quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um conto que elege! Alfabetização do coração!


Duas Palavras
(Isabel Allende)
Tinha o nome de Belisa Crepusculario não por fé de batismo ou escolha de sua mãe, mas porque ela própria o procurou até o encontrar e com ele se ataviou. Seu ofício era vender palavras. Percorria o país, desde as regiões mais altas e frias até as costas quentes, instalando-se nas feiras e nos mercados, onde montava quatro estacas com um toldo de cânhamo, sob o qual se protegia do sol e da chuva para atender à clientela. Não precisava apregoar sua mercadoria, porque, de tanto caminhar por aqui e por ali, todos a conheciam. Havia os que a aguardavam de um ano para o outro e, quando aparecia na aldeia com a trouxa debaixo do braço, faziam fila em frente a sua barraca. Vendia a preços justos.  Por cinco centavos entregava versos de memória, por sete melhorava a qualidade dos sonhos, por nove escrevia cartas de namorados, por doze inventava insultos para inimigos irreconciliáveis. Também vendia contos, mas não eram contos de fantasia, e, sim, longas histórias verdadeiras que recitava de enfiada, sem nada saltar. Assim levava as notícias de uma ladeia para a outra. As pessoas lhe pagavam para acrescentar uma ou duas linhas: nasceu um menino, morreu o fulano, casaram-se os nossos filhos, queimaram-se as colheitas. Em cada lugar juntava-se uma pequena multidão a sua volta para ouvi-la quando começava a falar, e assim se inteirava da vida dos outros, dos parentes que viviam longe, dos pormenores da Guerra Civil. A quem lhe comprasse cinqüenta centavos, dava de presente uma palavra secreta para afugentar melancolia. Não era a mesma para a todos, certamente, porque isso teria sido um engano coletivo. Cada um recebia a sua, com certeza de que ninguém mais empregava para esse fim no universo inteiro além dele.
Belisa Crepusculario nascera numa família tão miserável, que nem sequer possuía nomes para das aos filhos. Veio ao mundo e cresceu na região mais inóspita, onde, em alguns anos, as chuvas se transformaram em avalanches de água que tudo arrastaram, e em outros nem uma gota cai do céu, o sol aumenta até ocupar o horizonte por inteiro, e o mundo se transforma em deserto. Até completar doze anos não teve outra ocupação nem virtude senão sobreviver à fome e à fadiga de século. Durante uma seca interminável, coube-lhe enterrar quatro irmãos menores, e, quando compreendeu que chegava a sua vez, decidiu começar a andar pelas planícies em direção ao mar, para ver se, na viagem, conseguia enganar a morte. A terra estava escalvada, partida em gretas profundas, semeada de pedras, fósseis de árvores e de arbustos espinhosos, esqueletos de animais esbranquiçados pelo calor. De vez em quando deparava com famílias que, como ela, iam para o sul, seguindo a miragem de água. Alguns tinham iniciado a caminhada levando seus pertences no ombro ou em carrinhos de mão, mas depois de pouco caminhar, acabavam abandonando suas coisas. Arrastavam-se penosamente, com a pele feita de couro de lagarto e com os olhos queimados pela reverberação da luz. Belisa saudava-os com um gesto ao passar, mas não parava, porque não podia gastar suas forças em exercícios de compaixão. Muitos caíram pelo caminho, mas ela era tão teimosa, que conseguiu atravessar o inferno e, por fim, chegar aos primeiros mananciais, finos filetes de água, quase invisíveis, que alimentavam raquítica vegetação e que, mais adiante, se transformava em riachos e pântanos.
Belisa Crepusculario salvou a vida e, por acaso, descobriu a escrita. Ao chegar a uma aldeia nas proximidades da costa, o vento jogou seus pés uma folha de jornal. Pegou aquele papel amarelado e quebradiço, esteve longo tempo observando-o sem lhe adivinhar o uso, até que a curiosidade pôde mais que a timidez. Aproximando-se de um homem que banhava um cavalo no mesmo charco turvo em que ela saciara a sede.
– Que é isto? – perguntou.
– A página de esportes do jornal – respondeu o homem sem mostras de espanto por sua ignorância.
A resposta deixou a garota atônita, mas não quis parecer atrevida, limitando-se a perguntar o significado das patinhas de mosca desenhadas sobre o papel.
– São palavras, menina. Diz aí que Fulgencio Barba derrubou Negro Tiznao no terceiro assalto.
