(Maria Cristina Schefer)
Nessa onda de bate ou não bate lembrei-me de que, há algum tempo, minha filha recebeu de um "amigorado" a indicação do filme Avaianas de pau, disponível na internet. Depois de ela assistir, repassou-me a “amorosa” dica. Eu estarreci.
– Poupe-me, reclamei, é pura apologia à agressão.
E ela revidou:
– Que nada mãe, é só uma piada, tu que és exagerada. Nem me venha com essas falas de professora.
Como visto, minha filha tem um posicionamento forte, não se deixa intimidar, nem se influencia pelo que os “outros” falam... Será que faltou “havainas” a ela? Há quem diga que sim! Eu prefiro o dito de que “a fruta não cai longe do pé!”
Mas, vamos ao filme: trata-se de uma sequência de cenas, onde crianças apanham brutalmente dos pais por terem feito alguma traquinagem (no entender dos adultos). As surras são satirizadas. O humor macabro inclui mutilações, sangue jorrando e berros desesperados das crianças. De ficcional, a produção é em desenho animado. No entanto, essa escolha artística não impede que, subliminarmente, seja passado o recado da “porrada”, como solução para as peraltices infantis. Mais do que isso, o vídeo insinua que as crianças, além de entenderem o motivo da pancadaria, ficariam gratas aos agressores por terem permitido que elas permanecessem vivas. Mensagens desse tipo circulam com popularidade entre nós. Quem já não ouviu que “tapinha de amor não dói”? Ou que, “é de pequenino que se torce o pepino”?
Essas falas “inofensivas”, atualizadas na internet, são as legitimadoras do arbitrário modo de os adultos resolverem seus problemas com as crianças e que, muitas vezes, acabam em infanticídio. Quem defende a “palmadinha” é porque deve ter apanhado com pantufa, de roupa e de barriga cheia... E jamais sentiu o peso de Um Cinturão.
O fato é que não é possível delimitar a força da mão que dará um “tapinha”, nem adequá-lo ao tamanho “do lombo” que irá sofrê-lo. Também não há como controlar os impulsos que levam alguém (adulto) a torcer um pepino (criança), já que “cada cabeça, uma sentença”.
Portanto, chega de Defenestração,viva o Lula! Viva esse estardalhaço que a emenda do ECA está provocando. Só assim, “ecoando” do Oiapoque ao Chuí, é que as barbáries contra as crianças serão contidas.
É bom que “os moleques” saibam que, no aperto, é gritar e chamar o LULA!
Quem?
O vizinho, o professor, o amigo, o Conselho Tutelar...
Contra a covardia, a vergonha de tê-la publicamente revelada: esse é o X da questão, essa é a lógica da emenda do ECA!
Lamento que a revisão do Estatuto tenha sido aprovada só agora, com Lula saindo... Isso poderá ser usado em 2011 pelos “brutamontes” como argumento:
─ Pode chamar, “ele” já não manda em nada!
Obs:
Foram postados (semanas atrás) dois textos: Um cinturão e Defenestração, que podem contribuir para o melhor entendimento dessa argumentação.
sábado, 31 de julho de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Desabafos da Cadeirinha- (cadeirinha de pensar)
Marias,
Recebi hoje cinco exemplares da Revista do Professor (julho- Set/2010)em que publicaram uma "crônica" escrita por mim. Seguida de uma reflexão sobre o (mal) uso das "cadeirinhas de pensar" nas escolas infantis.

Desabafos da cadeirinha...
A tia Poliana, sim, tinha segundo as mães, “um jeitinho todo especial com as crianças”. Sempre alegre, falante e pró-ativa diante dos problemas da sua turma de Educação Infantil, quando comunicou, numa reunião da escolinha, a implantação de uma “cadeirinha de pensar”, foi ovacionada. As mães gostaram tanto da inovação, teledefendida, que, parceiras, também implantaram, em casa, outras versões disciplinadoras: tapetinhos de pensar, caminhas de pensar, e quartinhos escuros de pensar. Mas logo abandonaram as práticas, concluindo, que só a cadeirinha da profe Poli é que funcionava.
