom carnaval a todos!
O velho louco que
removeu as montanhas – Liezi
(Coordenação escolar: projetos de
curto, médio, e longo prazo)
Perto das montanhas Taihang e Wangwu, vivia um velho
de noventa anos que todo mundo achava louco. Ele tinha uma ideia fixa, a de
remover montanhas da frente de sua aldeia e levá-las para outro lugar. Ninguém
acreditou que ele fosse fazer isso.
Certa noite todos foram dormir tranquilos. No dia
seguinte, o velho louco acordou bem cedo e disse novamente que iria remover as
duas montanhas para abrir um caminho até Hanying, onde os agricultores iam
vender seus produtos no mercado.
Ele começou a encher um cesto com pedras e, pouco
depois, passou perto de sua casa com a carga nas costas.
Sua mulher perguntou:
- Onde vai jogar a montanha?
- No mar Bohai.
Logo seu filho e seus três netos
foram trabalhar com ele. Juntos quebravam as pedras, tiravam a terra, enchiam
com ela os cestos e iam jogá-las no mar Bohai. Até o filho de sete anos da
viúva, que nascera depois da morte do vizinho, veio ajudá-los. Eles trabalhavam
de domingo a domingo, de primavera a primavera, voltando para casa apenas uma
vez por ano.
Mesmo algumas pessoas que não acreditavam que fosse
possível tirar as montanhas do lugar de dispuseram a ajudar o velho louco.
Primeiro sua mulher e seus outros filhos. Depois os vizinhos e os vizinhos de
seus vizinhos. Mais tarde acharam, sim, que a montanha tinha de dar passagem
até Haying.
Um sábio que vivia na curva do rio tentou dissuadi-lo
daquela loucura.
- Deixa de ser doido. Um homem velho e fraco como
você, incapaz de carregar um saco de areia, vai remover duas montanhas para
mudá-las de lugar?
O velho deu um suspiro. Olhou para a montanha, olhou
para o mar Bohai, lá longe, como se calculasse quanto tempo faltava para
terminar o trabalho, e disse:
- Se eu morrer, deixo meu filho e o filho do meu
filho, o filho do meu neto, o filho do filho do meu neto. Já as montanhas, não
crescem mais nem aumentam de tamanho. Por isso eu vou continuar meu trabalho.
O sábio da curva do rio não soube o que responder.
A moça que queria comer no leste e dormir no oeste - Ying Shao
(Coordenação escolar: exige posicionamento)
No estado de Qi, havia uma moça
em idade de casar. Era muito bonita e tinha muitos pendentes, mas não sabia que
noivo escolher. Um dia, dois moços diferentes foram à sua casa pedi-la em
casamento. Um morava no Leste e outro no Oeste.
O moço que morava no Leste era feio, mas vinha de uma
família muito rica. O moço que morava no Oeste era bonito, mas vinha de uma
família muito pobre. Os pais da moça não sabiam qual marido apresentar para sua
filha. Então eles permitiram que ela desse sua opinião sobre a pessoa com quem
queria se casar.
A moça ficou encabulada. Passou o tempo, e nada de
uma resposta. Seu pai chamou sua mulher para um canto e perguntou:
- Nossa filha não tem coragem de falar?
A mãe foi até onde estava a filha e disse:
- Você não tem coragem de falar? Se está com
vergonha, apenas aponte para o rapaz de sua preferência. Quer dizer, nem
precisa apontar. Toque em seu próprio braço. Se tocar no braço esquerdo, é que
gosta do rapaz do Oeste, que está na sua esquerda. Se tocar o braço direito, é
que gosta do rapaz do Leste, que está na sua direita.
Depois de algum tempo, a moça voltou, mas ainda não
tinha tomado decisão. De repente, ela tocou em sue braço esquerdo. Queria então
se casar com o moço do Oeste. Porém, em seguida, tocou também em seu braço
direito.
– O quê? Você pretende se casar com os dois? –
perguntou o pai, surpreso.
– Não – ela respondeu, falando pela primeira vez, com
uma voz sussurrante. – Eu quero comer na casa do moço do Leste e dormir na casa
do mosto do Oeste.
Seus pais disseram:
– Não é possível ter sempre tudo o que se quer. Às
vezes é preciso fazer opções!
