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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Não contam fábulas? Como assim?


O parto da Montanha
Há muitos e muitos anos uma montanha começou a fazer um barulhão. As pessoas acharam que era porque ela ia ter um filho. Veio gente de longe e de perto, e se formou uma grande multidão querendo ver o que ia nascer da montanha.
Bobos e sabidos, todos tinham seus palpites. Os dias foram passando, as semanas foram passando e no fim os meses foram passando, e o barulho da montanha aumentava cada vez mais.
Os palpites das pessoas foram ficando cada vez mais malucos. Alguns diziam que o mundo ia acabar.
Um belo dia o barulho ficou fortíssimo, a montanha tremeu toda e depois rachou num rugido de arrepiar os cabelos. As pessoas nem respiravam de medo. De repente, do meio do pó e do barulho, apareceu ... um rato.
                                                                 (Fábulas de Esopo- Companhia das Letrinhas, 1994)

Lero-lero: A informação de que as fábulas foram criadas para moralizar os ouvintes  tem retirado esse gênero do repertório de rodas de Literatura. Percebe-se isso na fala de muitas professoras. 
Realmente, por muito tempo os impressos do gênero  vieram seguidos de uma moral (também impressa) padronizadora, contudo, as obras atuais não trazem nenhum recadinho universal  ao leitor. Portanto, utilizar  fábulas pode ser uma boa estratégia para fazer pensar... 
Além disso, crianças adoram animais que falam, cadeiras que desafiam mesas, e montanha berrando, então? 
Bjs,


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Contando e ouvindo, de volta da Serra gaúcha!

Acabo de voltar da Serra, "ufa, que trânsito horrível, dificultado por uma serração ofuscante".  Estive trabalhando com professores de escolas estaduais: no colégio Imigrante, em Caxias, e no São Rafael, em Flores da Cunha. Lugares lindos! 
O frio teve que ser espantado com muito chá e café. Aliás, cada intervalo foi um banquete, e o grostoli marcou os hábitos da comunidade serrana à mesa. 
Fiquei feliz em rever amigas, as professoras Silvia e Eni estavam na sala em que realizei a oficina de Letramento em Caxias. Eta, mundo redondo! Tricotamos... puxamos fiozinhos... projetamos...
Em Flores aprendi, entre outras coisas, a história do símbolo do município: o galo.
Segue, como me contaram...

                                      Por que o galo é símbolo do município de Flores da Cunha?

                                                                                                        (Maria Cristina Schefer)
                                                          (imagem do blog: Per Bacco)

          Há muito tempo a cidade recebeu um mágico. O artista reuniu no salão paroquial quase toda a comunidade para o que seria uma apresentação magnífica. Foi com um megafone que ele chamou o povo prometendo cortar a cabeça de um galo (ao vivo) e que depois de recolocá-la  faria o bicho voltar a cantar. Houve briga por ingressos, que foram  pagos  ao artista antes do espetáculo iniciar. 
        No dia do evento, feitas meia dúzia de apresentações singulares, percebendo a impaciência do povo para que o grande momento do galo ocorresse, o forasteiro solicitou que duas pessoas do público subissem ao palco  e segurassem o  galo. Mais do que de pressa, o prefeito e o intendente do município se prontificaram. 
            Aos olhos de todos, o galo (créc) perdeu o pescoço!  
           O prefeito foi incumbido de segurar a cabeça do bicho e o intendente o corpo até que o mágico  fosse buscar (atrás da cortina) o seu pozinho reparador / cantor. Depois de passados alguns bons minutos, o prefeito, o intendente e o povo começaram a estranhar a demora do artista... foi quando se deram conta que ele tinha (zás) desaparecido...
             Por muitos dias o pobre foi procurado, em vão, raspou pé!
        Admitido o calote, o povo de Flores virou alvo de deboche regional e o fato custou a ser esquecido! (?) 
             Ainda hoje, quando alguém é logrado na cidade dizem que foi vítima do galo!
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Lero-lero: A cidade sofreu um logro coletivo, entretanto, foi presenteada com um artefato cultural muito inspirador. Aliás, diante do eco da história desse galo, que tem até monumento, parece falta de   pensamento mágico dizer que o galo não voltou a cantar...  eu juro que ouvi um có, có, có, quando cruzei o pórtico da cidade... se bem que era cedo! Muito cedo!
Adorei! Beijos especiais para as professoras de Mato Perso! Irei (sim)  à festa de Santa Juliana!
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Semana que vem vou para Bento, disseram-me que lá tem uma história de um anãozinho de jardim que já rendeu muita briga... vou ouvi-la da fonte: o povo, depois conto aqui...
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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Trava-línguas melhorando a dicção de crianças e adultos...

LERO-LERO:
Trava-línguas servem (entre outras coisas) para (des) travar a língua... Ao mesmo tempo em que melhoram a dicção, esses textos exercitam a memória. A turma de Pedagogia de Cidreira (manhã) está muito animada com as "lições de casa". 
Contar histórias requer boa pronúncia!
Depois de Belmira, em várias versões,  foi a vez  do ornitorrinco... 
Será que o Pedro virá?
Sacanagem, não faria isso com a turma... 
Entretanto, vale a leitura...
Beijos, boa Páscoa a todos.
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Belmira Bárbara Brás bordadeira baiana, 
bordava num barco bela blusa branca, 
aborda o barco num bote, 
o barítono Brejeiro, Bertoldo Barreto Brito, 
e brada a Belmira: 
“Bravo, beleza, bonita blusa!”

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Não confunda ornitorrinco com otorrinolaringologista,
ornitorrinco com ornitologista, 
ornitologista com otorrinolaringologista,
porque ornitorrinco é ornitorrinco, 
ornitologista é ornitologista, 
e otorrinolaringologista é otorrinolaringologista.

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Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porem posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido,porem personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente,pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porem, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. -Povo previdente! Pensava Pedro Paulo... Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. -Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo. -Parto, porem penso pinta-la permanentemente, pois pretendo progredir. Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porem, Papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porem, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: - Pediste permissão para praticar pintura, porem, praticando, pintas pior. Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias? - Papai, - proferiu Pedro Paulo - pinto porque permitiste, porem, preferindo,poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal. Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia por Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porem, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porem prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porem, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando... Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar... Para parar preciso pensar. Pensei. Portanto, pronto pararei.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um conto que elege! Alfabetização do coração!


