sexta-feira, 27 de julho de 2012

Não contam fábulas? Como assim?


O parto da Montanha
Há muitos e muitos anos uma montanha começou a fazer um barulhão. As pessoas acharam que era porque ela ia ter um filho. Veio gente de longe e de perto, e se formou uma grande multidão querendo ver o que ia nascer da montanha.
Bobos e sabidos, todos tinham seus palpites. Os dias foram passando, as semanas foram passando e no fim os meses foram passando, e o barulho da montanha aumentava cada vez mais.
Os palpites das pessoas foram ficando cada vez mais malucos. Alguns diziam que o mundo ia acabar.
Um belo dia o barulho ficou fortíssimo, a montanha tremeu toda e depois rachou num rugido de arrepiar os cabelos. As pessoas nem respiravam de medo. De repente, do meio do pó e do barulho, apareceu ... um rato.
                                                                 (Fábulas de Esopo- Companhia das Letrinhas, 1994)

Lero-lero: A informação de que as fábulas foram criadas para moralizar os ouvintes  tem retirado esse gênero do repertório de rodas de Literatura. Percebe-se isso na fala de muitas professoras. 
Realmente, por muito tempo os impressos do gênero  vieram seguidos de uma moral (também impressa) padronizadora, contudo, as obras atuais não trazem nenhum recadinho universal  ao leitor. Portanto, utilizar  fábulas pode ser uma boa estratégia para fazer pensar... 
Além disso, crianças adoram animais que falam, cadeiras que desafiam mesas, e montanha berrando, então? 
Bjs,


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Contando e ouvindo, de volta da Serra gaúcha!

Acabo de voltar da Serra, "ufa, que trânsito horrível, dificultado por uma serração ofuscante".  Estive trabalhando com professores de escolas estaduais: no colégio Imigrante, em Caxias, e no São Rafael, em Flores da Cunha. Lugares lindos! 
O frio teve que ser espantado com muito chá e café. Aliás, cada intervalo foi um banquete, e o grostoli marcou os hábitos da comunidade serrana à mesa. 
Fiquei feliz em rever amigas, as professoras Silvia e Eni estavam na sala em que realizei a oficina de Letramento em Caxias. Eta, mundo redondo! Tricotamos... puxamos fiozinhos... projetamos...
Em Flores aprendi, entre outras coisas, a história do símbolo do município: o galo.
Segue, como me contaram...

                                      Por que o galo é símbolo do município de Flores da Cunha?

                                                                                                        (Maria Cristina Schefer)
                                                          (imagem do blog: Per Bacco)

          Há muito tempo a cidade recebeu um mágico. O artista reuniu no salão paroquial quase toda a comunidade para o que seria uma apresentação magnífica. Foi com um megafone que ele chamou o povo prometendo cortar a cabeça de um galo (ao vivo) e que depois de recolocá-la  faria o bicho voltar a cantar. Houve briga por ingressos, que foram  pagos  ao artista antes do espetáculo iniciar. 
        No dia do evento, feitas meia dúzia de apresentações singulares, percebendo a impaciência do povo para que o grande momento do galo ocorresse, o forasteiro solicitou que duas pessoas do público subissem ao palco  e segurassem o  galo. Mais do que de pressa, o prefeito e o intendente do município se prontificaram. 
            Aos olhos de todos, o galo (créc) perdeu o pescoço!  
           O prefeito foi incumbido de segurar a cabeça do bicho e o intendente o corpo até que o mágico  fosse buscar (atrás da cortina) o seu pozinho reparador / cantor. Depois de passados alguns bons minutos, o prefeito, o intendente e o povo começaram a estranhar a demora do artista... foi quando se deram conta que ele tinha (zás) desaparecido...
             Por muitos dias o pobre foi procurado, em vão, raspou pé!
        Admitido o calote, o povo de Flores virou alvo de deboche regional e o fato custou a ser esquecido! (?) 
             Ainda hoje, quando alguém é logrado na cidade dizem que foi vítima do galo!
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Lero-lero: A cidade sofreu um logro coletivo, entretanto, foi presenteada com um artefato cultural muito inspirador. Aliás, diante do eco da história desse galo, que tem até monumento, parece falta de   pensamento mágico dizer que o galo não voltou a cantar...  eu juro que ouvi um có, có, có, quando cruzei o pórtico da cidade... se bem que era cedo! Muito cedo!
Adorei! Beijos especiais para as professoras de Mato Perso! Irei (sim)  à festa de Santa Juliana!
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Semana que vem vou para Bento, disseram-me que lá tem uma história de um anãozinho de jardim que já rendeu muita briga... vou ouvi-la da fonte: o povo, depois conto aqui...
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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Canção do ver ( Manuel de Barros)


