Lero-lero: Algumas colegas de docência solicitaram (em Estância) um texto sobre o brinquedo. Por isso, esta postagem.
Bem, falar de brinquedo para mim é quase impossível sem mencionar as contribuições de Walter Benjamim. No artigo que segue, a escritora tece considerações valiosíssimas acerca de algumas das contribuições de Benjamim. Espero que gostem!
http://www.scielo.br/pdf/psoc/v15n2/a06v15n2.pdf
Algumas informações sobre Walter Benjamim:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Benjamin
Bjos! MD.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Voltando de Estância! Contando!
Hoje, lecionei em Estância Velha. Aliás, contei histórias. O tradicional conto da Chapeuzinho Vermelho, em várias versões e estratégias, foi esmiuçado: a partir dos estudos da psicanálise e de mecanismos de tradução cultural (adaptação do contos em cada cultura). Tudo em meio à defesa argumentativa pela recuperação da prática da oralidade narrativa por parte do professor (de classe). Enfim, pela defesa das professoras Sherazade, e das rodas literárias na rotina diária (da educação infantil até o final do Ensino Fundamental). Conversamos muito sobre a "tendência das horas do conto" nas escolas, que retiram (muitas vezes) do professor a possibilidade de fala recreativa, que é de suma importância para a criação de vínculos. Quando o professor abre mão da fala narrativa, abre mão de um grande momento de mediação pedagógica. Falamos também da importância do perfil lúdico e comunicativo para o "bibliotecário" escolar. Também trabalhamos com parlendas (aqueles pequenos versos com rimas), trava-línguas (aqueles versinhos que exigem que algumas sílabas sejam repetidas constantemente) e do potencial didático que esses textos possuem para o trabalho com memorização desde a Educação Infantil, bem como, de estratégias para memorizar na infância: caixa de objetos relativos às parlendas, movimentos, sons, etc.
Seguem alguns dos textos trabalhados! Beijos e boa semana, 5 histórias e uma parlenda...

Lalá, Lelé e Lili e suas filhas,
Lalalá, Lelelé e Lilili e suas netas
Lalelá, Lelalé e LeLali e suas bisnetas
Lilelá, Lalilé e Lelali e suas tataranetas
Laleli, Lilalé e Lelilá cantavam em coro
LÁLÁLÁLÉLÉLÉLILILI.
Se cada um vai a casa de cada um
é porque cada um quer que cada um lá vá.
Porque se cada um não fosse a casa de cada um
é porque cada um não queria que cada um fosse lá.
Porque se cada um não fosse a casa de cada um
é porque cada um não queria que cada um fosse lá.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Sobre ser pop! Uma crônica sobre cultura!
Quem sou eu? Populista, popular ou elitista
(Juremir Machado da Silva)
(Juremir Machado da Silva)
Um leitor quer saber se sou pop, popular, populista ou elitista. Nada disso. Não sei dirigir. Também nunca desmontei a televisão para saber o que tinha dentro. Como nunca toquei no volante de um carro, nunca pedi emprestado a caranga de meu pai para sair com a namorada. Meu pai não tinha carro. Pior de tudo: não ouvi Beatles nem Rolling Stones, nem o resto da galera, quando era adolescente. Muito pior ainda: não tive uma banda de rock quando era garoto. Por tudo isso, não sou nem jamais serei pop. Não fico acordado para ver Jô Soares, detesto Arnaldo Jabor, me lixo para Bob Dylan e não uso suíças de garoto de Segundo Caderno. Não sou pop.
Faltam-me tatuagens, piercings e roupas pretas para ser pop. Estou fora. Para quem ainda não sacou, pop é o que sobrou da cultura na indústria cultural, aquele verniz que adula o consumidor, falando o que ele quer e entende, por imitá-lo, e transforma comédia enfadonha, em arte genial. Pop é a classe média saindo do shopping para ir ao show de rock do filho num bar da Padre Chagas. Sou contra a Padre Chagas. Para ser pop eu teria de escrever um livro que interessasse até um participante de um reality-show. Não tenho talento.
Sou um autor de fracassos.
O BBB, ao contrário do que divulga o holandês que o inventou para nosso desespero, não se inspirou num projeto científico, mas numa semana passada por mauricinhos e patricinhas numa casa de praia. É a cara do Brasil geração Miami e MTV.