Duas Palavras
(Isabel Allende)
Tinha o nome de Belisa Crepusculario não por fé de batismo ou escolha de sua mãe, mas porque ela própria o procurou até o encontrar e com ele se ataviou. Seu ofício era vender palavras. Percorria o país, desde as regiões mais altas e frias até as costas quentes, instalando-se nas feiras e nos mercados, onde montava quatro estacas com um toldo de cânhamo, sob o qual se protegia do sol e da chuva para atender à clientela. Não precisava apregoar sua mercadoria, porque, de tanto caminhar por aqui e por ali, todos a conheciam. Havia os que a aguardavam de um ano para o outro e, quando aparecia na aldeia com a trouxa debaixo do braço, faziam fila em frente a sua barraca. Vendia a preços justos.  Por cinco centavos entregava versos de memória, por sete melhorava a qualidade dos sonhos, por nove escrevia cartas de namorados, por doze inventava insultos para inimigos irreconciliáveis. Também vendia contos, mas não eram contos de fantasia, e, sim, longas histórias verdadeiras que recitava de enfiada, sem nada saltar. Assim levava as notícias de uma ladeia para a outra. As pessoas lhe pagavam para acrescentar uma ou duas linhas: nasceu um menino, morreu o fulano, casaram-se os nossos filhos, queimaram-se as colheitas. Em cada lugar juntava-se uma pequena multidão a sua volta para ouvi-la quando começava a falar, e assim se inteirava da vida dos outros, dos parentes que viviam longe, dos pormenores da Guerra Civil. A quem lhe comprasse cinqüenta centavos, dava de presente uma palavra secreta para afugentar melancolia. Não era a mesma para a todos, certamente, porque isso teria sido um engano coletivo. Cada um recebia a sua, com certeza de que ninguém mais empregava para esse fim no universo inteiro além dele.
Belisa Crepusculario nascera numa família tão miserável, que nem sequer possuía nomes para das aos filhos. Veio ao mundo e cresceu na região mais inóspita, onde, em alguns anos, as chuvas se transformaram em avalanches de água que tudo arrastaram, e em outros nem uma gota cai do céu, o sol aumenta até ocupar o horizonte por inteiro, e o mundo se transforma em deserto. Até completar doze anos não teve outra ocupação nem virtude senão sobreviver à fome e à fadiga de século. Durante uma seca interminável, coube-lhe enterrar quatro irmãos menores, e, quando compreendeu que chegava a sua vez, decidiu começar a andar pelas planícies em direção ao mar, para ver se, na viagem, conseguia enganar a morte. A terra estava escalvada, partida em gretas profundas, semeada de pedras, fósseis de árvores e de arbustos espinhosos, esqueletos de animais esbranquiçados pelo calor. De vez em quando deparava com famílias que, como ela, iam para o sul, seguindo a miragem de água. Alguns tinham iniciado a caminhada levando seus pertences no ombro ou em carrinhos de mão, mas depois de pouco caminhar, acabavam abandonando suas coisas. Arrastavam-se penosamente, com a pele feita de couro de lagarto e com os olhos queimados pela reverberação da luz. Belisa saudava-os com um gesto ao passar, mas não parava, porque não podia gastar suas forças em exercícios de compaixão. Muitos caíram pelo caminho, mas ela era tão teimosa, que conseguiu atravessar o inferno e, por fim, chegar aos primeiros mananciais, finos filetes de água, quase invisíveis, que alimentavam raquítica vegetação e que, mais adiante, se transformava em riachos e pântanos.
Belisa Crepusculario salvou a vida e, por acaso, descobriu a escrita. Ao chegar a uma aldeia nas proximidades da costa, o vento jogou seus pés uma folha de jornal. Pegou aquele papel amarelado e quebradiço, esteve longo tempo observando-o sem lhe adivinhar o uso, até que a curiosidade pôde mais que a timidez. Aproximando-se de um homem que banhava um cavalo no mesmo charco turvo em que ela saciara a sede.
– Que é isto? – perguntou.
– A página de esportes do jornal – respondeu o homem sem mostras de espanto por sua ignorância.
A resposta deixou a garota atônita, mas não quis parecer atrevida, limitando-se a perguntar o significado das patinhas de mosca desenhadas sobre o papel.
– São palavras, menina. Diz aí que Fulgencio Barba derrubou Negro Tiznao no terceiro assalto.
Nesse dia Belisa Crepusculario soube que as palavras andam soltas, sem dono, e que qualquer um com pouco de manha pode pegá-las para vender. Considerou sua situação e concluiu que, além de se prostituir ou se empregar como criada nas cozinhas dos ricos, poucas eram as ocupações que poderia desempenhar. Vender palavras pareceu-lhe alternativa decente. A partir desse momento exerceu tal profissão e nunca mais se interessou por outra. A princípio oferecia sua mercadoria sem suspeitar de que as palavras podiam ser escritas fora dos jornais. Quando percebeu isso, calculando as infinitas perspectivas do negócio, com suas economias pagou vinte pesos a um padre para lhe ensinar ler e escrever e com os três que lhe sobraram, comprou um dicionário. Leu-o de A a Z e depois atirou-o no mar,  não era sua intenção cansar os clientes com palavras entaladas.
Vários anos depois, numa manhã de agosto, estava Belisa Crepusculario no centro de uma praça, sentada sob seu toldo, vendendo argumentos de justiça a um velho que solicitava sua pensão há dezessete anos. Era dia de feira, e havia muito barulho a sua volta. Ouviram-se, de repente, galopes e gritos; ela levantou os olhos da escrita e viu, primeiro, uma nuvem de pó, e em seguida, um grupo de cavalos que irrompeu na praça. Tratava-se dos homens do Coronel, comandados pelo Mulato, um gigante conhecido em toda a região pela rapidez de sua faca e pela lealdade ao seu chefe. Ambos, o Coronel e o Mulato tinham passado a vida ocupados na guerra civil, e seus homens estavam irremediavelmente associados ao malefício e à calamidade. Os guerreiros entraram na aldeia como um rebanho em fuga, envoltos em ruído, banhados de suor e deixando atrás de si os destroços de um furacão. As galinhas voaram, os cães correram até se perder, as mulheres esconderam-se com os filhos, e não ficou no local da feira vivalma a não ser Belisa Crepusculario, que nunca tinha visto o Mulato e que, por isso mesmo, estranhou que ele se dirigisse a ela.
– Procuro-a – gritou, apontando-a com o chicote enrolado; e, antes que acabasse de dizer isso, dois homens caíram em cima da mulher, atropelando o toldo e quebrando o tinteiro, amarraram-lhe pés e mãos e puseram-na atravessada como um fardo de marinheiro sobre a garupa do cavalo do Mulato. Depois começaram a galopar em direção as colinas.
Horas mais tarde, quando Belisa Crepusculario estava a ponto de morrer, com o coração transformado em areia elas sacudidelas do cavalo, sentiu que paravam e que quatro mãos poderosas a colocavam em terra. Tentou pôr-se de pé e erguer a cabeça com dignidade, mas faltaram-lhe forças, e caiu com um suspiro, afundando-se em pesado sono. Despertou várias horas depois com um sonho obscuro o murmúrio da noite no campo, mas não teve tempo de decifrar esses ruídos porque ao abrir os olhos, viu a sua frente o olhar impaciente do Mulato, ajoelhado ao seu lado.
– Finalmente acorda, mulher – disse, estendendo-lhe o cantil para que bebesse um gole de aguardente com pólvora e acabasse de recuperar a vida.
Ela quis saber a causa de tantos maus-tratos, e ele lhe explicou que o Coronel necessitava de seus serviços. Deixou-a molhar o rosto e depois levou-a até um dos extremos do acampamento, onde o homem mais temido do país repousava numa rede pendurada em duas árvores. Ela não conseguia ver-lhe as feições, porque ele tinha sobre o rosto a sombra incerta da folhagem, bem como a sombra indelével de muitos anos vivendo como bandido, mas imaginou que devia ter expressão perdulária, uma vez que seu gigantesco ajudante a ele se dirigia com tanta humildade. Surpreendeu-a voz dele, suava e bem modulada como a de um professor.
– É você que vende palavras? – perguntou.
– A seu serviço – balbuciou ela, perscrutando a penumbra para vê-lo melhor.
O coronel pôs-se de pé, a luz da tocha que o Mulato levava iluminou-lhe a face. A mulher viu sua pele escura e seus ferozes olhos de puma, logo percebendo que estava diante do homem mais solitário desse mundo.
– Quero ser presidente – disse ele.