Nesse dia Belisa Crepusculario soube que as palavras andam soltas, sem dono, e que qualquer um com pouco de manha pode pegá-las para vender. Considerou sua situação e concluiu que, além de se prostituir ou se empregar como criada nas cozinhas dos ricos, poucas eram as ocupações que poderia desempenhar. Vender palavras pareceu-lhe alternativa decente. A partir desse momento exerceu tal profissão e nunca mais se interessou por outra. A princípio oferecia sua mercadoria sem suspeitar de que as palavras podiam ser escritas fora dos jornais. Quando percebeu isso, calculando as infinitas perspectivas do negócio, com suas economias pagou vinte pesos a um padre para lhe ensinar ler e escrever e com os três que lhe sobraram, comprou um dicionário. Leu-o de A a Z e depois atirou-o no mar,  não era sua intenção cansar os clientes com palavras entaladas.
Vários anos depois, numa manhã de agosto, estava Belisa Crepusculario no centro de uma praça, sentada sob seu toldo, vendendo argumentos de justiça a um velho que solicitava sua pensão há dezessete anos. Era dia de feira, e havia muito barulho a sua volta. Ouviram-se, de repente, galopes e gritos; ela levantou os olhos da escrita e viu, primeiro, uma nuvem de pó, e em seguida, um grupo de cavalos que irrompeu na praça. Tratava-se dos homens do Coronel, comandados pelo Mulato, um gigante conhecido em toda a região pela rapidez de sua faca e pela lealdade ao seu chefe. Ambos, o Coronel e o Mulato tinham passado a vida ocupados na guerra civil, e seus homens estavam irremediavelmente associados ao malefício e à calamidade. Os guerreiros entraram na aldeia como um rebanho em fuga, envoltos em ruído, banhados de suor e deixando atrás de si os destroços de um furacão. As galinhas voaram, os cães correram até se perder, as mulheres esconderam-se com os filhos, e não ficou no local da feira vivalma a não ser Belisa Crepusculario, que nunca tinha visto o Mulato e que, por isso mesmo, estranhou que ele se dirigisse a ela.
– Procuro-a – gritou, apontando-a com o chicote enrolado; e, antes que acabasse de dizer isso, dois homens caíram em cima da mulher, atropelando o toldo e quebrando o tinteiro, amarraram-lhe pés e mãos e puseram-na atravessada como um fardo de marinheiro sobre a garupa do cavalo do Mulato. Depois começaram a galopar em direção as colinas.
Horas mais tarde, quando Belisa Crepusculario estava a ponto de morrer, com o coração transformado em areia elas sacudidelas do cavalo, sentiu que paravam e que quatro mãos poderosas a colocavam em terra. Tentou pôr-se de pé e erguer a cabeça com dignidade, mas faltaram-lhe forças, e caiu com um suspiro, afundando-se em pesado sono. Despertou várias horas depois com um sonho obscuro o murmúrio da noite no campo, mas não teve tempo de decifrar esses ruídos porque ao abrir os olhos, viu a sua frente o olhar impaciente do Mulato, ajoelhado ao seu lado.
– Finalmente acorda, mulher – disse, estendendo-lhe o cantil para que bebesse um gole de aguardente com pólvora e acabasse de recuperar a vida.
Ela quis saber a causa de tantos maus-tratos, e ele lhe explicou que o Coronel necessitava de seus serviços. Deixou-a molhar o rosto e depois levou-a até um dos extremos do acampamento, onde o homem mais temido do país repousava numa rede pendurada em duas árvores. Ela não conseguia ver-lhe as feições, porque ele tinha sobre o rosto a sombra incerta da folhagem, bem como a sombra indelével de muitos anos vivendo como bandido, mas imaginou que devia ter expressão perdulária, uma vez que seu gigantesco ajudante a ele se dirigia com tanta humildade. Surpreendeu-a voz dele, suava e bem modulada como a de um professor.
– É você que vende palavras? – perguntou.
– A seu serviço – balbuciou ela, perscrutando a penumbra para vê-lo melhor.
O coronel pôs-se de pé, a luz da tocha que o Mulato levava iluminou-lhe a face. A mulher viu sua pele escura e seus ferozes olhos de puma, logo percebendo que estava diante do homem mais solitário desse mundo.
– Quero ser presidente – disse ele.