 Canção do ver  (1)

Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra.
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era
só abrir a palavra abelha e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.

Manoel de Barros, em “Poemas Rupestres” (2004)

Poemas do Manoel

quinta-feira, 5 de julho de 2012

CRIME DE REALENGO: O SUTIÃ LILÁS NA TROMBA DO ELEFANTE VERDE E AMARELO


CRIME DE REALENGO: O SUTIÃ LILÁS NA TROMBA DO ELEFANTE VERDE E AMARELO
                                                                                                
                                                                                       Maria Cristina Schefer[1]
                                                                                       Amanda Motta Angelo Castro[2]
                                                                                       Blasius Silvano Debald[3]

RESUMO: Este artigo, escrito a seis mãos plugadas à rede, examina, do ponto de vista dos estudos culturais: linguagem e gênero, o assassinato de 12 adolescentes brasileiros. Esse crime ocorreu numa única ação, dentro de uma escola, na periferia do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, praticado por um ex-aluno, evento que inaugurou a presença do Brasil no cenário global das brutalidades gigantescas, àquelas fadadas à não-conclusão. Isso, dado as inúmeras variáveis que atravessam as tentativas de se desenhar um “elefante”, sem nunca ter visto ou se quer tateado o animal. O recorte aqui demarcado e o problema da imprecisão serão delineados na ciência técnica da dificuldade de se enxergar para além do aparente, bem como na verificação dos perigos inerentes à banalização de um crime mediante a disputa pela informação entre a mídia e os órgãos investigativos oficiais. Quando, ambos, passam a supor ou nomear fatos (terrorismo, esquizofrenismo) e “coisas” (crianças-terroristas), no calor da emoção, sem distanciamento e rigor, ignoram, respectivamente, outras possibilidades (crime de gênero-exclusão) (jovens-mulheres) e legitimam aquilo que o senso comum e o Ibope alimentam. Recorre-se, como tentativa de dirigir um olhar ampliado, principalmente, à arte cinematográfica e às lentes de aumento de Gus Van Sant [4] (2003), em seu documentário crítico sobre o “similar caso” de Columbine (EUA).

Palavras-chave: Linguagem. Mídia. Terrorismo. Gênero.

Introdução

A parábola budista Os cinco cegos e o elefante, que conta o desafio que um sábio propôs a cinco cegos, para que descrevessem o paquiderme apenas tateando parte do animal, trata-se de uma analogia (de origem popular) que aponta para a impossibilidade de compreensão de um todo, quando se atém a apenas uma parte. Tal conto serviu de inspiração para nomear o documentário de Gustav Van Sant, Elephant (2003) sobre o crime de Columbine (EUA). Ao utilizarem esse “Elephante” para construir o título deste artigo, sobre o crime de Realengo, os autores (por tabela) imprimiram-lhe a parábola citada. Isso sugere aos leitores estudos preliminares (via cinema e narrativa popular) para a “pesada” leitura que segue. De outro modo, os doutorandos buscaram, nesses mecanismos exploratórios, inspiração para refletir sobre outra questão crucial presente ao longo da história da humanidade: a narrativa de fatos em meio a “cegueiras contingenciais”. Especificamente, no caso do crime brasileiro, é possível verificar o velamento da violência praticada contra a mulher, chamando a atenção para o poder de autoridade social dos relatores, dos informantes, de certos excertos e silêncios textuais, que mudam não apenas a manchete de uma “ocorrência”, mas todo o tratamento dado à questão. Pobres, meninas pobres da “escola” brasileira.