Estava cansado de percorrer aquela terra maldita em guerras inúteis e derrotas que nenhum subterfúgio conseguia transformar em vitórias. Passara muitos anos dormindo sob a intempérie, picado por mosquitos, alimentando-se de iguanas e sopa de cobra, mas esses inconvenientes menores não eram razão suficiente para lhe mudar o destino. O que em verdade o enfadava era o terror nos olhos dos outros. Desejava entrar nas aldeias sob arcos de triunfo, entre bandeiras de cores e flores, que o aplaudissem e lhe dessem de presente ovos frescos e pão recém-saído do forno. Estava farto de ver como os homens fugiam a sua passagem, as mulheres abortavam de susto, e tremiam as crianças; por isso decidira ser presidente. O Mulato sugeriu-lhe que fossem à capital e entrassem a galope no palácio para se apoderar do governo, como tomaram tantas outras coisas sem pedir autorização, mas o Coronel não interessava tornar-se outro tirano, desses já tinha havido bastantes por ali, e, além disso, dessa maneira não conseguiria o afeto das pessoas. Sua ideia consistia em ser eleito por voto popular nos comícios de dezembro.
- Para isso tenho de falar como candidato. Pode vender-me as palavras para um discurso? – perguntou o Coronel a Belisa Crepusculario.
Ela já tinha aceitado muitas encomendas, mas nenhuma como essa; não se pôde negar, no entanto, receando que o Mulato lhe metesse um tiro entre os olhos ou, pior ainda, o Coronel começasse a chorar. Por outro lado, teve vontade de ajudá-lo, porque sentiu palpitante o calor em sua pele, o desejo poderoso de tocar aquele homem, de percorrê-lo com as mãos, de apertá-lo entre os braços.
Toda a noite e boa parte do dia seguinte esteve Belisa Crepusculario à procura, em seu repertório, das palavras apropriadas para um discurso presidencial, vigiada de perto pelo Mulato, que não tirava os olhos de suas firmes pernas de caminhantes e seus seios virginais. Descartou as palavras ásperas e secas, as demasiado floridas, as que estavam desbotadas pelo abuso, as que ofereciam promessas improváveis, as que careciam de verdade e as confusas, para ficar com aquelas capazes de tocar com certeza o pensamento dos homens e a intuição das mulheres. Fazendo uso dos conhecimentos comprados ao padre por vinte pesos, escreveu o discurso numa folha de papel e logo fez sinais ao Mulato para desatar a corda com a qual a tinha amarrado pelas canelas a uma árvore. Levaram-na novamente ao Coronel, e, ao vê-lo, tornou a sentir a mesma ansiedade palpitante do primeiro encontro. Deu-lhe o papel e aguardou, enquanto ele olhava, segurando-o com a ponta dos dedos.
– Que caralho diz isso aqui? – perguntou por fim.
–Não Sabe ler?
– O que sei fazer é guerra – respondeu ele.
Ela leu em voz alta o discurso. Leu-o três vezes, para que o cliente pudesse gravá-lo na memória. Quando terminou, viu a emoção dos homens da tropa que haviam se juntado para escutá-la e notou que os olhos amarelos do Coronel brilhavam de entusiasmo, de certo que, com essas palavras, a cadeira presidencial seria sua.
- Se, depois de ouvirem três vezes, os rapazes continuam de boca aberta, é porque essa droga serve, Coronel – aprovou o Mulato.
– Quando devo por seu trabalho, mulher? – perguntou o chefe.
– Um peso, Coronel.
– Não é caro – disse ele, abrindo a bolsa que trazia pendurada ao cinturão com os restos do último saque.
– Além disso, tem direito a uma prenda. Correspondem-lhe duas palavras secretas – disse Belisa Crepusculario.
– Como é isso?
Ela começou a lhe explicar que, por cada cinqüenta centavos que um cliente pagava, oferecia-lhe uma palavra de uso exclusivo. O chefe encolheu os ombros, porque não tinha menor interesse na oferta, mas não quis ser indelicado com quem o servira tão bem. Ela se aproximou sem pressa da cadeira de couro em que estava sentado e inclinou-se para dar seu presente. Então o homem sentiu cheiro de animal montês que saia daquela mulher, o calor de incêndio irradiado pelos quadris, o roçar terrível de seus cabelos, o hálito hortelã-pimenta sussurando-lhe ao ouvido as duas palavras secretas a que tinha direito.
– São suas, Coronel – disse ao se retirar. – Pode usá-las como quiser.
O Mulato acompanhou Belisa até a beira do caminho, sem deixar de olhá-la com olhos suplicantes de cão perdido, mas, quanto estendeu a mão para tocá-la, ela o deteve com um jorro de palavras inventadas que tiveram virtude de lhe espantar desejo, porque julgou tratar-se de alguma maldição irrevogável.
Nos meses de setembro, outubro e novembro o Coronel pronunciou seu discurso tantas vezes, que, se não fosse feito com palavras refulgentes e duradouras, o uso de tê-lo ia transformando em cinza. Percorreu o país em todas as direções, entrando nas cidades com ar triunfal e detendo-se também nas aldeias mais esquecidas, onde só o rasto do lixo indicava a presença humana, para convencer os eleitores a votarem nele. Enquanto falava em cima de um estrado no centro da praça, o Mulato e seus homens distribuíam caramelos e pintavam seu nome com tinta dourada nas paredes, mas ninguém prestava atenção nesses recursos de mercador, porque estavam todos deslumbrados pela clareza de suas propostas e pela lucidez poética de seus argumentos, contagiados por seu tremendo desejo de corrigir os erros da história e alegres pela primeira vez em suas vidas. Ao terminar a arenga do candidato, a tropa dava tiros de pistola para o ar e soltava bombas, e, quando por fim se retiravam, ficava atrás um rasto de esperança que permanecia muitos dias no ar, como magnífica recordação de um comenta. Logo o Coronel se tornou o político mais popular. Era fenômeno nunca visto, aquele homem surgido da Guerra Civil, cheio de cicatrizes, falando como um catedrático, cujo prestígio se espelhava pelo território nacional, comovendo o coração da pátria. A imprensa ocupava-se dele. Os jornalistas viajavam de longe para entrevistá-lo e repetir suas frases, e assim cresceu o número de seus seguidores e seus inimigos.
– Estamos indo bem, Coronel! – disse o Mulato ao fim de doze semanas de êxito.
Mas o candidato não o ouviu. Estava repetindo suas duas palavras secretas, como fazia, cada vez com mais freqüência. Dizia-as quando o abrandava a nostalgia, murmurava-as adormecido, levantava-as consigo em seu cavalo, pensando nelas antes de pronunciar seu célebre discurso e se surpreendia saboreando-as nos momentos descuidados. E, em todas as ocasiões em que essas duas palavras lhe vinham à mente, envocava a presença de Belisa Crepusculario, e excitavam-se-lhe os sentidos como a recordação do cheiro montês, o calor de incêndio, o roçar terrível e o hálito de hortelã-pimenta, até que começou a andar como um sonâmbulo, e seus homens compreenderam que se lhe tinha acabado a vida antes de alcançar a cadeira dos presidentes.
– O que está havendo, Coronel? – perguntava-lhe muitas vezes o Mulato, até que por fim, um dia, o chefe não agüentou mais e confessou-lhe que a razão de seu ânimo eram as duas palavras que trazia cravadas no ventre.
– Diga-me quais são, para ver se perdem seu poder – pediu-lhe o fiel ajudante.
– Não as direi a você, são só minhas – replicou o Coronel.
Cansado de ver o chefe definhar como um condenado à morte, o Mulato pôs a espingarda ao ombro e partiu à procura de Belisa Crepusculario. Seguiu pegadas por toda a vasta geografia até encontrá-la numa aldeia do Sul, instalada sob o toldo de seu ofício, contando o seu rosário de notícias. Plantou-se a sua frente com as pernas abertas, empunhando a arma.
– Venha comigo – ordenou.
Ela estava a sua espera. Guardou o tinteiro, dobrou o pano da barraca, pôs o xale nos ombros e, em silêncio, montou a garupa do cavalo. Não trocaram nem um gesto todo o caminho, porque o desejo que o Mulato sentia por ela se transformara em raiva, e só medo que sua língua lhe inspirava o impedia de desfazê-la a chicotada; também não estava disposto a dizer que o Coronel andava aparvalhado, e que aquilo que tantos anos de batalha não haviam logrado, conseguiu-o um encantamento sussurrado ao ouvido. Três dias depois chegaram ao acampamento; levou de imediato sua prisioneira até o candidato, diante de toda a tropa.
– Coronel, trouxe essa bruxa para que lhe devolva suas palavras e para que ela lhe devolva hombridade – disse, apontando o cano da espingarda para a nuca da mulher.
O Coronel e Belisa Crepusculario olharam-se longamente, medindo-se  distância. Os homens compreenderam, então, que seu chefe já não podia desfazer do feitiço das palavras endemoninhadas, porque todos puderam ver os olhos carnívoros do puma tornarem-se mansos quando ela avançou e lhe pegou a mão.
Fonte: Contos de Eva Luna. Rio de Janeiro Bertrand Brasil: 2007, p. 13-21