Sem a intenção de diminuir o ibope da profe Poli, cabe o esclarecimento da eficácia do método, afim de que a receita seja repassada na íntegra, sem segredos. Ocorreu que, estranhamente, ao separar uma cadeirinha das demais, profe Poli, uxa! virou-se do avesso e plimpliou-lhe vida própria.
Logo que nomeada, Cadeirinha de pensar constatou, no silêncio horripilante do momento, que os problemas da turma tinham solução e optou pelo uso, durante as ações reparadoras, de uma capa cintilante de invisibilidade provisória, da grife mineira by G. Rosa, para ocultar a si e os subversivos que eram jogados diariamente no seu colo, acreditando que o ideal seria magicar os pacientes sem causar ruídos evitando atrapalhar os demais que estavam sobre o controle da Tia Poli. E em meio a esse anonimato ou meta-sanção é que tudo acontecia. Para os “sem ideias”, que segundo profe Poli, não queiram desenhar após as histórias, atrapalhando a aula, depois de Cadeirinha ouvir-concluir que era porque ficavam satisfeitos em escutá-las, preparou um repertório de contos, os quais só contava no aconchego da capa cintilante, até que, os futuros poetas mudavam o semblante, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela profe Poli.
Para os “tipo grilo” que conversavam fora do horário, fazendo profe Poli perder seu raciocínio, após Cadeirinha ouvir-concluir que tinham excesso de fala engasgada, intensificou a estratégia didática e, além da invisibilidade, tomava diante desses, forma de divã e não só permitia que falassem, mas desafiava-os a falar o maior número de palavras por minuto: e como falavam... Depois, os potencialmente jornalistas, mudavam o semblante, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela tia Poli.
Para os “desmancha prazer” que sempre acabavam com as brincadeiras antes da ordem da professora, após Cadeirinha ouvir-concluir que estavam estressados pela sujeição, por tabela, à rotina familiar exaustiva e que sofriam de um mal estar de fundo emociono-gulo-compensatório, providenciou um tratamento caseiro: massageava as barrigas dos discentes até que: PUM! Shrek-relaxavam. Então, os futuros revolucionários, mudavam os semblantes, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela Poli.
Ocorreu que, lá pelas tantas, havia crianças pedindo para ir para a Cadeirinha falar-pensar... Diante disso, profe, tia, Poli teve outro piripac “-ninguém é de ferro”. Desvirou-se de sopetão: puxa! E assim, destitui-me do poder, “-Acho que pensei demais: the Plim!”
Glossário (escolha de termos):
Polliana- analogia a personagem central do clássico Pollyana, de Eleanor H.Porter que "brincava de contente".
by G. Rosa- referência ao escritor brasileiro Guimarães Rosa e a magia de suas palavras- neologismos.
Tia Poli- inversão ao “solicitado” no texto “Professora sim, tia não” da obra: Cartas para quem ousa ensinar, de Paulo Freire.
Uxa- Alusão à obra Uxa, ora fada, ora bruxa ,de Sylvia Orthof.
Recebi hoje cinco exemplares da Revista do Professor (julho- Set/2010)em que publicaram uma "crônica" escrita por mim. Seguida de uma reflexão sobre o (mal) uso das "cadeirinhas de pensar" nas escolas infantis.

Desabafos da cadeirinha...
A tia Poliana, sim, tinha segundo as mães, “um jeitinho todo especial com as crianças”. Sempre alegre, falante e pró-ativa diante dos problemas da sua turma de Educação Infantil, quando comunicou, numa reunião da escolinha, a implantação de uma “cadeirinha de pensar”, foi ovacionada. As mães gostaram tanto da inovação, teledefendida, que, parceiras, também implantaram, em casa, outras versões disciplinadoras: tapetinhos de pensar, caminhas de pensar, e quartinhos escuros de pensar. Mas logo abandonaram as práticas, concluindo, que só a cadeirinha da profe Poli é que funcionava.