                  
Os fatos

            Rio de Janeiro, 7 de abril de 2011. A data no quadro foi escrita. Aparentemente, nenhuma novidade na rotina da Escola Municipal Tasso de Oliveira,                                      situada no bairro do Realengo (zona oeste). Iniciava-se, o que poderia ter sido, mais uma manhã de confraternizações e estudos. Poderia! Não se sabe exatamente, mais ou menos, às 8h30min adentrou, em uma das salas do segundo andar, um suposto palestrante. Tinha um jeito familiar (disseram) e carregava uma bolsa que parecia pesada. Ou ele era pesado?  O fato é que abriu a “tromba” sobre a mesa da professora (que, instintivamente, aguardou pela surpresa próxima da porta); sacou duas armas e começou o que, segundo relatos, pareceu inicialmente uma brincadeira. Uma sequência de mais de cem disparos, nessa e em outra sala (com pausa para recarregar os revólveres de calibres 38 e 32) ausentou do caderno de chamada, para sempre, 12 adolescentes, dentre eles, dez do gênero feminino. E, desse modo, não foram alvos aleatórios, pois houve uma pré-seleção por parte do agressor; os rapazes foram poupados, bem como as duas professoras. Fato, que foi verificado na perícia, na materialidade do crime, nos depoimentos, pois, segundo os estudantes ainda presentes, o meliante centrou sua fúria na cabeça das meninasDe gaiato ou por identificação, pois memória de elefante é grande, morreram: Igor Moraes da Silva, 13 anos, e Rafael Pereira da Silva, 14 anos. O primeiro sonhava ser jogador de futebol; o segundo, amante de jogos virtuais, estava encaminhando documentação para trabalhar no programa Menor Aprendiz.[5] Algo nesses dois ratinhos (machos) incomodou o assassino.
            Já as escolhidas para morrer foram: Mariana Rocha de Souza, 12 anos, estudiosa, jogadora de handebol e de queimada[6] na escola, fã do Restart [7] e de Luan Santana[8]; Ana Carolina Pacheco da Silva, 13 anos, somente reconhecida pela família um dia depois do incidente; Bianca Rocha Tavares, 13 anos, gostava de crianças e sonhava ser pediatra; Géssica Guedes Pereira, 15 anos, jogadora de vôlei na escola, gostava de dançar funk; Larissa dos Santos Atanázio, 13 anos. Na foto fornecida à imprensa, aparece posando para modelo; Laryssa Silva Martins, 13 anos, sonhava com a carreira militar: “Ela queria entrar na Marinha”, declarou um familiar; Milena dos Santos Nascimento, 14 anos, sonhava ser modelo e entrar para a faculdade e, por último, Samira Pires Ribeiro, 13 anos, frequentava a escola de Realengo a menos de um mês. Teriam os pais dessa moça dito, à porta da escola: “Aqui vais encontrar o mundo!”[9] (POMPÉIA, 1996, p. 1). Visto que, os problemas sociais de um modo ou de outro acabam se refletindo no comportamento dos estudantes, nas práticas escolares, por mais altos que sejam os muros que uma escola possua, eles são ineficazes no que diz respeito a barrar a violência e outras inferências da sociedade.
           Como lido, os mortos tinham sonhos situados e datados, de jovens ordinários,[10] periféricos, crentes nas possibilidades de emersão social futura. Na convergência desses desejos, agora imersos, tem-se a identidade dos estudantes.
            Contudo, cabe asseverar que, discursivamente, a adolescência lhes foi negada pela mídia, pela sociedade, pois, ao contrário do que delimita o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal 8.069/1990), como faixa etária da infância:

 Art. 2º. Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade,

          Os narradores da tragédia optaram por designar os mortos como crianças, infantes (não falantes). Já, objetivamente, os sobreviventes viraram informantes; doutro modo, os noticiantes negligenciaram o ECA, no que diz respeito ao uso da imagem de pessoas na faixa etária entre zero e 18 anos: “Art.17. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias, crenças, dos espaços e dos objetos pessoais.”
            Nesse aspecto, é bom “videolembrar” que uma das “crianças”, um menino, agonizou por cerca de 10 minutos. E, ao que pareceu o seu tamanho (juvenil), não comoveu nem policiais nem outros civis que circularam seu corpo (“sem dó”) após a morte do invasor. Ele não foi salvo, salvou-se, convalesceu por dias numa Unidade de Terapia Intensiva; pouco se ouviu a respeito de sua recuperação. E, talvez, esse jovem seja a única vítima capaz de descrever, não o motivo do crime, mas a dimensão do terror social lá vivenciado. Sofreu ao mesmo tempo diversos ataques: físico, de identidade, de insignificância, de desrespeito.
            Paralelamente às informações materiais que, quase em tempo real, foram sendo divulgadas na mídia, as suposições vieram à tona. Instalou-se um “eurekismo” por parte dos jornalistas, “auxiliados” por técnicos das mais diversas áreas, que aproveitaram “as deixas” para palpitarem em rede nacional.  Um crime globalizado! Uma notícia dantesca!
            Não demorou muito para que o mundo, espantado, olhasse para o Brasil pasmado. Afinal, o elephant nem faz parte da fauna nacional, aceitável (para as lentes mundiais) seria uma arara azul (blue). Também especulações sobre de que zoológico poderia ter fugido o “pesado” fervilharam. Comparações com o ocorrido em 20 de abril de 1999, na High School, de Columbine (no Condado de Jefferson, Estado do Colorado, Estados Unidos), passaram a colorir carnavalescamente os noticiários. Semelhanças com o período do ano (mês de abril), a simpatia dos criminosos por ícones do terror étnico ou religioso: nazismo (caso dos EUA) ou radicalismo islâmico (caso do Brasil) e o bullying escolar serviram de elo e, porque não dizer, de conforto provisório para a comunidade canarinho. Afinal, crime importado, não genuíno, permite certo alívio social.
            Entretanto, aos poucos, as semelhanças entre os massacres passaram a ser invariáveis, partes de um todo turvo e minado de variáveis. Especulações sobre abandono familiar, propensão genética à esquizofrenia, abuso sexual, rejeição feminina, dentre outras especificidades do bandido brasileiro, “ventilaram” as notícias investigativas. Parte dessas suposições surgiu de trechos de uma carta e de vídeos de autoria do criminoso de Realengo, nos quais ele justificou a ação e, de certa forma, apontou possíveis aliados e culpados.
 Nas linhas que seguem, pode-se averiguar o início desse processo de diferenciação entre os dois massacres. Em vídeo, disse o bandido brasileiro:A luta pela qual muitos irmãos no passado morreram, e eu morrerei, não é exclusivamente pelo que é conhecido como bullying. A nossa luta é contra pessoas cruéis, covardes, que se aproveitam da bondade, da inocência, da fraqueza de pessoas incapazes de se defenderem.” (Grifos nossos).