Não sou pop por carência. Mas tampouco sou popular, por excesso. Andei lendo demais, viajando muito, misturando coisas e perdi a capacidade de escrever para quem gosta de pagode, de Ratinho, de Faustão, de minissérie da Globo e de Harry Potter. Azar o meu. Vou ficar pobre para sempre. Quem manda não saber dirigir e não ter ouvido rock na infância. Um amigo meu, francês, me soltou os cachorros quando eu disse que acho Beatles uma babaquice. Um desafeto, hoje pacificado, me explicou com maestria: sou assim porque não nasci no Moinhos de Vento. Sou chato demais para ser pop e de menos para ser popular. Isso é incurável.
Também não sou populista. Não faço muitos discursos contra o neoliberalismo, não acho que todos os adversários do PT sejam desqualificados morais, não defendo a superioridade da arte popular e não acredito na redenção do mundo pela ação dos excluídos. Pior ainda: acho Fidel Castro e Hugo Chávez dois canastrões de última linha, mas nem por isso os consideros os gênios do mal.
Elitista? Impossível. Não ponho gravata para ouvir Mozart, o que faço até sentado no vaso, não tenho certeza se a criação de uma música para dançar exige menos talento que uma composição erudita e, se tenho convicção que Carlinhos Brown nunca seria Mozart, imagino que Mozart não ganharia a vida como estrela baiana.
Questão de talento.
Adoro de tudo um pouco e sou relativista por incompetência. Parece-me impossível demonstrar que uma obra é melhor que outra, salvo com critérios que só são bons porque são os de quem os escolheu e servem para elevá-lo acima dos outros.
Como se vê, sou um desajustado cultural, o que me leva a agir como franco-atirador. Não tenho nada a perder e nada a ganhar. De nada me adianta entrar numa auto-escola e ouvir rock tardiamente. Agora é mesmo tarde, Lenon está morto. Eu queria uma arte sem efeito, como um cinema sem filtros, sem maquiagem, com luz natural e câmera na mão – o Dogma 95 fez isso e me provou que a negação do efeito é outro efeito. O meu problema é que tenho alma de sociólogo (o mala que grita eu vi, eu vi, é truque, enquanto todos babam diante do efeito de uma mágica). O pop e o publicitário inventam mitos. O desajustado e o franco-atirador desmontam-nos. Ou tentam.
Deixo apenas um conselho aos pais, escudado em amplo estudo das teorias da psicologia familiar: se quiserem ter filhos normais, tratem de comprar carro e de emprestá-lo ao Júnior. Se ele não se matar de madrugada, nem vendê-lo para comprar drogas, será um homem bem-sucedido, um chefe autoritário ou artista de sucesso. De rock nem se fala! O que me assusta mais nos roqueiros, entre outras figuras pop igualmente temíveis, é o visual radical de vampiro de novela das sete. É hard!
Faltam-me tatuagens, piercings e roupas pretas para ser pop. Estou fora. Para quem ainda não sacou, pop é o que sobrou da cultura na indústria cultural, aquele verniz que adula o consumidor, falando o que ele quer e entende, por imitá-lo, e transforma comédia enfadonha, em arte genial. Pop é a classe média saindo do shopping para ir ao show de rock do filho num bar da Padre Chagas. Sou contra a Padre Chagas. Para ser pop eu teria de escrever um livro que interessasse até um participante de um reality-show. Não tenho talento.
Sou um autor de fracassos.
O BBB, ao contrário do que divulga o holandês que o inventou para nosso desespero, não se inspirou num projeto científico, mas numa semana passada por mauricinhos e patricinhas numa casa de praia. É a cara do Brasil geração Miami e MTV.
Não sou pop por carência. Mas tampouco sou popular, por excesso. Andei lendo demais, viajando muito, misturando coisas e perdi a capacidade de escrever para quem gosta de pagode, de Ratinho, de Faustão, de minissérie da Globo e de Harry Potter. Azar o meu. Vou ficar pobre para sempre. Quem manda não saber dirigir e não ter ouvido rock na infância. Um amigo meu, francês, me soltou os cachorros quando eu disse que acho Beatles uma babaquice. Um desafeto, hoje pacificado, me explicou com maestria: sou assim porque não nasci no Moinhos de Vento. Sou chato demais para ser pop e de menos para ser popular. Isso é incurável.
Também não sou populista. Não faço muitos discursos contra o neoliberalismo, não acho que todos os adversários do PT sejam desqualificados morais, não defendo a superioridade da arte popular e não acredito na redenção do mundo pela ação dos excluídos. Pior ainda: acho Fidel Castro e Hugo Chávez dois canastrões de última linha, mas nem por isso os consideros os gênios do mal.