Estava cansado de percorrer aquela terra maldita em guerras inúteis e derrotas que nenhum subterfúgio conseguia transformar em vitórias. Passara muitos anos dormindo sob a intempérie, picado por mosquitos, alimentando-se de iguanas e sopa de cobra, mas esses inconvenientes menores não eram razão suficiente para lhe mudar o destino. O que em verdade o enfadava era o terror nos olhos dos outros. Desejava entrar nas aldeias sob arcos de triunfo, entre bandeiras de cores e flores, que o aplaudissem e lhe dessem de presente ovos frescos e pão recém-saído do forno. Estava farto de ver como os homens fugiam a sua passagem, as mulheres abortavam de susto, e tremiam as crianças; por isso decidira ser presidente. O Mulato sugeriu-lhe que fossem à capital e entrassem a galope no palácio para se apoderar do governo, como tomaram tantas outras coisas sem pedir autorização, mas o Coronel não interessava tornar-se outro tirano, desses já tinha havido bastantes por ali, e, além disso, dessa maneira não conseguiria o afeto das pessoas. Sua ideia consistia em ser eleito por voto popular nos comícios de dezembro.
- Para isso tenho de falar como candidato. Pode vender-me as palavras para um discurso? – perguntou o Coronel a Belisa Crepusculario.
Ela já tinha aceitado muitas encomendas, mas nenhuma como essa; não se pôde negar, no entanto, receando que o Mulato lhe metesse um tiro entre os olhos ou, pior ainda, o Coronel começasse a chorar. Por outro lado, teve vontade de ajudá-lo, porque sentiu palpitante o calor em sua pele, o desejo poderoso de tocar aquele homem, de percorrê-lo com as mãos, de apertá-lo entre os braços.
Toda a noite e boa parte do dia seguinte esteve Belisa Crepusculario à procura, em seu repertório, das palavras apropriadas para um discurso presidencial, vigiada de perto pelo Mulato, que não tirava os olhos de suas firmes pernas de caminhantes e seus seios virginais. Descartou as palavras ásperas e secas, as demasiado floridas, as que estavam desbotadas pelo abuso, as que ofereciam promessas improváveis, as que careciam de verdade e as confusas, para ficar com aquelas capazes de tocar com certeza o pensamento dos homens e a intuição das mulheres. Fazendo uso dos conhecimentos comprados ao padre por vinte pesos, escreveu o discurso numa folha de papel e logo fez sinais ao Mulato para desatar a corda com a qual a tinha amarrado pelas canelas a uma árvore. Levaram-na novamente ao Coronel, e, ao vê-lo, tornou a sentir a mesma ansiedade palpitante do primeiro encontro. Deu-lhe o papel e aguardou, enquanto ele olhava, segurando-o com a ponta dos dedos.
– Que caralho diz isso aqui? – perguntou por fim.
–Não Sabe ler?
– O que sei fazer é guerra – respondeu ele.
Ela leu em voz alta o discurso. Leu-o três vezes, para que o cliente pudesse gravá-lo na memória. Quando terminou, viu a emoção dos homens da tropa que haviam se juntado para escutá-la e notou que os olhos amarelos do Coronel brilhavam de entusiasmo, de certo que, com essas palavras, a cadeira presidencial seria sua.
- Se, depois de ouvirem três vezes, os rapazes continuam de boca aberta, é porque essa droga serve, Coronel – aprovou o Mulato.
– Quando devo por seu trabalho, mulher? – perguntou o chefe.
– Um peso, Coronel.
– Não é caro – disse ele, abrindo a bolsa que trazia pendurada ao cinturão com os restos do último saque.
– Além disso, tem direito a uma prenda. Correspondem-lhe duas palavras secretas – disse Belisa Crepusculario.
– Como é isso?
Ela começou a lhe explicar que, por cada cinqüenta centavos que um cliente pagava, oferecia-lhe uma palavra de uso exclusivo. O chefe encolheu os ombros, porque não tinha menor interesse na oferta, mas não quis ser indelicado com quem o servira tão bem. Ela se aproximou sem pressa da cadeira de couro em que estava sentado e inclinou-se para dar seu presente. Então o homem sentiu cheiro de animal montês que saia daquela mulher, o calor de incêndio irradiado pelos quadris, o roçar terrível de seus cabelos, o hálito hortelã-pimenta sussurando-lhe ao ouvido as duas palavras secretas a que tinha direito.
– São suas, Coronel – disse ao se retirar. – Pode usá-las como quiser.
O Mulato acompanhou Belisa até a beira do caminho, sem deixar de olhá-la com olhos suplicantes de cão perdido, mas, quanto estendeu a mão para tocá-la, ela o deteve com um jorro de palavras inventadas que tiveram virtude de lhe espantar desejo, porque julgou tratar-se de alguma maldição irrevogável.