Sem a intenção de diminuir o ibope da profe Poli, cabe o esclarecimento da eficácia do método, afim de que a receita seja repassada na íntegra, sem segredos. Ocorreu que, estranhamente, ao separar uma cadeirinha das demais, profe Poli, uxa! virou-se do avesso e plimpliou-lhe vida própria.
Logo que nomeada, Cadeirinha de pensar constatou, no silêncio horripilante do momento, que os problemas da turma tinham solução e optou pelo uso, durante as ações reparadoras, de uma capa cintilante de invisibilidade provisória, da grife mineira by G. Rosa, para ocultar a si e os subversivos que eram jogados diariamente no seu colo, acreditando que o ideal seria magicar os pacientes sem causar ruídos evitando atrapalhar os demais que estavam sobre o controle da Tia Poli. E em meio a esse anonimato ou meta-sanção é que tudo acontecia. Para os “sem ideias”, que segundo profe Poli, não queiram desenhar após as histórias, atrapalhando a aula, depois de Cadeirinha ouvir-concluir que era porque ficavam satisfeitos em escutá-las, preparou um repertório de contos, os quais só contava no aconchego da capa cintilante, até que, os futuros poetas mudavam o semblante, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela profe Poli.
Para os “tipo grilo” que conversavam fora do horário, fazendo profe Poli perder seu raciocínio, após Cadeirinha ouvir-concluir que tinham excesso de fala engasgada, intensificou a estratégia didática e, além da invisibilidade, tomava diante desses, forma de divã e não só permitia que falassem, mas desafiava-os a falar o maior número de palavras por minuto: e como falavam... Depois, os potencialmente jornalistas, mudavam o semblante, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela tia Poli.
Para os “desmancha prazer” que sempre acabavam com as brincadeiras antes da ordem da professora, após Cadeirinha ouvir-concluir que estavam estressados pela sujeição, por tabela, à rotina familiar exaustiva e que sofriam de um mal estar de fundo emociono-gulo-compensatório, providenciou um tratamento caseiro: massageava as barrigas dos discentes até que: PUM! Shrek-relaxavam. Então, os futuros revolucionários, mudavam os semblantes, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela Poli.
Ocorreu que, lá pelas tantas, havia crianças pedindo para ir para a Cadeirinha falar-pensar... Diante disso, profe, tia, Poli teve outro piripac “-ninguém é de ferro”. Desvirou-se de sopetão: puxa! E assim, destitui-me do poder, “-Acho que pensei demais: the Plim!”
Glossário (escolha de termos):
Polliana- analogia a personagem central do clássico Pollyana, de Eleanor H.Porter que "brincava de contente".
by G. Rosa- referência ao escritor brasileiro Guimarães Rosa e a magia de suas palavras- neologismos.
Tia Poli- inversão ao “solicitado” no texto “Professora sim, tia não” da obra: Cartas para quem ousa ensinar, de Paulo Freire.
Uxa- Alusão à obra Uxa, ora fada, ora bruxa ,de Sylvia Orthof.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Um cinturão - Graciliano Ramos
As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.
Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal - e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.
Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.
Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé de turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente e me livrassem daquele perigo.
Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os ,sons duros morriam, desprovidos de significação.
Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.
Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as conseqüências delas me acompanharam.
O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.
Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.
Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.
A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disso. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal.
Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos - e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás dos caixões, livre do martírio.
Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que rogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.
Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa.
Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero.
O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.
Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.
Pareceu-me que a figura imponente minguava - e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.
Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.
Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.
(“Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século")
Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal - e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.
Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.
Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé de turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente e me livrassem daquele perigo.
Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os ,sons duros morriam, desprovidos de significação.
Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.
Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as conseqüências delas me acompanharam.
O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.
Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.
Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.
A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disso. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal.
Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos - e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás dos caixões, livre do martírio.
Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que rogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.
Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa.
Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero.
O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.
Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.
Pareceu-me que a figura imponente minguava - e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.
Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.
Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.
(“Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século")
Defenestração- Luis Fernando Veríssimo
Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria.
- Os hermeneutas estão chegando!
- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
- Alô...
- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água.
Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.
A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais.
Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? “Nesses termos, pede defenestração...” Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
- Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata.
Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. “Defenestração” vem do francês “defenestration”. Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela!
Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Porque, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.
- Les defenestrations. Devem ser proibidas.
- Sim; monsieur le Ministre.
- São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.
- Sim, monsieur le Ministre.
- Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: “Interdit de defenestrer”. Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.
Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
- É esta estranha vontade de atirar alguém ou algo pela janela, doutor...
- Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar – diz o analista, afastando-se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de Ato de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.
Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.
- Querida...
- Mmmm?
- Há uma coisa que eu preciso lhe dizer...
- Fala, amor.
- Sou um defenestrador.
E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:
- Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:
- Fui defenestrado...
Alguém comenta:
- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias Para Se Ler Na Escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria.
- Os hermeneutas estão chegando!
- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
- Alô...
- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água.
Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.
A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais.
Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? “Nesses termos, pede defenestração...” Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
- Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata.
Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. “Defenestração” vem do francês “defenestration”. Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela!
Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Porque, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.
- Les defenestrations. Devem ser proibidas.
- Sim; monsieur le Ministre.
- São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.
- Sim, monsieur le Ministre.
- Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: “Interdit de defenestrer”. Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.
Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
- É esta estranha vontade de atirar alguém ou algo pela janela, doutor...
- Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar – diz o analista, afastando-se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de Ato de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.
Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.
- Querida...
- Mmmm?
- Há uma coisa que eu preciso lhe dizer...
- Fala, amor.
- Sou um defenestrador.
E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:
- Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:
- Fui defenestrado...
Alguém comenta:
- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias Para Se Ler Na Escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Depois de 25 anos: o reencontro!
Bem, eu estava refazendo o meu memorial acadêmico quando "me dei conta" que em outubro fará 25 anos que concluí o curso Normal. Entrei em contato com umas ex-colegas "que adoraram essa lembrança". Assim, iniciamos uma conversa sobre um evento de reencontro ( pré-agendado para o final do ano). Acreditamos que será um momento ímpar para falarmos da vida pós- escola normal. Ambas iniciamos a troca de fotos daquela época. Estamos nos divertindo com isso (tem cada pérola).
As fotos que seguem são muito importantes para mim: a primeira turma de Educação Infantil (festa de Natal) em 1984 e a turma de estágio (terceira série) em 1985. Essas crianças têm hoje mais de 30 anos.(Espero que estejam felizes)...
Escola Princesa Isabel- foto 1
Escola Adolfo Kepler- foto 2
Cidade:Panambi-RS

As fotos que seguem são muito importantes para mim: a primeira turma de Educação Infantil (festa de Natal) em 1984 e a turma de estágio (terceira série) em 1985. Essas crianças têm hoje mais de 30 anos.(Espero que estejam felizes)...
Escola Princesa Isabel- foto 1
Escola Adolfo Kepler- foto 2
Cidade:Panambi-RS

segunda-feira, 5 de julho de 2010
Notícias sobre educação- Capturada da rede
Mais da metade das escolas públicas ficaram abaixo da média do Ideb
Sabrina Craide
Repórter da Agência Brasil
Brasília - No ano passado, a maioria das escolas (56,2%) teve notas abaixo da média nacional do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para os primeiros anos do ensino fundamental, que foi de 4,6 pontos, em uma escala que vai de 0 a 10. Em 2009, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) avaliou o desempenho de 43.400 escolas públicas, por meio do Ideb.
Dessas, 57,6% conseguiram atingir as metas estabelecidas para as séries iniciais do ensino fundamental. Outras 20% não conseguiram alcançar suas metas e 22,38% não tinham metas estabelecidas, por não terem participado da avaliação em 2005, quando o Ideb começou a ser instituído.