 Escreveram os bandidos americanos:Não culpem mais ninguém por nossos atos. É assim que queremos partir.” (Grifos nossos).
Enquanto o bandido nacional (23 anos) “pousou” discursivamente de vingador incentivado, os bandidos americanos (de 17 e 18 anos)  deixaram claro que nenhuma influência “que possam ter recebido” foi superior à vontade particular que desenvolveram em cometer o crime. A exemplo do brasileiro, os jovens americanos fizeram planos, a data do crime (20/4) foi em homenagem ao aniversário do líder nazista. Os elementos treinaram  a ação em videogame e na garagem de casa com as armas fatais (honestamente – compradas e pagas pela internet). E, se, de certo modo, fizeram uma homenagem ao mentor imaginário, vaidosamente optaram por não repartir com ninguém o triunfo da ação. Senhores de si, não apenas deixaram escritos em que se autodefiniam como “Deus-es” (um de todos, outro da tristeza), como também evidências de que repudiavam quaisquer crenças religiosas, isso a ponto de, segundo sobreviventes, terem matado uma colega (Cassie) depois que ela, em reposta a uma pergunta, disse acreditar em Deus. Pergunta (similar, mas essencialmente contraditória) que, no “auge do nazismo”, foi feita aos membros da Igreja Testemunha de Geová, em que se lhes dava a chance de abandonarem a crença e migrarem para o Cristianismo positivista,  se quisessem ter a vida poupada. 
             A liberdade sexual (homossexualidade) apareceu como característica da dupla americana no documentário Elephant, de Gus Van Sant (2003), quando os assassinos  pouparam da morte um dos “seus”, no momento em que invadiram a escola pedindo-lhe, inclusive, que se mantivesse afastado do local. E, nesse episódio, deram mais um “tiro no pé”, pois,  nazismo e homossexualismo não se aglutinam. Via de regra, a questão da sexualidade era um assunto resolvido para os jovens dos EUA.
            Outro fato que precisa ser dito quanto à Columbine é que não foi um crime genófobo; os super-homens da escola (os atletas mortos), ao invés de serem admirados (“físico ideal”) foram fonte de inveja da dupla americana e de outros amigos beberrões. Assim, mesmo se dizendo fãs da instituição nazista, os bandidos americanos, ao não cumprirem especificidades do estatuto interno do movimento, demonstraram o quão levianos foram na menção (escolha) da inspiração. Serviram-se de particularidades de um dado regime para praticar um evento criminoso singular.
            Diante dessas informações, pode-se afirmar que houve pontos convergentes nos massacres, mas as divergências  foram grandiosas, que  podem ser também ampliadas  diante de outras “falas” do assassino nacional, que, similarmente aos estrangeiros, equivocou-se ao se autossugerir  membro de uma instituição que não pode reconhecê-lo (radicalismo islâmico). Ele escreveu:  "Preciso da visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna".