Elitista? Impossível. Não ponho gravata para ouvir Mozart, o que faço até sentado no vaso, não tenho certeza se a criação de uma música para dançar exige menos talento que uma composição erudita e, se tenho convicção que Carlinhos Brown nunca seria Mozart, imagino que Mozart não ganharia a vida como estrela baiana.
Questão de talento.
Adoro de tudo um pouco e sou relativista por incompetência. Parece-me impossível demonstrar que uma obra é melhor que outra, salvo com critérios que só são bons porque são os de quem os escolheu e servem para elevá-lo acima dos outros.
Como se vê, sou um desajustado cultural, o que me leva a agir como franco-atirador. Não tenho nada a perder e nada a ganhar. De nada me adianta entrar numa auto-escola e ouvir rock tardiamente. Agora é mesmo tarde, Lenon está morto. Eu queria uma arte sem efeito, como um cinema sem filtros, sem maquiagem, com luz natural e câmera na mão – o Dogma 95 fez isso e me provou que a negação do efeito é outro efeito. O meu problema é que tenho alma de sociólogo (o mala que grita eu vi, eu vi, é truque, enquanto todos babam diante do efeito de uma mágica). O pop e o publicitário inventam mitos. O desajustado e o franco-atirador desmontam-nos. Ou tentam.
Deixo apenas um conselho aos pais, escudado em amplo estudo das teorias da psicologia familiar: se quiserem ter filhos normais, tratem de comprar carro e de emprestá-lo ao Júnior. Se ele não se matar de madrugada, nem vendê-lo para comprar drogas, será um homem bem-sucedido, um chefe autoritário ou artista de sucesso. De rock nem se fala! O que me assusta mais nos roqueiros, entre outras figuras pop igualmente temíveis, é o visual radical de vampiro de novela das sete. É hard!
Lero-lero: Lendo um texto acadêmico, encontrei a indicação dessa crônica e gostei muito, grifei o conceito de pop pois achei hilário! Contudo, não concordo com a crítica à Harry Potter. Ele (o Juremir) deu, no texto, licença para isso. Minha filha tem 12 anos leu e releu várias vezes cada obra. Aliás, ela lê de tudo. Através dela, conheci melhor a história e o que significa ser um trouxa (um misturadinho) numa escola de bruxos (os purinhos), o debate da obra é o grande debate social da atualidade: entre os que nascem no "berço de ouro" e os que precisam correr atrás do pão de cada dia. Onde os mitos da miscigenação parcimoniosa caem por terra... Enfim, acho que a saga "inglesa" é papo de gente grande em "pequenas doses" para pré-adolescentes... E aí, eu garanto, poucos aguentam ler até o fim! (7 livros) A maioria prefere o shopping!
De outro modo, gosto muitíssimo desse cronista gaúcho (do Correio do Povo), pode não ser tão popular como ele insiste em afirmar (no texto) contudo, sua escrita é de uma riqueza perturbadora! Duvido que os ... "mais pop/populares" não leiam seus recadinhos sociais!
De outro modo, gosto muitíssimo desse cronista gaúcho (do Correio do Povo), pode não ser tão popular como ele insiste em afirmar (no texto) contudo, sua escrita é de uma riqueza perturbadora! Duvido que os ... "mais pop/populares" não leiam seus recadinhos sociais!
Beijos! São 2h e por hoje chega!
Ah, segue o link do texto responsável por essa postagem:
http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n23/n23a03.pdf
Ah, segue o link do texto responsável por essa postagem:
http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n23/n23a03.pdf
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Um conto que elege! Alfabetização do coração!
Duas Palavras
(Isabel Allende)
Tinha o nome
de Belisa Crepusculario não por fé de batismo ou escolha de sua mãe, mas porque
ela própria o procurou até o encontrar e com ele se ataviou. Seu ofício era
vender palavras. Percorria o país, desde as regiões mais altas e frias até as
costas quentes, instalando-se nas feiras e nos mercados, onde montava quatro
estacas com um toldo de cânhamo, sob o qual se protegia do sol e da chuva para
atender à clientela. Não precisava
apregoar sua mercadoria, porque, de tanto caminhar por aqui e por ali, todos a
conheciam. Havia os que a aguardavam de um ano para o outro e, quando
aparecia na aldeia com a trouxa debaixo do braço, faziam fila em frente a sua
barraca. Vendia a preços justos. Por
cinco centavos entregava versos de memória, por sete melhorava a qualidade dos
sonhos, por nove escrevia cartas de namorados, por doze inventava insultos para
inimigos irreconciliáveis. Também vendia contos, mas não eram contos de
fantasia, e, sim, longas histórias verdadeiras que recitava de enfiada, sem
nada saltar. Assim levava as notícias de uma ladeia para a outra. As pessoas
lhe pagavam para acrescentar uma ou duas linhas: nasceu um menino, morreu o
fulano, casaram-se os nossos filhos, queimaram-se as colheitas. Em cada lugar
juntava-se uma pequena multidão a sua volta para ouvi-la quando começava a
falar, e assim se inteirava da vida dos outros, dos parentes que viviam longe,
dos pormenores da Guerra Civil. A quem lhe comprasse cinqüenta centavos, dava de presente uma palavra secreta para
afugentar melancolia. Não era a mesma para a todos, certamente, porque isso
teria sido um engano coletivo. Cada um recebia a sua, com certeza de que
ninguém mais empregava para esse fim no universo inteiro além dele.