O Ideb é calculado a cada dois anos e serve para avaliar a qualidade do ensino público no país. Cada escola tem uma meta e recebe uma nota, levando em conta o rendimento escolar e as notas obtidas pelos alunos na Prova Brasil.
Ao criar o Ideb, o Inep estabeleceu metas de qualidade que devem ser atingidas pelo país, pelos estados, municípios e pelas escolas. Assim, levando em conta a realidade de cada local, cada instância deve evoluir de forma a contribuir para que o Brasil atinja a média 6 em 2021, que é o patamar dos países mais desenvolvidos.
A nota mais baixa registrada entre as escolas foi 0,2, atingida pela Escola Estadual Jovem Protagonista, que fica em Belo Horizonte. Em seguida, aparecem as escolas municipais Firmo Santino da Silva, em Alagoa Grande (PB), Professor Francisco de Assis Cavalcanti, em Natal (RN) e Boa União, em Eunápolis (BA), todas com nota 0,5.
As três escolas com notas mais altas são de Cajuru (SP), o mesmo município que ficou em primeiro lugar no Ideb. A escola Aparecida Elias Draibe ficou com nota 9, e as escolas André Ruggeri e Dom Bosco tiraram 8,8.
Edição: Graça Adjuto
Sabrina Craide
Repórter da Agência Brasil
Brasília - No ano passado, a maioria das escolas (56,2%) teve notas abaixo da média nacional do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para os primeiros anos do ensino fundamental, que foi de 4,6 pontos, em uma escala que vai de 0 a 10. Em 2009, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) avaliou o desempenho de 43.400 escolas públicas, por meio do Ideb.
Dessas, 57,6% conseguiram atingir as metas estabelecidas para as séries iniciais do ensino fundamental. Outras 20% não conseguiram alcançar suas metas e 22,38% não tinham metas estabelecidas, por não terem participado da avaliação em 2005, quando o Ideb começou a ser instituído.
O Ideb é calculado a cada dois anos e serve para avaliar a qualidade do ensino público no país. Cada escola tem uma meta e recebe uma nota, levando em conta o rendimento escolar e as notas obtidas pelos alunos na Prova Brasil.
Ao criar o Ideb, o Inep estabeleceu metas de qualidade que devem ser atingidas pelo país, pelos estados, municípios e pelas escolas. Assim, levando em conta a realidade de cada local, cada instância deve evoluir de forma a contribuir para que o Brasil atinja a média 6 em 2021, que é o patamar dos países mais desenvolvidos.
A nota mais baixa registrada entre as escolas foi 0,2, atingida pela Escola Estadual Jovem Protagonista, que fica em Belo Horizonte. Em seguida, aparecem as escolas municipais Firmo Santino da Silva, em Alagoa Grande (PB), Professor Francisco de Assis Cavalcanti, em Natal (RN) e Boa União, em Eunápolis (BA), todas com nota 0,5.
As três escolas com notas mais altas são de Cajuru (SP), o mesmo município que ficou em primeiro lugar no Ideb. A escola Aparecida Elias Draibe ficou com nota 9, e as escolas André Ruggeri e Dom Bosco tiraram 8,8.
Edição: Graça Adjuto
domingo, 4 de julho de 2010
A caixa de brinquedos (Rubem Alves)

A idéia de que o corpo carrega duas caixas, uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de ferramentas, na mão esquerda, ela me apareceu enquanto me dedicava a mastigar, ruminar e digerir Santo Agostinho. Como vocês devem saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros se pode dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: “Isso é o meu corpo; isso é a minha carne”. Ele não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois ele, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do “uti” ( ele escrevia em Latim ) e a ordem do “frui”. “Uti” = o que é útil, utilizável, utensílio. Usar uma coisa é utilizá-la para se obter uma outra coisa. “Frui” = fruir, usufruir, desfrutar, amar uma coisa por causa dela mesma. A ordem do “uti” é o lugar do poder.Todos os utensílios, ferramentas, são inventados para aumentar o poder do corpo. A ordem do “frui”, ao contrário, é a ordem do amor – coisas que não são utilizadas, que não são ferramentas, que não servem para nada. Elas não são úteis; são inúteis. Porque não são para serem usadas mas para serem gozadas.