Lero-lero: Até uma campanha eleitoral pode ficar mais bonita, com as palavras certas! Acho lindo esse conto e todos os outros dessa obra. Sou "fasoca" da autora! Minhas alunas sabem o quanto!
Beijos, espero que gostem!

sábado, 2 de julho de 2011

Avaliações para a melhoria da qualidade do ensino ou para queimar etapas?

Ajudando as plantas a crescerem

                                                                                              (Mêncio)

       Um homem da região de Song achou que os brotos na sua plantação estavam crescendo muito devagar. Ele puxou um por um para cima e voltou para casa.
       -Estou hoje muito cansado – disse para a sua família -, estava até agora ajudando as plantas a crescerem.
        Seu filho correu até a plantação para ver o que tinha acontecido e encontrou todas as plantas mortas.
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Retirado de: 50 fábulas da China fabulosa, trad. Sérgio Capparelli e Márcia Schmaltz, editora L&PM, 2009.

Lero-lero: Nesse meu atual estado de "docente-mochileira" tenho conversado com muitas alfabetizadoras; professoras na Educação Infantil, equipes diretivas e pedagógicas. E algumas falas comuns têm revelado o problema das "provinhas verde-amarelas" para a realização de um processo tranquilo de alfabetização. Alfabetização que deve ocorrer até as primeiras quatro séries do Ensino Fundamental (conforme os discursos nacionais). Segundo as professoras,"querem que os alunos tirem as melhores notas nas provinhas e assim temos que esquecer do resto (projetos, tintas, brincadeiras, etc.) e pensarmos só em alfabetizar..."
Desse modo, fica óbvio o quão massacrantes para as práticas pedagógicas criativas são os métodos de avaliação da "qualidade do ensino" no Brasil. Pois,  além de "atropelarem etapas", instituem um tipo de competitividade da burrice: da apatia, do silêncio, da folhinha, do atropelo. Sem falar na questão das realidades ignoradas, já que, todos (numa nação furtacor) são tratados como iguais. 
Quem sofre com isso? As professoras maluquinhas que têm como princípio as práticas pedagógicas vivas: criativas, alegres, voadoras... "Profissionais (hoje) atormentadas", pois não querem fazer nada contra as determinações dos superiores... (De quem? Do sistema...) 
A educação é um indicativo do desenvolvimento econômico, entretanto, não pode perder o seu foco que é social- humanitário;na maioria das vezes, imensurável. A educação não gravita ao redor do dinheiro
E agora, para "colaborar" ainda tem a "Rede Globo" (com seu jatinho particular) botando o "dedo na cara" das "piores escolas do mapa"... É dose! 
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Fui, beijos! Ah, minha semana foi ótima! Trabalhei muito! Conheci (o Cris, a Alice, a Jaque, a Graci, a Pati, a Mari, a Jaja, a LU, a Mª Lu...)  e tentei fazer muitas coisas LEGAIS: tra-la- la- la! (clap, clap)








quarta-feira, 6 de abril de 2011

O que é importante (hoje) para justificar a prática da escrita?

@ cartinha
─ Aprender a escrever para quê?
─ Para uma porção de coisas...
─ Que coisas?
─ Para escrever uma cartinha a sua avó, por exemplo.
─ Cartinha? Como?
─ Você pensa em algo que queira dizer a ela. Escreve. E nós levaremos ao correio. De lá eles enviarão direto para a vovó.
─ E por que ninguém manda uma cartinha para nós?
─ É porque os tempos mudaram. Mas quando eu era pequena eu mandava muitas cartas para a “bisa”. Ela ficava bem feliz.
─ Mas, então, se nem é desta época mandar cartinhas, por que eu tenho que aprender a escrever?
─ Para ter um orkut, mandar e-mails, acessar o twitter, mandar mensagens pelo celular, acessar o site da turma da Mônica, etc.
─ Ah@ mãe! Por que não falou logo e pontocom?(!)

( Publicado em 05-04-2011 na Web Artigos)
 Lero-lero: O alfabetizador precisa  atualizar o discurso em defesa do aprendizado da escrita dispensando o popular argumento "Gabriela": eu nasci assim, eu cresci assim, eu fui sempre assim (eu ensino assim?).

quarta-feira, 23 de março de 2011

Tecendo...

Estou escrevendo um ensaio sobre o hábito da leitura, já falei aqui sobre a posição para ouvirmos histórias através da fabulinha "Perninha de quê?". Contudo, hoje revendo meu material do mestrado re-encontrei, num texto, um trecho da obra: Se um viajante numa noite de inverno, de Itálo Calvino, que fez considerações muito interessantes sobre a questão do espaço em que se lê. É o que segue:


"Toma a posição mais confortável: sentado, estendido, encolhido, deitado.
Deitado de costas, de lado ou de bruços. Em uma poltrona, um sofá, uma cadeira
de balanço, uma espreguiçadeira, um pufe. Ou em uma rede, se acaso tens uma.
Em tua cama, naturalmente, ou sob ela. Também podes ficar de cabeça para
baixo, em posição de ioga. Segurando o livro ao contrário, evidentemente.

Não é fácil encontrar a posição ideal para ler, é verdade. Outrora, lia-se de pé
diante de um facistol. Era hábito manter-se de pé. As pessoas repousavam dessa
forma quando se cansavam de andar a cavalo. Ninguém teve jamais a idéia de ler
a cavalo; e, entretanto, ler bem ereto sobre os estribos, o livro posto sobre a crina
do cavalo ou mesmo fixado as suas orelhas por um arreio especial, essa idéia te
parece agradável. Seria necessário estar muito a cômodo para ler com os pés nos
estribos; ter os pés levantados é a primeira condição para se apreciar bem um
livro.

Bem, que espera? Estica as pernas, põe os pés em uma almofada, no braço do
canapé, nas orelhas da poltrona, na mesa de chá, na escrivaninha, no piano, no
mapa mundi. Mas, antes de tudo, tira os sapatos se queres ficar com os pés para
cima; se não, calça-os de novo. Mas não fiques assim, os sapatos em uma das
mãos, o livro na outra.

Regula a luz para não cansares a vista. Faze isso tudo desde já, pois, uma vez
mergulhado na leitura, não haverá meio de mudares de lugar. Providencia para
que a página não fique na sombra: um aglomerado de letras negras sobre fundo
cinza uniforme como um exército de ratos; mas cuida bem que não venha de
cima uma luz forte demais que, refletindo-se na brancura crua do papel, aí corroa
a negrura dos caracteres como, em uma parede, a luz do sol do sul, ao meio-dia.
Tenta providenciar desde agora tudo que possa interromper tua leitura". (1982, p.
9-10).
Segue o link do texto completo , que foi escrito por uma (ex) professora (minha) no Mestrado em Letras e Cultura Regional da UCS:
http://www.ucs.br/ucs/tplPOSLetras/posgraduacao/strictosensu/letras/professores/neires_paviani/artigo.pdf

Lero-lero: Bem, segundo Calvino e Paviani, se adquirido o hábito de ler, o lugar onde se lê é o menos importante. Quando a leitura é boa o cenário se adapta ao corpo do leitor.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Um projeto sobre castelos... e histórias da realeza...