Belisa Crepusculario
nascera numa família tão miserável, que nem sequer possuía nomes para das aos
filhos. Veio ao mundo e cresceu na
região mais inóspita, onde, em alguns anos, as chuvas se transformaram em
avalanches de água que tudo arrastaram, e em outros nem uma gota cai do céu, o
sol aumenta até ocupar o horizonte por inteiro, e o mundo se transforma em
deserto. Até completar doze anos não teve outra ocupação nem virtude senão
sobreviver à fome e à fadiga de século. Durante uma seca interminável,
coube-lhe enterrar quatro irmãos menores, e, quando compreendeu que chegava a
sua vez, decidiu começar a andar pelas planícies em direção ao mar, para ver
se, na viagem, conseguia enganar a morte. A terra estava escalvada, partida em
gretas profundas, semeada de pedras, fósseis de árvores e de arbustos
espinhosos, esqueletos de animais esbranquiçados pelo calor. De vez em quando
deparava com famílias que, como ela, iam para o sul, seguindo a miragem de
água. Alguns tinham iniciado a caminhada levando seus pertences no ombro ou em
carrinhos de mão, mas depois de pouco caminhar, acabavam abandonando suas
coisas. Arrastavam-se penosamente, com a
pele feita de couro de lagarto e com os olhos queimados pela reverberação da
luz. Belisa saudava-os com um gesto ao passar, mas não parava, porque não
podia gastar suas forças em exercícios de compaixão. Muitos caíram pelo
caminho, mas ela era tão teimosa, que conseguiu atravessar o inferno e, por
fim, chegar aos primeiros mananciais, finos filetes de água, quase invisíveis,
que alimentavam raquítica vegetação e que, mais adiante, se transformava em
riachos e pântanos.
Belisa Crepusculario salvou a vida e, por
acaso, descobriu a escrita. Ao chegar a uma aldeia nas proximidades da costa, o
vento jogou seus pés uma folha de jornal. Pegou aquele papel amarelado e
quebradiço, esteve longo tempo observando-o sem lhe adivinhar o uso, até que a
curiosidade pôde mais que a timidez. Aproximando-se de um homem que banhava
um cavalo no mesmo charco turvo em que ela saciara a sede.
– Que é isto?
– perguntou.
– A página de
esportes do jornal – respondeu o homem sem mostras de espanto por sua
ignorância.
A resposta deixou a garota atônita, mas não
quis parecer atrevida, limitando-se a perguntar o significado das patinhas de
mosca desenhadas sobre o papel.
– São palavras, menina. Diz aí que
Fulgencio Barba derrubou Negro Tiznao no terceiro assalto.
Nesse dia
Belisa Crepusculario soube que as
palavras andam soltas, sem dono, e que qualquer um com pouco de manha pode
pegá-las para vender. Considerou sua situação e concluiu que, além de se
prostituir ou se empregar como criada nas cozinhas dos ricos, poucas eram as
ocupações que poderia desempenhar. Vender palavras pareceu-lhe alternativa
decente. A partir desse momento exerceu tal profissão e nunca mais se interessou
por outra. A princípio oferecia sua mercadoria sem suspeitar de que as palavras
podiam ser escritas fora dos jornais. Quando percebeu isso, calculando as
infinitas perspectivas do negócio, com
suas economias pagou vinte pesos a um padre para lhe ensinar ler e escrever e
com os três que lhe sobraram, comprou um dicionário. Leu-o de A a Z e depois atirou-o
no mar, não era sua intenção cansar os
clientes com palavras entaladas.