A moça pediu mais algum tempo para pensar.
Esperando um
coelho – Han Feizi
(Coordenação escolar: exige ação)
No reino de Song existia um camponês que tinha uma
árvore dentro de sua propriedade.
Ele não gostava de arar a terra e mantinha a
esperança de que caísse do céu alguma coisa boa. Um dia, enquanto estava
lavando, viu que um coelho vinha correndo afoito e, não conseguindo parar,
bateu no tronco da árvore, quebrou o pescoço e morreu.
O camponês ficou feliz da vida, pois não precisou
fazer nenhum esforço para conseguir um coelho para comer. Decidiu então não
trabalhar mais, ficando embaixo da árvore à espera que outro coelho fizesse a
mesma coisa.
Passaram-se muitos dias e nada de um coelho afoito
correr na direção da árvore. As pessoas começaram a rir dele, dizendo que era
um folgado, nessa espera por um coelho.
Uma boa oportunidade deve ser aproveitada, mas não
fique de braços cruzados esperando pela sorte.
A direção
errada – Liu Xiang
(Coordenação escolar: exige planejamento)
O rei de Wei preparava um ataque à Handan. Ji Lian
sabendo disso, sem trocar de roupa e sem mesmo pentear os cabelos, foi à
procura do rei para uma audiência. Chegando ao palácio, disse ao rei:
- Alteza, hoje, quando vinha para a sua audiência, vi
um homem indo para o norte. Eu quis saber para onde ele ia. Ele respondeu que
ia para o reino de Chu. Eu achei estranho e indaguei: “Se deseja ir para o
reino de Chu, por que segue para o norte?” Ele me respondeu: “Porque tenho bons
cavalos”. Ponderei: “Mesmo com bons cavalos, esse não é o caminho que leva ao
reino de Chu”. E o homem respondeu: “Eu tenho muitos cavalos”. Eu retruquei:
“Mesmo tendo muitos cavalos, esse não é o caminho que leva ao reino de Chu”. O
homem respondeu: “Eu tenho bastante ouro para as despesas da viagem”. Eu
repliquei: “Mesmo com muito dinheiro, esse não é o caminho que leva para o
reino de Chu”. O homem respondeu: “Eu tenho ótimos cavaleiros, capazes de
conduzir cavalos até o reino de Chu”. Eu falei: “Por mais que você tenha muitos
e bons cavalos, com ótimos cavaleiros, jamais chegará ao reino de Chu seguindo
na direção errada”. Agora as ações do rei estão todas concentradas no domínio e
na conquista. Mas se Vossa Alteza ficar dependendo apenas da grande extensão do
seu reino e da força de suas tropas para atacar Handan, com a finalidade de
ampliar as fronteiras e ser mais famoso, vai conseguir um resultado oposto ao
desejado e se afastará cada vez mais de seus objetivos. É como ir ao reino de
Chu para direção errada.
O amor pelos dragões – Shen Buhai
(Coordenação escolar: possui atribuições singulares)
Zigao, o Senhos de Ye, gostava
tanto de gradões que havia mandado esculpir e pintar vários deles na sua casa e
nas louças e só vestia roupas que tinham dragões bordados.
O dragão do céu, sabendo disso, desceu à Terra,
entrou com a cabeça pela porta da casa e enfiou a cauda na janela. Ao perceber o
que estava acontecendo, o Senhor Ye fugiu, morrendo de medo.
Isso mostra que o Senhor de Ye não gostava
verdadeiramente de dragões. Ele gostava daquilo que parecia ser um dragão, mas
não dos dragões de verdade.
Amolando uma
barra de ferro – Chen Renxi
(Coordenação escolar: exige preparo, conhecimento)
Quando era pequeno, o grande poeta Li Bai não gostava
de estudar. Um dia encontrou uma senhora idosa na calçada, amolando uma barra
de ferro. Ele ficou curioso e perguntou o que ela pretendia fazer.
- Pretendo amolar essa barra de ferro até que ela
vire uma agulha bem fina, para que eu possa costurar um vestido – respondeu
ela.
Após isso, Li Bai compreendeu o que ela estava
querendo dizer e, mais tarde, tornou-se um grande poeta.