Aí vocês me perguntam: quem seria tolo de gastar tempo com coisas que não servem para nada, que são inúteis? Aquilo que não tem utilidade é jogado no lixo: lâmpada queimada, tubo de pasta dental vazio, caneta bic sem tinta...
Faz tempo preguei uma peça num grupo de cidadãos da terceira idade. Velhos aposentados. Inúteis. Comecei a minha fala solenemente. “Então os senhores e as senhoras finalmente chegaram à idade em que são totalmente inúteis...” Foi um pandemônio. Ficaram bravos. Me interromperam. E trataram de apresentar as provas de que ainda eram úteis. Da sua utilidade dependia o sentido de suas vidas. Minha provocação dera o resultado que eu esperava. Comecei, então, mansamente, a argumentar. “Então vocês encontram sentido para suas vidas na sua utilidade. Vocês são ferramentas. Não serão jogados no lixo. Vassouras, mesmo velhas, são úteis. Já uma música do Tom Jobim é inútil. Não há o que se fazer com ela. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que se parecem mais com as vassouras que com a música do Tom... Papel higiênico é muito útil. Não é preciso explicar. Mas um poema da Cecília Meireles é inútil. Não é ferramenta. Não há o que fazer com ele. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que preferem a companhia do papel higiênico à companhia do poema da Cecília...” E assim fui, acrescentando exemplos. De repente os seus rostos se modificaram e compreenderam... A vida não se justifica pela utilidade. Ela se justifica pelo prazer e pela alegria – moradores da ordem da fruição. Por isso que Oswald de Andrade, no “Manifesto Antropofágico”, repetiu várias vezes “a alegria é a prova dos nove, a alegria é a prova dos nove...”
E foi precisamente isso que disse Santo Agostinho. As coisas da caixa de ferramentas, do poder, são meios de vida, necessários para a sobrevivência. (Saúde é uma das coisas que moram na caixa de ferramentas. Saúde é poder. Mas há muitas pessoas que gozam perfeita saúde física e, a despeito disso, se matam de tédio.) As ferramentas não nos dão razões para viver. Elas só servem como chaves para abrir a caixa dos brinquedos.
Santo Agostinho não usou a palavra “brinquedo”. Sou eu quem a usa porque não encontro outra mais apropriada. Armar quebra-cabeças, empinar pipa, rodar pião, jogar xadrez, bilboquê, jogar sinuca, dançar, ler um conto, ver caleidoscópio: não levam a nada. Não existem para levar a coisa alguma. Quem está brincando já chegou. Comparem a intensidade das crianças ao brincar com o seu sofrimento ao fazer fichas de leitura! Afinal de contas, para que servem as fichas de leitura? São úteis? Dão prazer? Livros podem ser brinquedos?
O inglês e o alemão têm uma felicidade que não temos. Têm uma única palavra para se referir ao brinquedo e à arte. No inglês, play. No alemão, spielen. Arte e brinquedo são a mesma coisa: atividades inúteis que dão prazer e alegria. Poesia, música, pintura, escultura, dança, teatro, culinária: são todas brincadeiras que inventamos para que o corpo encontre a felicidade, ainda que em breves momentos de distração, como diria Guimarães Rosa.
Esse é o resumo da minha filosofia da educação. Resta perguntar: os saberes que se ensinam em nossas escolas são ferramentas? Tornam os alunos mais competentes para executar as tarefas práticas do cotidiano? E eles, alunos, aprendem a ver os objetos do mundo como se fossem brinquedos? Têm mais alegria? Infelizmente não há avaliações de múltipla escolha para se medir alegria...
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