Vários anos
depois, numa manhã de agosto, estava Belisa Crepusculario no centro de uma
praça, sentada sob seu toldo, vendendo argumentos de justiça a um velho que
solicitava sua pensão há dezessete anos. Era dia de feira, e havia muito
barulho a sua volta. Ouviram-se, de repente, galopes e gritos; ela levantou os
olhos da escrita e viu, primeiro, uma nuvem de pó, e em seguida, um grupo de
cavalos que irrompeu na praça. Tratava-se dos homens do Coronel, comandados
pelo Mulato, um gigante conhecido em toda a região pela rapidez de sua faca e
pela lealdade ao seu chefe. Ambos, o Coronel e o Mulato tinham passado a vida
ocupados na guerra civil, e seus homens estavam irremediavelmente associados ao
malefício e à calamidade. Os guerreiros entraram na aldeia como um rebanho em
fuga, envoltos em ruído, banhados de suor e deixando atrás de si os destroços
de um furacão. As galinhas voaram, os cães correram até se perder, as mulheres
esconderam-se com os filhos, e não ficou no local da feira vivalma a não ser
Belisa Crepusculario, que nunca tinha visto o Mulato e que, por isso mesmo,
estranhou que ele se dirigisse a ela.
– Procuro-a –
gritou, apontando-a com o chicote enrolado; e, antes que acabasse de dizer
isso, dois homens caíram em cima da mulher, atropelando o toldo e quebrando o
tinteiro, amarraram-lhe pés e mãos e puseram-na atravessada como um fardo de
marinheiro sobre a garupa do cavalo do Mulato. Depois começaram a galopar em
direção as colinas.
Horas mais
tarde, quando Belisa Crepusculario estava a ponto de morrer, com o coração
transformado em areia elas sacudidelas do cavalo, sentiu que paravam e que
quatro mãos poderosas a colocavam em terra. Tentou pôr-se de pé e erguer a
cabeça com dignidade, mas faltaram-lhe forças, e caiu com um suspiro,
afundando-se em pesado sono. Despertou várias horas depois com um sonho obscuro
o murmúrio da noite no campo, mas não teve tempo de decifrar esses ruídos
porque ao abrir os olhos, viu a sua frente o olhar impaciente do Mulato,
ajoelhado ao seu lado.
– Finalmente
acorda, mulher – disse, estendendo-lhe o cantil para que bebesse um gole de
aguardente com pólvora e acabasse de recuperar a vida.
Ela quis saber
a causa de tantos maus-tratos, e ele lhe explicou que o Coronel necessitava de
seus serviços. Deixou-a molhar o rosto e depois levou-a até um dos extremos do
acampamento, onde o homem mais temido do país repousava numa rede pendurada em
duas árvores. Ela não conseguia ver-lhe as feições, porque ele tinha sobre o
rosto a sombra incerta da folhagem, bem como a sombra indelével de muitos anos
vivendo como bandido, mas imaginou que devia ter expressão perdulária, uma vez
que seu gigantesco ajudante a ele se dirigia com tanta humildade. Surpreendeu-a
voz dele, suava e bem modulada como a de um professor.
– É você que
vende palavras? – perguntou.
– A seu
serviço – balbuciou ela, perscrutando a penumbra para vê-lo melhor.
O coronel
pôs-se de pé, a luz da tocha que o Mulato levava iluminou-lhe a face. A mulher
viu sua pele escura e seus ferozes olhos de puma, logo percebendo que estava
diante do homem mais solitário desse mundo.
– Quero ser
presidente – disse ele.
Estava cansado
de percorrer aquela terra maldita em guerras inúteis e derrotas que nenhum
subterfúgio conseguia transformar em vitórias. Passara muitos anos dormindo sob
a intempérie, picado por mosquitos, alimentando-se de iguanas e sopa de cobra,
mas esses inconvenientes menores não eram razão suficiente para lhe mudar o
destino. O que em verdade o enfadava era o terror nos olhos dos outros.
Desejava entrar nas aldeias sob arcos de triunfo, entre bandeiras de cores e
flores, que o aplaudissem e lhe dessem de presente ovos frescos e pão recém-saído
do forno. Estava farto de ver como os homens fugiam a sua passagem, as mulheres
abortavam de susto, e tremiam as crianças; por isso decidira ser presidente. O
Mulato sugeriu-lhe que fossem à capital e entrassem a galope no palácio para se
apoderar do governo, como tomaram tantas outras coisas sem pedir autorização,
mas o Coronel não interessava tornar-se outro tirano, desses já tinha havido
bastantes por ali, e, além disso, dessa maneira não conseguiria o afeto das
pessoas. Sua ideia consistia em ser eleito por voto popular nos comícios de
dezembro.