Que tal um projeto que permita a todos o papel de rei ou rainha... 
Por um dia, uma hora, um período?
Poderia chamar: "Que rei sou eu?" 
E as crianças poderiam determinar as brincadeiras durante o momento de reinado...
(experiência de alteridade, de resiliência, de altruísmo)
Na porta da sala uma ponte, um estrado feito com caixas de leite... onde quem não souber se equilibrar caia no rio... (um rio feito com retalhos de saco de lixo...) e entre os retalhos: jacarés... (de plástico, de pelúcia) Não importa... vai funcionar!
Dentro da sala, nada de mesas e cadeiras... Apenas espaço, um trono, coroas de papel , roupas típicas ou panos ( muito tnt nessa hora) e música para dançar...
Dançar, feito os reis e rainhas... (um passinho cá, um passinho lá, gosto de brincar e de cantar trá- lá-lá!) O pezinho, A cana verde... Vai da região onde os pezinhos batem...
Uma mesa para o banquete diário ( lanche coletivo- receitas).
Muitas brincadeiras e contos que falem de reis, rainhas, rainhas de novo, príncipe e princesas...
( não apenas as adormecidas...)
Exposição virtual de fotos de castelos brasileiros ou castelos literários...
Canto temático do "lego" e se não tiverem esse brinquedo caro disponível na sala ou nas famílias, pode ser o canto das caixinhas de montar castelos... (materiais de longo alcance- Adriana Klisys)
E tudo mais que a garotada  sugerir... Projeto é isso... De um pontinho surge um desenho do tamanho da imaginação do desenhista. (ampliação!)
Segue a sugestão de uma narrativa. Recebi em 2007 numa capacitação das pedagogas do Depto Nacional do SESC (grandes pessoas, grandes educadoras, grandes disseminadoras...). Segundo quem cedeu-me o texto,  já receberam sem menção de autoria durante outro evento educativo.
 Eu não gosto muito de coisas sem autoria... Mas o texto é tão legal que merece, em minha opinião, alçar vôo! 
Com vocês:
OS REIS, AS RAINHAS, OS PRÍNCIPES, AS PRINCESAS, OS MORDOMOS E AS PORTAS E JANELAS
         Num reino distante havia vários castelos, repletos de PORTAS E JANELAS. Dentro destes castelos moravam OS REIS, AS RAINHAS, OS PRÍNCIPES E AS PRINCESAS, servidos por seus fiéis MORDOMOS.
Misteriosamente, as PORTAS e JANELAS dos castelos começaram a bater sem parar! OS REIS, AS RAINHAS, OS PRINCÍPES E AS PRINCESAS estavam ficando com medo. OS REIS chamaram OS MORDOMOS e pediram-lhes que tomassem uma providência. OS MORDOMOS foram até as PORTAS e JANELAS e contaram-lhes que OS REIS mandaram que parassem de bater. AS PORTAS e JANELAS bateram mais uma vez na cara dos MORDOMOS.
         AS RAINHAS e AS PRINCESAS desmaiaram, e OS PRÍNCIPES e OS REIS saíram correndo para não ter que pegá-las no colo. Sobrou para os MORDOMOS.
         Os REIS chamaram OS MORDOMOS de novo e pediram que analisassem bem AS PORTAS E JANELAS. AS PORTAS E JANELAS batiam e batiam, mas OS MORDOMOS não conseguiam pará-las.
         No dia do grande baile, OS REIS, AS RAINHAS, AS PRINCESAS e OS PRÍNCIPES já não tinham mais esperanças, quando OS MORDOMOS tiveram uma grande idéia: colocar trincos nas PORTAS e JANELAS.
            Desde esse dia, AS PORTAS e AS JANELAS pararam de bater, AS RAINHAS, OS REIS, OS PRINCÍPES E AS PRINCESAS não tiveram mais medo, e os mordomos ficaram mais descansados.
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Na obra  A mulher gigante, de Gustavo Finckler  e  Jackson Zambelli, tem a poesia que segue abaixo. Narrativa que é um luxo para encenar com a criançada,  memorizar, etc.
(o livro vem com CD)
PRÍNCIPE HERCULANO, O CHATO
Era um príncipe, / era chato o príncipe,
Todos concordavam / que era um chatão:
Não tinha graça, / não tinha estilo,
Não tinha remédio nem solução.

Era um príncipe, / era chato o príncipe,
Todos concordavam / que o cara era um chatão.
Não tinha sábado e nem domingo,
O homem era chato por vocação.

Dentro do reino / sua fama se espalhava.
Fora do reino, / em um país irmão,
Todos falavam / do príncipe Herculano,
O mais chato humano / desde os tempos de Adão

Quando ele vinha / todo mundo se mandava.
Indo, era o povo pela contramão.
Se escondendo, se esquivando, / se arrastando,
Fugindo da conversa / do príncipe chatão.

Era um príncipe, / era chato o príncipe,
Todos concordavam / que era um chatão.
Não tinha graça, / não tinha estilo,
Não tinha remédio nem solução.

Era um príncipe, / era chato o príncipe,
Todos concordavam / que o cara era um chatão.
Não tinha sábado e nem domingo,
O homem era chato por vocação.

Só que um reino / precisa de herdeiros
E, pra ter herdeiros, / casamento então.
Cadê princesa / que agüente o Herculano?
E cadê sogro que lhe dê a mão?

Se ele já era / tão chato normalmente,
Vocês imaginem ele em depressão,
Um tanto enjoado / de entrar pelo cano,
Um tanto sem planos, / sem motivação.

Era um príncipe, / era chato o príncipe,
Todos concordavam / que era um chatão.
Não tinha graça, / não tinha estilo,
Não tinha remédio nem solução.

Era um príncipe, / era chato o príncipe,
Todos concordavam / que o cara era um chatão.
Não tinha sábado e nem domingo,
O homem era chato por vocação.

Um belo dia / uma princesa fez aposta
E as amigas riram da situação:
"Se eu conseguiria dar / um beijo no Herculano?"
"Você deve estar brincando! / Ai meu Deus, eu não!"

Para as meninas / era tudo brincadeira
Mas, para o príncipe, / que sensação!
Ganhar um beijo / depois de tantos anos
E lá foi o Herculano, / pulando de emoção.

Era um príncipe, / era chato o príncipe,
Todos concordavam / que era um chatão.
Não tinha graça, / não tinha estilo,
Não tinha remédio nem solução.

Era um príncipe, / era chato o príncipe,
Todos concordavam / que o cara era um chatão.
Não tinha sábado e nem domingo,
O homem era chato por vocação.

Mas é que beijo de princesa / é complicado,
Geralmente o resultado / é uma confusão.
E o príncipe, / que antes era um chato,
Agora era um sapo / coaxando pelo chão.

Como não tava acostumado / a ser um sapo,
O príncipe era / pura atrapalhação.
Os outros sapos / riam muito do Herculano,
Riam tanto que ele / se tornou um amigão.

Era um príncipe, / era chato o príncipe,
Todos concordavam / que era um chatão.
Depois de um beijo ele virou um sapo
E só aí que acabou a chateação.

Era um príncipe, / era chato o príncipe,
Todos concordavam / que o cara era um chatão.
Virou um sapo e era o rei do riso,
Cheio de amigos, um camaradão.
Outra pérola gaúcha, em termos de (poesias) canções para alegrar a infância, é o CD  O  Bê- a- bá Encantado,  de Beto  Herrmann, que conta com outra versão (acho que) do mesmo rei. Segue o site para que possam ter acesso ao material.
http://www.interacaoprojetos.com.br/?p=479
Aliás, sou fã do Beto e de longa data, ele faz (ia) um show tributo ao Raul Seixas ótimo e outro com os melhores do rock nacional ( desde "os tempos do êpa"!) que é pura sociologia musical!
Obs: Marias, algum erro de escrita "prendam o grito" ou relevem em vista do tardar da hora...
Espero que gostem e deixem outras sugestões.
Boa noite, agora vou para o teto... "Eu tenho um teto  todo meu!" Ave! Beijos!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

As palavras e as uvas, os homens e os vinhedos...

 Um homem dos vinhedos falou, em agonia, junto ao ouvido de Marcela. Antes de morrer, revelou a ela o segredo:
A uva  ─ sussurrou ─ é feita de vinho.
Marcela Pérez- Silva me contou isso, e eu pensei: se a uva é feita de vinho, talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.
 (Eduardo Galeano)

Fonte: Livro dos Abraços

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A idade para aprender a ler...

"O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam nos bancos:
cinco horas de suplício uma crucificação [...] Não há prisão maior do
que escola primária do interior. A imobilidade e a insensibilidade me
aterraram. Abandonei os cadernos e auréolas, não deixei que as
moscas me comessem. Assim, aos nove anos ainda não sabia ler." (RAMOS, 1993:188)
Fonte: Infância
Lero-lero: Apesar do autor narrar quão hostil era o ambiente escolar na sua infância (obra escrita em 1945) percebe-se, nesse relato, o quanto a condição de ser ou não leitor (com data marcada) imperava na sociedade e na mente infantil. Ainda bem! Hoje as coisas mudaram e, pelo menos na teoria, o tempo de cada alfabetizando é ímpar. Mais curioso, em se tratando de Graciliano, é o fato dele, julgado "retardatário no campo das letras", ter se tornado um dos maiores escritores de nosso país.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tiririca em nova performance: "clap, clap"