A crença na vida eterna, uma volta para o Jardim do Éden (Paraíso) remete a vida terrena para um plano superior, pensada no pós-morte do corpo. Um estudo realizado por Jacques Le Goff (1983), analisando a Idade Média, destaca que as pessoas viviam em função da vida eterna, suportando as dificuldades cotidianas. O caso de Realengo aproxima-se  do cenário descrito pelo historiador francês, uma vez que o criminoso, em seus escritos (aos quais se teve acesso após sua morte), fazia menção à vida eterna. 
Via de regra, se o matador fosse membro do regime  ao qual insinuou fazer parte,  não teria pedido perdão a Deus. Afinal, o crime teria sido em nome dele.  Em outro trecho, pode-se perceber, pela ênfase dada à sua condição de virgem, o quanto a questão sexual causou ao criminoso nacional desconforto e como ele tratou de fazer disso sua condição de ser superior (estava acima dos demais pela castidade):

Os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas [...], deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar. (WIKIPÉDIA, 2011).

            Como um ditador, o assassino de Realengo, no uso do verbo no imperativo (deverão) deixou ordens. Ficou evidente a importação que esse bandido fez para si de rituais que  somente praticantes efetivos do Islamismo praticam; ele ignorava que os radicalistas islâmicos tivessem outras motivações para as ações terroristas; não saem matando garotas em vista de rejeição sexual, de masculinidade ferida (não se tornam puros por falta de opção).
          E o mais contraditório dessa vingança em questão é que as adolescentes mortas não foram as colegas que rejeitaram o matador brasileiro em 2001, quando havia sido aluno da escola. “Matematizando” a ocorrência, o bandido do Rio matou B porque A “causou-lhe” lembranças vexaminosas. E, como invariante nessa situação entre A e B, o fato de ambas (objetos) serem mulheres. Portanto, se reforça aqui, a ideia que, acima de tudo, esse foi, particularmente, um crime de gênero. Ao longo dos tempos, as mulheres sempre lutaram pela igualdade entre os sexos de diferentes formas e em muitos lugares, mesmo que a história oficial tenha silenciado tais fatos. Safo, na Grécia, em 593 a.C.; Olympe de Gouges, na França (1748-1793); e Nísia Floresta, no Brasil (1810-1885) são exemplos de mulheres que não se conformaram com a sociedade patriarcal e ousaram desafiar tal lógica. (CASTRO, 2011).
          Vale lembrar que, quando falamos em sociedade patriarcal, nos referimos a uma sociedade que valoriza o referencial histórico masculino muito mais do que o feminino. (GEBARA, 2007). Talvez esse seja um dos elementos fundamentais para que a violência de gênero seja silenciada com a paz da indiferença. (EGGERT, 2008).
Passados quase 50 anos do início do movimento feminista, as mulheres sem dúvida, tiveram conquistas importantes, entretanto, é impossivel negar que o caminho para a conquista da igualdade entre os sexos está longe de ser concretizada. Segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado, realizada em 2010, pela Fundação Perseu Abramo, foi constatado que 48% dos brasileiros conhecem alguma mulher que foi vítima de violência e uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido.
Na maior cidade do Brasil, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) divulga, pela primeira vez, os números da criminalidade contra as mulheres: 5.844[11] casos de violência somente no mês de setembro de 2011, sendo que a cada hora oito mulheres foram agredidas e 194 mulheres registraram Boletim de Ocorrência por lesão corporal, no Estado de São Paulo. No Rio de Janeiro, a situação também não é animadora: de acordo com o Dossiê da Mulher,[12] aumentou, entre 2009 e 2010, em 25% os casos de estupro contra a mulher. Em relação ao Brasil, os pesquisadores concluíram, nesse mesmo relatório, que, há mais de dez anos, não são verificadas quedas nos índices de violência; somente em 2008, o número de mulheres mortas somou 4.023 (homicídios dolosos); dessas, 40% morreram no ambiente doméstico.
Para Alemany (2009), a violência de gênero fere as mulheres, pois as priva do direito de ir e vir, do sentimento de segurança e confiança. A Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, realizada em 1992, em Viena, Áustria, reconheceu que a violência contra as mulheres constitui uma violação dos direitos humanos: Doze crianças mortas, 10 meninas, qual é o crime? Nascer mulher? Será que a sociedade brasileira inviabilizará o crime de gênero cometido contra essas meninas?