- Para isso
tenho de falar como candidato. Pode vender-me as palavras para um discurso? –
perguntou o Coronel a Belisa Crepusculario.
Ela já tinha
aceitado muitas encomendas, mas nenhuma como essa; não se pôde negar, no
entanto, receando que o Mulato lhe metesse um tiro entre os olhos ou, pior
ainda, o Coronel começasse a chorar. Por outro lado, teve vontade de ajudá-lo,
porque sentiu palpitante o calor em sua pele, o desejo poderoso de tocar aquele
homem, de percorrê-lo com as mãos, de apertá-lo entre os braços.
Toda a noite e
boa parte do dia seguinte esteve Belisa Crepusculario à procura, em seu
repertório, das palavras apropriadas para um discurso presidencial, vigiada de
perto pelo Mulato, que não tirava os olhos de suas firmes pernas de caminhantes
e seus seios virginais. Descartou as
palavras ásperas e secas, as demasiado floridas, as que estavam desbotadas pelo
abuso, as que ofereciam promessas improváveis, as que careciam de verdade e as
confusas, para ficar com aquelas capazes de tocar com certeza o pensamento dos
homens e a intuição das mulheres. Fazendo uso dos conhecimentos comprados
ao padre por vinte pesos, escreveu o discurso numa folha de papel e logo fez
sinais ao Mulato para desatar a corda com a qual a tinha amarrado pelas canelas
a uma árvore. Levaram-na novamente ao Coronel, e, ao vê-lo, tornou a sentir a
mesma ansiedade palpitante do primeiro encontro. Deu-lhe o papel e aguardou,
enquanto ele olhava, segurando-o com a ponta dos dedos.
– Que caralho
diz isso aqui? – perguntou por fim.
–Não Sabe ler?
– O que sei
fazer é guerra – respondeu ele.
Ela leu em voz
alta o discurso. Leu-o três vezes, para que o cliente pudesse gravá-lo na
memória. Quando terminou, viu a emoção dos homens da tropa que haviam se
juntado para escutá-la e notou que os olhos amarelos do Coronel brilhavam de
entusiasmo, de certo que, com essas palavras, a cadeira presidencial seria sua.
- Se, depois
de ouvirem três vezes, os rapazes continuam de boca aberta, é porque essa droga
serve, Coronel – aprovou o Mulato.
– Quando devo
por seu trabalho, mulher? – perguntou o chefe.
– Um peso,
Coronel.
– Não é caro –
disse ele, abrindo a bolsa que trazia pendurada ao cinturão com os restos do
último saque.
– Além disso,
tem direito a uma prenda. Correspondem-lhe duas palavras secretas – disse
Belisa Crepusculario.
– Como é isso?
Ela começou a
lhe explicar que, por cada cinqüenta centavos que um cliente pagava,
oferecia-lhe uma palavra de uso exclusivo. O chefe encolheu os ombros, porque não
tinha menor interesse na oferta, mas não quis ser indelicado com quem o servira
tão bem. Ela se aproximou sem pressa da cadeira de couro em que estava sentado
e inclinou-se para dar seu presente. Então o homem sentiu cheiro de animal
montês que saia daquela mulher, o calor de incêndio irradiado pelos quadris, o
roçar terrível de seus cabelos, o hálito hortelã-pimenta sussurando-lhe ao
ouvido as duas palavras secretas a que tinha direito.
– São suas,
Coronel – disse ao se retirar. – Pode usá-las como quiser.
O Mulato
acompanhou Belisa até a beira do caminho, sem deixar de olhá-la com olhos
suplicantes de cão perdido, mas, quanto
estendeu a mão para tocá-la, ela o deteve com um jorro de palavras inventadas
que tiveram virtude de lhe espantar desejo, porque julgou tratar-se de alguma
maldição irrevogável.