Nos meses de setembro, outubro e novembro o Coronel pronunciou seu discurso tantas vezes, que, se não fosse feito com palavras refulgentes e duradouras, o uso de tê-lo ia transformando em cinza. Percorreu o país em todas as direções, entrando nas cidades com ar triunfal e detendo-se também nas aldeias mais esquecidas, onde só o rasto do lixo indicava a presença humana, para convencer os eleitores a votarem nele. Enquanto falava em cima de um estrado no centro da praça, o Mulato e seus homens distribuíam caramelos e pintavam seu nome com tinta dourada nas paredes, mas ninguém prestava atenção nesses recursos de mercador, porque estavam todos deslumbrados pela clareza de suas propostas e pela lucidez poética de seus argumentos, contagiados por seu tremendo desejo de corrigir os erros da história e alegres pela primeira vez em suas vidas. Ao terminar a arenga do candidato, a tropa dava tiros de pistola para o ar e soltava bombas, e, quando por fim se retiravam, ficava atrás um rasto de esperança que permanecia muitos dias no ar, como magnífica recordação de um comenta. Logo o Coronel se tornou o político mais popular. Era fenômeno nunca visto, aquele homem surgido da Guerra Civil, cheio de cicatrizes, falando como um catedrático, cujo prestígio se espelhava pelo território nacional, comovendo o coração da pátria. A imprensa ocupava-se dele. Os jornalistas viajavam de longe para entrevistá-lo e repetir suas frases, e assim cresceu o número de seus seguidores e seus inimigos.
– Estamos indo bem, Coronel! – disse o Mulato ao fim de doze semanas de êxito.
Mas o candidato não o ouviu. Estava repetindo suas duas palavras secretas, como fazia, cada vez com mais freqüência. Dizia-as quando o abrandava a nostalgia, murmurava-as adormecido, levantava-as consigo em seu cavalo, pensando nelas antes de pronunciar seu célebre discurso e se surpreendia saboreando-as nos momentos descuidados. E, em todas as ocasiões em que essas duas palavras lhe vinham à mente, envocava a presença de Belisa Crepusculario, e excitavam-se-lhe os sentidos como a recordação do cheiro montês, o calor de incêndio, o roçar terrível e o hálito de hortelã-pimenta, até que começou a andar como um sonâmbulo, e seus homens compreenderam que se lhe tinha acabado a vida antes de alcançar a cadeira dos presidentes.
– O que está havendo, Coronel? – perguntava-lhe muitas vezes o Mulato, até que por fim, um dia, o chefe não agüentou mais e confessou-lhe que a razão de seu ânimo eram as duas palavras que trazia cravadas no ventre.
– Diga-me quais são, para ver se perdem seu poder – pediu-lhe o fiel ajudante.
– Não as direi a você, são só minhas – replicou o Coronel.
Cansado de ver o chefe definhar como um condenado à morte, o Mulato pôs a espingarda ao ombro e partiu à procura de Belisa Crepusculario. Seguiu pegadas por toda a vasta geografia até encontrá-la numa aldeia do Sul, instalada sob o toldo de seu ofício, contando o seu rosário de notícias. Plantou-se a sua frente com as pernas abertas, empunhando a arma.
– Venha comigo – ordenou.
Ela estava a sua espera. Guardou o tinteiro, dobrou o pano da barraca, pôs o xale nos ombros e, em silêncio, montou a garupa do cavalo. Não trocaram nem um gesto todo o caminho, porque o desejo que o Mulato sentia por ela se transformara em raiva, e só medo que sua língua lhe inspirava o impedia de desfazê-la a chicotada; também não estava disposto a dizer que o Coronel andava aparvalhado, e que aquilo que tantos anos de batalha não haviam logrado, conseguiu-o um encantamento sussurrado ao ouvido. Três dias depois chegaram ao acampamento; levou de imediato sua prisioneira até o candidato, diante de toda a tropa.
– Coronel, trouxe essa bruxa para que lhe devolva suas palavras e para que ela lhe devolva hombridade – disse, apontando o cano da espingarda para a nuca da mulher.
O Coronel e Belisa Crepusculario olharam-se longamente, medindo-se  distância. Os homens compreenderam, então, que seu chefe já não podia desfazer do feitiço das palavras endemoninhadas, porque todos puderam ver os olhos carnívoros do puma tornarem-se mansos quando ela avançou e lhe pegou a mão.
Fonte: Contos de Eva Luna. Rio de Janeiro Bertrand Brasil: 2007, p. 13-21

Lero-lero: Até uma campanha eleitoral pode ficar mais bonita, com as palavras certas! Acho lindo esse conto e todos os outros dessa obra. Sou "fasoca" da autora! Minhas alunas sabem o quanto!
Beijos, espero que gostem!

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