            O lençol que o assassino mencionou na carta, segundo a polícia, não foi encontrado. Esse desejo delineado do assassino, qual seja o de ser envolto num lençol e ser enterrado ao lado da mãe, deixou indícios de que todas as mães (aos contrário das demais mulheres) são santas (seráficas) e se diferem das demais (mundanas).  Tudo isso fazia parte do imaginário do assassino. E, desse modo, o fato de as professoras terem sido poupadas da morte pode ser esclarecido,  já que, também no imaginário social, são elas as substitutas da figura materna dentro da escola.       
            Assim, ambos os massacres (de Columbine e Realengo) foram crimes de pseudonazistas (radicalistas islâmicos). Foram praticados por jovens perturbados, que, possivelmente, não conheceram alguns ismos benéficos para o convívio respeitoso e pacífico em sociedade como altruísmo e coleguismo.
            Passados 11 anos do crime americano, depois de um sério processo de investigação, que ocorreu em segredo de Justiça, o assunto por lá somente não foi “enterrado” nas mentes dos sobreviventes. Um deles se enforcou (meses depois) após escutar no rádio uma música que falava de um jovem escrevendo uma carta de despedida antes de cometer suicídio.[13] E voltando ao problema das vozes do mundo, cabe a questão: Que tipo de artista, com que tipo de inspiração, alguém faz uma música para “romantizar” o suicídio?
            Para a saúde da sociedade, é preciso que aqueles que estão no poder (da influência) reflitam sobre o que murmuram, pois existem coisas que não podem ser tematizadas, que não têm moral para serem reconhecidas, estampadas em revistas, mostradas em vídeos, não de um ângulo irresponsável, que dê aos atores de barbáries outra condição que não a de anti-heróis
                 A literatura ensina que certos nomes são indizíveis.[14] E, nesses casos, cabe à vida imitar a arte. Não se pode subestimar a vaidade dos corações vazios, das memórias de elefante, que, a exemplo de um ex-presidente brasileiro,[15] possam entender como dignos de aplausos enunciados, como: “Saio da vida para entrar na História!”; contemporaneamente traduzidos por: “Saio da vida para entrar na mídia!”
            Cabe lembrar que, em menos de 24 horas, após o crime ocorrido no Brasil, o assassino já tinha um verbete na Wikipédia[16] (recheado de detalhes). E, no começo da tarde de 8 de abril, no Twitter, as hashtags #realengo e #tragedianorio, liderava a lista de Trending Topics do Brasil.
             Especificamente em solo brasileiro, vale marcar que o crime ocorreu no dia 7 de abril: “Dia do Jornalista” e dia oficial da entrada no ar da internet. Pura coincidência? Ou teria o bandido nacional que escrevia, conforme trechos de cartas divulgados pela imprensa, brasil com letra minúscula, pensado em nomear a mídia como o símbolo do terror contemporâneo?  
             Não há dúvidas sobre o quanto o aparelho midiático influencia multidões e é capaz de deturpar valores e esfumaçar lentes. No caso de Realengo, quando os informantes nomearam como crianças os adolescentes e jogaram pseudoconclusões no ar, na rede, desviaram o olhar global da especificidade do ocorrido. A manchete ficou oculta: O Brasil tomou conhecimento, em 7 de abril de 2011, de um dos maiores crimes de gênero já cometidos dentro dos muros de uma escola.
            O Brasil, de Iracema[17] às Marias da Penha[18] de Realengo, no que se refere ao respeito pelo feminino, tem se mostrado conservador, incapaz de romper com a legitimação patriarcal que paira nos “(L)ares”.
Na segunda metade do século XX, as mulheres se organizaram coletivamente, e fizeram surgir, então, um movimento feminista que trouxe para  discussão a questão da mulher, sobretudo das ligadas à violência de gênero, como sendo urgente e necessária. O movimento adotou a cor lilás, como uma nova síntese entre a cor azul e a rosa, simbolizando a igualdade entre os sexos, e o sutiã criado na França, em 1889, foi queimado em praça pública em passeatas feministas nos EUA. Logo a cor lilás e o sutiã se tornaram símbolos desse movimento social.
            Ao não tratar o crime brasileiro como violência de gênero, a imprensa (os difusores da notícia) deixaram escapar o foco principal do evento: aquele que mostrava um sutiã lilás na tromba do elefante verde e amarelo.     
(in) Conclusão
            Apesar da imprecisão (dada a subjetividade) que um crime violento, dentro de uma escola, como foi o de Realengo, possibilita em termos de conclusão.  Nesse episódio, a matemática e sua precisão numérica foram subestimadas, por isso se optou por recorrer tanto à literatura neste artigo, pois é no Campo das Artes que a somas dos números dependem (puramente) da vontade do poeta. Em suma, a morte de dez jovens do gênero feminino e dois do masculino não pode continuar sendo descrita como o massacre de 12 adolescentes assexuados. Não, sem que se inviabilize parte significativa do fato para a compreensão desse tipo de violência contra a mulher.