Nos meses de
setembro, outubro e novembro o Coronel pronunciou seu discurso tantas vezes,
que, se não fosse feito com palavras refulgentes e duradouras, o uso de tê-lo
ia transformando em cinza. Percorreu o país em todas as direções, entrando nas
cidades com ar triunfal e detendo-se também nas aldeias mais esquecidas, onde
só o rasto do lixo indicava a presença humana, para convencer os eleitores a
votarem nele. Enquanto falava em cima de um estrado no centro da praça, o
Mulato e seus homens distribuíam caramelos e pintavam seu nome com tinta
dourada nas paredes, mas ninguém
prestava atenção nesses recursos de mercador, porque estavam todos deslumbrados
pela clareza de suas propostas e pela lucidez poética de seus argumentos, contagiados
por seu tremendo desejo de corrigir os erros da história e alegres pela
primeira vez em suas vidas. Ao terminar a arenga do candidato, a tropa dava
tiros de pistola para o ar e soltava bombas, e, quando por fim se retiravam, ficava
atrás um rasto de esperança que permanecia muitos dias no ar, como magnífica
recordação de um comenta. Logo o Coronel se tornou o político mais popular. Era
fenômeno nunca visto, aquele homem surgido da Guerra Civil, cheio de
cicatrizes, falando como um catedrático, cujo prestígio se espelhava pelo
território nacional, comovendo o coração da pátria. A imprensa ocupava-se dele.
Os jornalistas viajavam de longe para
entrevistá-lo e repetir suas frases, e assim cresceu o número de seus
seguidores e seus inimigos.
– Estamos indo
bem, Coronel! – disse o Mulato ao fim de doze semanas de êxito.
Mas o
candidato não o ouviu. Estava repetindo
suas duas palavras secretas, como fazia, cada vez com mais freqüência. Dizia-as
quando o abrandava a nostalgia, murmurava-as adormecido, levantava-as consigo
em seu cavalo, pensando nelas antes de pronunciar seu célebre discurso e se
surpreendia saboreando-as nos momentos descuidados. E, em todas as ocasiões
em que essas duas palavras lhe vinham à mente, envocava a presença de Belisa
Crepusculario, e excitavam-se-lhe os sentidos como a recordação do cheiro
montês, o calor de incêndio, o roçar terrível e o hálito de hortelã-pimenta,
até que começou a andar como um sonâmbulo, e seus homens compreenderam que se
lhe tinha acabado a vida antes de alcançar a cadeira dos presidentes.
– O que está
havendo, Coronel? – perguntava-lhe muitas vezes o Mulato, até que por fim, um
dia, o chefe não agüentou mais e confessou-lhe que a razão de seu ânimo eram as
duas palavras que trazia cravadas no ventre.
– Diga-me
quais são, para ver se perdem seu poder – pediu-lhe o fiel ajudante.
– Não as direi
a você, são só minhas – replicou o Coronel.
Cansado de ver
o chefe definhar como um condenado à morte, o Mulato pôs a espingarda ao ombro
e partiu à procura de Belisa Crepusculario. Seguiu pegadas por toda a vasta
geografia até encontrá-la numa aldeia do Sul, instalada sob o toldo de seu
ofício, contando o seu rosário de notícias. Plantou-se a sua frente com as
pernas abertas, empunhando a arma.
– Venha comigo
– ordenou.
Ela estava a
sua espera. Guardou o tinteiro, dobrou o pano da barraca, pôs o xale nos ombros
e, em silêncio, montou a garupa do cavalo. Não trocaram nem um gesto todo o
caminho, porque o desejo que o Mulato sentia por ela se transformara em raiva,
e só medo que sua língua lhe inspirava o impedia de desfazê-la a chicotada;
também não estava disposto a dizer que o Coronel andava aparvalhado, e que
aquilo que tantos anos de batalha não haviam logrado, conseguiu-o um
encantamento sussurrado ao ouvido. Três dias depois chegaram ao acampamento;
levou de imediato sua prisioneira até o candidato, diante de toda a tropa.
– Coronel, trouxe essa bruxa para que lhe
devolva suas palavras e para que ela lhe devolva hombridade – disse, apontando
o cano da espingarda para a nuca da mulher.
O Coronel e
Belisa Crepusculario olharam-se longamente, medindo-se distância. Os homens compreenderam, então, que
seu chefe já não podia desfazer do feitiço das palavras endemoninhadas, porque
todos puderam ver os olhos carnívoros do puma tornarem-se mansos quando ela
avançou e lhe pegou a mão.
Fonte: Contos de Eva Luna. Rio de
Janeiro Bertrand Brasil: 2007, p. 13-21
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Projeto para a volta às aulas!
O retorno às salas de aula também pode ser o retorno aos Projetos de Estudos, de Trabalho, Didáticos, enfim, a nomenclatura de organização de estratégias para um dado aprendizado é o que menos importa. Também é pouco relevante os termos que o professor utiliza para definir os passos de um planejamento dessa natureza. Existem várias sugestões de autores em livros e em revistas educativas
(Pátio, Revista do Professor, Nova escola,etc) de passos de um projeto.