Respeitável público!
Com vocês, a partir do dia 17 de dezembro, o deputado federal da alegria: Francisco Everardo, o TIRIRICA!
Viva à "Forentina"! Viva à absolvição desse brasileiro!
Andei muito ocupada, mas minhas mãos estavam ansiosas para teclar sobre o “diagnóstico de analfabetismo funcional” do Tiririca. Lamentei quando a justiça não chamou um pedagogo para aplicar o teste... Mas enfim, pelo menos a fonoaudióloga deu um parecer correto (que resultou na absolvição). E talvez, numa outra ocasião, a justiça chame um pedagogo para avaliar a audição de algum réu “que insista” em dizer que ouve...
Desabafo corporativo feito, seria um absurdo se o deputado federal eleito, Francisco Everardo Oliveira da Silva (nome extenso, de rei; sobrenome de presidente, de brasileiro) não pudesse usufruir da conquista nas urnas. Ele foi o mais votado do país e apesar de alguns creditarem essa vitória ao que chamam de “voto de protesto”, eu discordo. Pois, não acredito que 1,3 milhões de pessoas estejam usando as urnas para “inteligentemente” protestar... Via de regra, expressar “algo” de outro modo é coisa de letrado. É literatura! E se for isso, então os votos dados ao Tiririca também podem ser chamados de VOTOS INTELIGENTES...
Talvez o indizível, nessas circunstâncias, é que muitos eleitores consideram o Tiririca tão ou mais apto que os demais candidatos. Além da possibilidade ( não levada em conta) de que o povo compreendeu o discurso do candidato.
Dar ficha suja ao Tiririca (como queriam alguns) pelo fato de ser analfabeto seria insensatez. O Brasil é um país onde 14,1 milhões de pessoas não sabem ler (IBGE -2010) e em que a situação de analfabeto não é empecilho para votar. O problema das eleições vai além da instrumentalização técnica para a leitura, trata-se do analfabetismo político tanto de eleitores quanto de eleitos.
Meu desejo é que o deputado Francisco Everardo continue a alegrar o povo.
Cabe lembrar que, a origem da representação de palhaço (profissão do eleito) se deve aos lambuzões do passado, homens ordinários, periféricos, excluídos que “geravam” deboches. Segundo consta na Wikipédia (mas em outros termos) é na maquiagem e nas roupas do palhaço que a condição de “coitado” se evidencia: o branco ao redor da boca remete à espuma da cerveja onde afoga as mágoas, o nariz vermelho é o resultado de tanto bater com a cara no chão! Roupas largas e sapatos grandes, revelam vestes doadas. Desse modo, Tiririca será rei em Brasília e não o "bobo da corte". Ele representa uma vasta categoria que supera o seu eleitorado.
("clap, clap")
Informação: De acordo com Irina Borlowa, diretora da Unesco, de cada três analfabetos no mundo, dois são mulheres. (dados de 2010)
Sugestões:
1- A história do Tiririca “humilhado nacionalmente” pelo fato de não ter um atestado de frequencia escolar, lembrou-me o filme O leitor e deixo como dica para os alfabetizadores, juízes, políticos, "fonos"...
2- Dia 10 de dezembro é o dia do palhaço, que tal um projeto de estudos sobre esse personagem mundial que trabalha em prol da alegria?
Nessa ação será possível estudar os principais palhaços brasileiros, organizar um sarau de piadas, oficinas de cambalhotas, festa à fantasia, etc. A alegria vai tomar conta da sala!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Projeto: rimas (...) consciência fonológica - ALFABETIZAÇÂO!

A consciência fonológica: capacidade de discriminar sons e o princípio alfabético: capacidade de relacionar fonemas e grafemas são decisivos no processo de alfabetização. Somente quando estabelecida a ligação entre o dito (sonoro) e o representado (escrito) chega-se ao nível alfabético.
Muitas inferências precisam ser feitas pelo alfabetizador para facilitar essa tomada de consciência que resulta na compreensão da língua escrita.
Entre as possibilidades de trabalho didático, para esse fim, está o uso de artefatos da literatura oral: parlendas, rimas, adivinhas, trava-línguas e ditados populares. As rimas facilitam o reconhecimento sonoro e a memorização. Assim, esses pequenos textos significativos se tornam “um conjunto de termos estáveis” que oportunizam novas relações e facilitam à aprendizagem.
Doutro modo, “brincar” com artefatos da cultura popular é reconhecer a importância da oralidade para o aprendizado da escrita.
Temos muitos folcloristas renomados que coligem artefatos populares, Ricardo Azevedo está entre eles. Seguem algumas rimas, ditados e adivinhas de seu Armazém do Folclore. São Paulo: Ática, 2002.

Adivinhas:

O que é, o que é:
É duro, gordo e careca
É branquinho, sim senhor
Sua mãe é desdentada
Mas seu pai é cantor?

Resp: ovo

O que é, o que é:
Que coisa, que coisa é
Passa a vida na janela
E mesmo dentro de casa
Está sempre fora dela?

Resp: botão

Rimas
Sexta-feira faz um ano
Que meu coração fechou
Quem morava dentro dele
Tirou a chave e levou

Você ontem me falou
Que não anda nem passeia
Como é que hoje cedinho
Eu vi seu rastro na areia?

O fiado já morreu
Foi com o dono enterrado
Quem quiser beber cachaça
Só pagando adiantado

Ditados Populares
Laranja madura na beira da estrada ou está azeda ou tem marimbondo.
Mais há quem suje a casa que quem varra.
Nada duvida quem nada sabe.
Mocidade preguiçosa, velhice trabalhosa.
Quem fala demais dá bom-dia ao cavalo.
Pobre quando põe a mão no bolso só tira os cinco dedos.
Quem gosta volta.
Ressaltando:

A repetição de termos e a assimilação sonora, oferecidos nesses suportes textuais, permitem que o alfabetizando mentalize o layout da escrita e assim consiga levantar hipóteses e avançar na prática da leitura ortográfica. Compreender versos é pré-requisito para a compreensão da prosa.

Outro:

Algumas canções infantis que possibilitam “repetições” também podem ser utilizadas com os mesmos fins. Segue um vídeo que encontrei na Rede e achei muito interessante.
(Tragam as crianças para a frente do computador...)
Sugestão:
Que tal um projeto sobre parlendas, rimas, ditados e adivinhações?
Comece questionando as famílias sobre os ditados que costumam utilizar no dia a dia...
Lembrem-se:
Os ditos populares falam muito sobre nós, transportam valores, subjetividades, tudo em tom de brincadeira. E brincando, brincando é que falamos o que não temos coragem de falar em outro tom, certo?
Desafio:
Que tal tentarmos atualizar com a turma o acervo de ditos. Temos muitas “falas contemporâneas” que já podem ser consideradas relíquias:
Pagando bem, que mal tem?
Quem pode manda, quem tem juízo obedece!
Bobiô, danço!
Não tem tu? Vai tu mesmo!
Antes mal acompanhado do que só.
Enfim, essa lista pode aumentar... E revelar muitas mudanças nas mentalidades...
Obs:
Como ensinar as crianças a memorizar?

Primeiro é preciso permitir experiências lúdicas, a educação passa pelos sentidos (quais são?) perpassa pelo corpo em movimento. Ninguém "sentadinho" aprende feliz.
Assim, dramatizar parlendas com o grupo utilizando figurinos de jornal, objetos ou com gravuras é um bom recurso. Nesses momentos lúdicos, várias habilidades e sensações estarão envolvidas no processo de fixação do texto. Temperado com alegria...
Reescrever os versos com ilustrações das palavras que a rimam (carta enigmática) também pode ser uma opção.
Bom final de semana, feriadão, volto na terça!
Sugestão de leitura:
ABC do alfabetizador, de João Batista Araújo e Oliveira.

domingo, 10 de outubro de 2010

Pedro Bandeira em Montenegro- RS


Marias, Joões!
No último sábado, fui à Feira de Livros para ouvir Pedro Bandeira. Sem dúvida, o melhor discurso do ano!
Contou uma aventura de Pedro Malazartes, brincou com a platéia e deu seu recado ao professorado. Numa comparação da profissão de professor com a de médico, disse, mais ou menos, o seguinte:
"A boa escola é aquela que cura o paciente mais grave!
(...)Provas são exames preliminares, para que os professores saibam qual o medicamento utilizar.
(...)Muitos pacientes sem cura? O médico não é bom. (...) A leiturização é a saída para a educação brasileira."
Enfim, falou tanta coisa essencial para a docência...
ADOREI! É um gigante!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O desenho pronto, o mimeógrafo e "O Pequeno Príncipe":