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[1] Doutoranda em Educação pela Unisinos. Bolsista da Capes. E-mail: mariacris.7@hotmail.com.
[2] Doutoranda em Educação pela Unisinos. Bolsista da Capes. E-mail: motta.amanda @terra.com.br
[3] Doutorando em Educação pela Unisinos. Professor na Uniamérica. E-mail: blasius@uniamerica.br
[4] Elephant (Trad. de elefante) do cineasta Gus Van Sant (2003) que, a partir do ponto de vista dos envolvidos, intenta uma retomada do massacre de Columbine. O título do filme remete a uma parábola budista na qual um grupo de cegos tenta descrever um elefante a partir das diferentes partes de seu corpo. Daí, ninguém logrou ter uma visão do animal em sua totalidade, restando a cada um uma apreensão parcial, embora se imagine generalizante. Disponível em: <filosomídia.blogspot.com>. Acesso em: 21 maio 2011.
 [5]Queimada é um jogo esportivo muito usado como brincadeira infantil. O material utilizado é uma bola de vôlei ou de borracha de tamanho médio. [...] O jogo de queimada também pode ser conhecido por outras denominações, como: Barra bola; Bola queimada; Cemitério; Mata-mata; Mata-soldado; Queimado; Caçador no Estado do Paraná e Rio Grande do Sul; Carimba no Estado do Ceará; Baleado no Estado da Bahia.” Fonte: Site Brasil Escola. (Disponível em: . Acesso em: 24 maio 2011.).
[6] Programa criado pelo governo federal brasileiro que dá a chance de trabalho para jovens com idade entre 14 e 24 anos. Esse trabalhador deve ter uma carga horária de, no máximo, 6 horas por dia. Com horas extras e prorrogações, a jornada pode chegar, no máximo, a oito horas.
[7] Grupo (quarteto) de Rock romântico. Considerado um fenômeno para a geração teen. Roupas coloridas, comportamento sadio (sem bebidas, sem drogas) fazem parte da biografia do Restart.
[8] Cantor revelação do Sertanejo Universitário. Imagem popularizada de bom moço: sensível e romântico. Tem fãs adolescentes em todo o Brasil.
[9] Frase que abre o texto autobiográfico O Ateneu (1888) de Raul Pompéia, quando o personagem principal (Sérgio) é levado pelo pai para o internato. Lá ele conhece as mais diversas agressões socioescolares. Esse escritor suicidou-se numa noite de Natal.
[10] Adequação da expressão homem ordinário utilizado pelo culturalista Michel de Certeau (1994), para descrever os nascidos em populações periféricas, de margem.
[11] Dados do jornal Folha de São Paulo. Disponível em:                                          <http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/images/stories/PDF/noticias2011/notviol/estadosp26102011umamulherapanhaacada7minutos.pdf>. Acesso em: 26 out. 2011.
[12] Relatório de atos de violência contra a mulher (2011), do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (IPC).
[13] Música Adams Song (Trad. de Cântigo de Adam) da Banda Blink 182.
[14] Por isso, os autores do presente texto, em nenhum momento, identificaram os assassinos pelo nome.
[15] Enunciados finais da carta suicida deixada por Getúlio Vargas em despedida ao povo brasileiro em 23/8/54.
[16] Enciclopédia livre disponível na internet.
[17] Alusão à mulher da América, “espelhada artisticamente” em obra de José de Alencar, escrita em 1865.
[18] Maria da Penha ficou paraplégica em virtude de agressões domésticas. É considerada, atualmente,  o símbolo da luta nacional da mulher pela não-violência. A Lei 11.340/2006, de proteção aos crimes de natureza de gênero no Brasil, leva seu nome.


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Lero-lero: Esse texto foi publicado na revista Pleiade da Uniamérica- PR ( dez. 2011)