"Mimeógrafo é um instrumento utilizado para fazer cópias de papel escrito em grande escala e utiliza na reprodução um tipo de papel chamado estêncil e álcool." (Fonte: Wikipédia).
Criado no séc. XIX, o mimeógrafo foi um importante "recurso físico" nas escolas até a década de 80. As professoras faziam as matrizes das atividades que iriam "aplicar" e reproduziam as atividades através do mimeógrafo para os alunos.
Assim, o equipamento permitia um trabalho padronizado, a priorização da quantidade de tarefas em detrimento da qualidade e, principalmente, a passividade dos receptores das "folhinhas". Mais que um reprodutor de imagens, o mimeógrafo reproduziu ideias.
Dessa forma, quando esse instrumento foi "aposentado" surgiu uma "luz" para os educadores progressistas, diante da possibilidade de abrirem mão de modelos prontos: do siga a seta, do cubra os pontilhados, do pinte sem sair do contorno... Imaginaram que estava sendo inaugurado o fenômeno da "liberdade de expressão" para as crianças:
lEvantAmeNto de HipÓteSES... Experimennnntações... mOviMENTO... CORES, barulhooooo!
30 anos depois...
Atualmente, é o computador a ferramenta considerada indispensável nas escolas, mas curioso é que, em meio a tantas possibilidades ricas de aproveitamento, esse recurso '@'  muitas vezes é utilizado apenas como substituto natural do "velho mimeógrafo".
Conforme disse Miguel Arroyo, mas em outros termos, na obra Ofício de mestre: tendemos a repetir com nossos alunos o modelo de educação que recebemos.
Contudo, sabendo disso, precisamos aprender a policiar esse "instinto saudosista" em nossa prática docente. Visto que, a criança de hoje não é a criança do passado e ela precisa encontrar um educador do presente em sala de aula.
Obs:
O vídeo que segue, baseado na obra O pequeno príncipe, mostra justo a dificuldade dos adultos na apreciação das representações infantis.

Considerações:
A bandeira da "beleza da produção infantil" precisa ser levantada dentro das escolas. Uma escola que expõe desenhos de anônimos em suas paredes, que insiste em padronizar traços alheios para que as crianças pintem, é uma escola que guarda bugigangas do tempo do mimeógrafo.
Gritemos, Marias, em nome do "BOTA FORA!"
Sugestão de leitura:

Obra: Por uma cultura da infância. Ana Lúcia Goulart de Faria; Zelia de Brito Fabri Demartini; Patrícia Dias Prado (org.). Editora: Autores Associados.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Poesias para brincar...

Gosto de todas as poesias da obra: Saco de brinquedos. Contudo, seleciono e compartilho as que seguem, pois acredito que os brinquedos, nelas citados, são os mais comuns na infância atual!
Então, vamos brincar de poesia?

DEDO
PRA CHUPAR
TIRAR MELECA
FURAR BOLO
COÇAR FERIDA
PINTAR DE AZUL
DEDO!
PRIMEIRO BRINQUEDO

BOLA
BOLA DE MEIA
ROLA GABOLA
FORMA MAROLA
NA AREIA
BOLA DE PANO
NUMA BOA PELADA
FAZ O DONO DO PÉ
PENSAR QUE É PELÉ

URSO DE PELÚCIA
BARRIGA À ESPERA
DE MÃO CARINHOSA
NA PELÚCIA SEBOSA
ANDA PELA CASA
TODO PROSA
BRINCA NO BANHEIRO
URSO ALMOFADA
É TRAVESSEIRO
O ANO INTEIRO

BOLHAS DE SABÃO
BASTA UM COPO D’ÁGUA
UM POUCO DE SABÃO
CANUDO PRA SOPRAR
-TEM QUE SER DEVAGAR!
A BOLHA SE FORMA
MANDA PRO AR
A ESFERA TRANSPARENTE
QUE ENCANTA A GENTE
HÁ QUEM ESCOLHA
ENXERGAR NUMA BOLHA
UM ESTRANHO ESCAFANDRO
DE UM ET MALANDRO

(URBIM, Carlos. Saco de Brinquedos.
Porto Alegre: Projeto, 1997.)

sábado, 25 de setembro de 2010

Em nome da leitura: revolucionária, secreta...

Quando eu era adolescente havia um livro proibido.
Nós, boas meninas, da escola de freiras, fazíamos de tudo para lê-lo e tínhamos orgulho de revelar nos "caderninhos de questionário", que circulavam de casa em casa, que o livro preferido era Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída , lançado em 1981.
Lembro-me bem dessa leitura reveladora e também incompreensível em alguns aspectos... Mas o fato é que eu queria ler... E, como muitas colegas, dei um jeitinho e li.
O grande mérito de algumas obras está nisso, no entorno do texto, no convite à leitura, às vezes, desobediente e revolucionária.
Para um adolescente ler o contestado pelos adultos é algo formidável. Afinal, como disse Che Guevara:
"Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética."
Assim, conhecer as etapas do desenvolvimento humano, os anseios de uma possível comunidade de leitores, favorece a escolha das obras literárias.
Ouço muitas pessoas dizerem que seus filhos liam até chegar à pré-adolescência e que depois deixaram de ler...
Se entendermos a leitura como um hábito, a conclusão desses pais está equivocada. Talvez, os filhos deles liam pouco, num determinado momento, e hoje não leem mais nada.
Acredito que tenha faltado o livro "atrevido": a narrativa de aventura para os teimosos... Da caça ao tesouro...Do humor sarcástico, que são muito apreciados pelos adolescentes.Títulos que substituíssem a fase do "felizes para sempre..." e
contribuíssem para manutenção da cumplicidade: escritor-leitor.
Para a garantia da continuidade da leitura, uma boa "pedida" são os gibis. Considero-os grandes aliados para manter um processo permanente de leitura. A partir dos 7 anos as crianças conseguem ler, entender e dar boas gargalhadas com os personagens dos quadrinhos. Assuntos como: política, solidariedade e cultura são abordados de maneira lúdica e atrativa nos gibis.
Atualmente, uma série de pockets baratinhos (R$11,00) da Mafalda, da Turma da Mônica, do Garfield, entre outros, estão disponíveis nas livrarias para a garotada das espinhas. Sem falar nos Diários: Otário, de um Banana, etc. Seguidos de uma série de "coisas" que toda a menina ou menino deve saber...
São os "proibidinhos" do momento e alguns pais (como no passado) "torcem o nariz" e deixam de comprá-los.
Como mãe e pedagoga aconselho, pois, não se trata de apologia ao deboche e, sim, de terapia do riso. Num momento oportuno, em que os pré-adolescentes vivem o luto da infância e o medo das transformações. Mudanças que o espelho não para de exibir.
Além disso, para manter acesa a "chama da narrativa", sugiro a instituição da mesada literária: o vale livro mensal ou o vale gibi semanal. O efeito da criança escolher e comprar o seu objeto de leitura é ímpar. Ela exerce a autonomia da escolha. O "aperto de mão com o escritor", não por obrigação, mas por empatia!


(Gibis e pockets da Marina- 11 anos)
Pensando nos espaços públicos para empréstimos de livros, muitas bibliotecas precisam rever o ambiente e as ofertas para os pré-adolescentes. Praticamente não se fala em literatura para os "monstrinhos"...
Espaços para pré-adolescentes precisam ser diferenciados, atrativos e com cheiro de novidade... Acolhedores de "tribos". Obras virtuais reedidatas, repaginadas, precisam compor o acervo. Caso contrário, será a vez da garotada "torcer o nariz"...
Sugestão:
Que tal organizar uma "GIBITECA" na sala de aula? Ou uma tendinha de gibis no pátio da escola para que as crianças leiam no recreio?
E a hora diária dos gibis?
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Pensador francês do séc. XIX, transgressão foi a sua palavra de ordem...


Eu estava relendo, Como um romance, de Daniel Penac (1993) em que esse, cita Paul Valéry (quem?). Então, fui "teclar" para saber mais sobre esse homem de palavras tão bonitas...

Conclusão:
Um defensor da leiturização em detrimento da decodificação.
Selecionei para o meu "coisário" algumas frases de Paul que achei muito legais e seguem abaixo:
"O homem é absurdo por aquilo que busca, grande por aquilo que encontra".
"Se a regra é a desordem, pagarás por instituir a ordem".
"Nem sempre sou da minha opinião".
(Outras frases é só "clicar" no título)

(A propósito, quem ainda não leu a obra: Como um romance, faça isso, um clássico para alfabetizadores...)
Importante: se gostou dessa postagem, ou de outras, não esqueça de marcar na "barrinha" abaixo a Reação. Sua opinião é tudo!
Ou então, deixe comentários. O blog está com fome de provocações...

domingo, 29 de agosto de 2010

Programas gratuitos para a aceleração da aprendizagem

─ Bem amigos, quem quer brincar?

─ Aqui, na sala do 1º ano? Todo mundo, mas alguém não deixa.
─ Quem?
─ Os que mandam.
─ Como assim?
─ Sim, minha mãe disse que “deu na TV” que, com 6 anos, dava para brincar na sala...
─ E então?
─ Mas eles não deram os carrinhos...
─ E a professora o que diz?
─ Que precisamos acelerar...
─ Não podem brincar nem de faz de conta?
─ Só no recreio...
─ Mas por quê?
─ Acho que é por causa do cheiro da nossa sala...
─ Tem cheiro de quê?
─ Meu irmão disse que é o mesmo de quando ele estava na 1ª série.
─ E a professora, também acha?
─ O nariz dela é pequeno.
─ Não sente?
─ Bueno, um dia ela chegou perfumando tudo; abriu as janelas e arrancou o A de avião e o P de piloto da parede, acho que suspeitou que o cheiro fosse dos cartazes.
─ Legal! Mas e aí?
─ Aí, fizemos a maior festança do Brasil! Até que...
─ O quê?
─ Entrou pela janela um aviãozinho de papel e foi terrível.
─ Como assim?
─ Tinha uma mensagem nele.
─ O que dizia?
─ Você vai se perder nas curvas.
─ E aí?
─ A professora precisou de um pit stop! Coitada!
─ Quem mandou o aviãozinho?
─ Não sabemos.
─ E a professora?
─ Suspeitou deles...
─ O que fizeram?
─ Suspendemos a corrida, voltamos para a mesa e pegamos a cartilha.
─ Não responderam?
─ Capaz, a profe ia perder o empregocínio.
─ E agora?
─ Bagunça, nunca mais!
─ Mas e aquilo que sua mãe ouviu na TV sobre o brincar?
─ Ah, ela não escuta bem em dia de Sol.



Maria Cristina Schefer



Obs.:

A legislação mudou, e a proposta de ingresso de crianças com 6 anos no ensino obrigatório, numa turma intitulada 1º ano, visava à socialização e à aproximação desses pequenos com o mundo da escrita, de forma lúdica.
Entretanto, o que é visto (na maior parte das escolas) é o enquadramento dessas crianças ao antigo modelo de 1ª série: giz, quadro-negro, nada de brinquedos, nada de professora que brinca e muita burocracia.
Sem falar nos programas gratuitos que visam à melhoria da qualidade da alfabetização, e que desconsideram conscientes, ou não, o proposto pelo MEC, no que diz respeito a essa nova clientela.
Crianças do 1º ano estão perdendo minutos valiosos, diariamente, preenchendo tabelinhas obrigatórias; professores, por outro lado, relatórios e mais relatórios estatísticos.
Qualquer programa futuro que vise a auxiliar a alfabetização e o letramento das crianças de 6 anos precisará equipar as salas de aula com boa literatura, com muitos brinquedos e capacitar as equipes em parceria com as universidades, sem cartilhas, sem foco estatístico e, muito menos, marqueteiro.

sábado, 28 de agosto de 2010

A alfabetização que amplia o olhar... Frei Betto

Pedro viu a uva

“Pedro viu a uva”, ensinavam os manuais de alfabetização. Mas o professor Paulo Freire, com o seu método de alfabetizar conscientizando, fez adultos e crianças da Guiné-Bissau, na índia e na Nicarágua, descobrirem que Pedro não viu apenas com os olhos. Viu também com a mente e se perguntou se uva é natureza ou cultura.
Pedro viu que fruta não é resultado de trabalho humano. É criação. É natureza. Paulo Freire ensinou a Pedro que semear a uva é ação humana na e sobre a natureza. É a mão, multiferramenta, despertando as potencialidades do fruto. Assim como o próprio ser humano foi semeado pela natureza em anos e anos evolução do Cosmo.
Colher a uva, esmagá-la e transformá-la em vinho é cultura, assinalou Paulo Freire. O trabalho humaniza a natureza e, ao realizá-lo, o homem e a mulher se humanizam. Trabalho que instaura o nó de relações, a vida social. Graças ao professor, (…) Pedro viu também que a uva é colhida por bóias-frias, que ganham pouco, e comercializam por atravessadores, que ganham melhor.
Pedro aprendeu com Paulo que, mesmo sem ainda saber ler, ele não é uma pessoa ignorante. Antes de aprender as letras, Pedro sabia erguer uma casa, tijolo a tijolo. O médico o advogado ou o dentista, com todo seu estudo, não era capaz de construir como Pedro. Paulo Freire ensinou a Pedro que não existe ninguém mais culto do que o outro, existem culturas paralelas, distintas, que se complementavam na vida social.
Pedro viu a uva e Paulo mostrou-lhe os cachos, a parreira, a plantação inteira. Ensinou a Pedro que a leitura de um texto é tanto melhor compreendida quanto mais se insere o texto no contexto do autor e do leitor, É dessa relação dialógica entre texto e contexto que Pedro extrai o pretexto para agir. No início e no fim do aprendizado é a práxis de Pedro que importa. Práxis – Teoria- Práxis, num processo indutivo que torna o educando sujeito histórico.
Pedro viu a uva e não viu a ave que, de cima, enxerga a parreira e não vê a uva. O que Pedro vê é diferente do que vê a ave. Assim, Paulo Freire ensinou a Pedro um princípio fundamental da epistemologia: a cabeça pensa onde os pés pisam. O mundo desigual pode ser lido pela ótica do opressor ou pela ótica do oprimido. Resulta uma leitura tão diferente uma da outra como entre a visão de Ptolomeu, ao observar o sistema solar com os pés na Terra, e a de Copérnico, ao imaginar-se com os pés no Sol. (…)”.

Fonte: Obra Essa escola chamada vida. De Paulo Freire e Frei Betto.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Hipóteses alfabéticas: como entendê-las?

Quem estudou ou estuda questões relativas à alfabetização sabe que o levantamento de hipóteses sobre a escrita é parte importante do processo de aprendizado. Contudo, para quem não é da área, como os próprios pais dos alunos, compreender o trabalho direto com textos (antes da alfabetização ortográfica) pode parecer "loucura docente".
Exemplificar para a comunidade escolar o levantamento de hipóteses alfabética é muito importante. Isso porque, todos os envolvidos no processo de alfabetização precisam de tranquilidade e confiança no trabalho. As crianças aprendem melhor quando os pais admiram a forma de ensinar do professor. Somente irão admirá-la se compreenderem. Conforme enfatizou Miguel Arroyo, em vários trechos, da obra Ofício de mestre "temos como referência de educação àquela que recebemos". Assim, para muitos pais é difícil compreender as atuais concepções de alfabetização. Precisamos auxiliá-los.

Recebi o texto abaixo numa capacitação. A fonte é desconhecida. Utilizo muito esse material. Considero-o "simples e rico" para demonstrar o processo de levantamento de hipóteses de escrita.

Obs: A ilustração (que acompanhava o original) substituí por um desenho feito, no paint, pela Marina (minha filha nº 2). Depois da exposição dos desenhos do Klaus (dias atrás) tive que achar um jeito de incluí-la no blog... (coisa de mãe)
Ela desenha muito bem no paint, já eu nunca consegui sequer ligar as linhas...
Esses "nativos digital" realmente dominam o "cybermundo".
Então, vamos lá, com vocês:



Kotek i Olek

Kto to? To Kotek.
A to kotck olka.
I miska kotska.
Kotck ma tam mleko.
- Mli, mli, mli.
- Kotck mlaska.

Tu acabaste de ler um texto em polonês.

Agora, responde:


1- O nome da menina? _______________________________________________________
2- Como se escreve gato em polonês? _____________________________
3- Uma pergunta que corresponde a “Quem é”? _______________________
4- Lê o texto novamente e marque:
Miska é:
( ) leite ( ) tijela
5- Qual escrita representa o som do gato bebendo leite? _________________________________