Tema/ Objetivo Geral ou Justificativa/ Área ou áreas contempladas/ Objetivos específicos/ Atividades prováveis/ Atividade avaliativa ou comunicativa... (etc)
O ponto de partida pode ser uma necessidade do grupo ou apenas a curiosidade.
Sobre isso também há controvérsias, pois até que ponto a fala das crianças exprime uma necessidade ou curiosidade de aprendizado?...
Entretanto, tem coisas que só o professor e o seu grupo poderão definir, a bússola para o aprendizado é a distância entre o que se quer ensinar/aprender e o potencial das crianças para o refinamento ou aquisição de um novo aprendizado...
Em outros termos, saber onde se quer chegar é fácil, já para chegar lá (no entanto) é preciso saber exatamente onde se está. De onde partir e qual o melhor modo de fazer a travessia...
Nesse momento entram os gostos e vivências das crianças (etárias e culturais) e as possibilidades de recursos de que a escola e o professor dispõem para facilitar as aprendizagens.
Sim, professor precisa construir recursos: jogos, brinquedos, fantoches, levar livros de artes, de histórias, e, por vezes, ocupar seu computador pessoal se quiser cumprir com qualidade/alegria sua função.
Um projeto banaca para o retorno pode ser a "História dos materiais escolares", já que as crianças costumam voltar eufóricas com a possibilidade de não terem que utilizar os"toquinhos" de lápis.
A evolução das classes, dos quadros, dos lápis, da escola e suas "palmatórias" pode interessar.
A indústria e comércio de materiais escolares também.
Atividades como: o recolhimento de informações sobre o grau de instrução dos pais e os materiais que utilizaram na escola garantem o envolvimento das famílias no estudo. (também renovadas em expectativas e vontade de auxiliar no processo...eheheh)
Achei dois sites bem interessantes sobre o assunto, o da Faber Castell que revela a evolução do material escolar no contexto do mercado, o que inclui a expansão de seus negócios na China (ops!). O outro site é do acervo virtual de materiais escolares do estado de São Paulo.
Seguem os endereços:
MARIAS, BONS PROJETOS! MUITAS HISTÓRIAS E "PEDAGOGIAS DESVIANTES" NO ANO QUE COMEÇA! LEMBRANDO QUE TAMBÉM EM EDUCAÇÃO "A ALEGRIA É A PROVA DOS NOVE"... E, COMO DIZ RUBEM ALVES "O QUE É BOM DA PRAZER"...
Beijos, MD. (estraçalhada de tanto lutar contra a própria ignorância, ou melhor, pesquisando...)
Beijos, MD. (estraçalhada de tanto lutar contra a própria ignorância, ou melhor, pesquisando...)
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Blogs gratuitos X barraquinhas de cachorro-quente...
Minha filha acaba de voltar de um grande evento de tecnologias virtuais. Trouxe uma mochila cheia de amostras grátis, também um pijama listrado que foi usado pelos participantes para a foto master do encontro.
Segundo ela, na programação houve uma fala recorrente dos palestrantes quanto ao não reconhecimento (de rigor) de conteúdos postados em blogs que utilizam domínios gratuitos, como o meu, o dela e de mais uma série de amigos e colegas.
Os "Expert" compararam os blogueiros "sem propriedade de domínio" a donos de "barraquinhas de cachorro-quente" que remam, remam e não chegam a lugar algum (gentinha!?). A conclusão rápida a que ela chegou é de que deveríamos comprar urgente um domínio, que custa (até) bem baratinho... (de grão em grão a galinha capitalista pretende encher o cofre)
A conclusão a que eu cheguei é a de que houve uma pré-anunciação do fim das "amostras grátis" das hospedagens virtuais... Tais discursos visam o desuso do gratuito, e quando obsoletos a "auto-extinção".
O fato é que quando discursos negativos sobre algo ecoam, provindos de falas de autores sociais consagrados: pessoas de referência em suas áreas (como no caso citado), os meros mortais ou "aprendizes de feiticeiros" tendem a aceitar e a repetir sem se quer pensar nos interesses ocultos, $$$$$$$$$$, das afirmações. Mesmo sabendo "como nascem os paradigmas"... somos incapazes de detê-los...
Apesar disso, eu continuarei com a minha barraquinha pop em prol da socialização de saberes docentes, até porque falo para professoras, estudantes que gostam de cachorros-quentes e torcem o nariz para grande parte das ofertas alimentares de grife!
Beijos! MD.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
FILOSOMÍDIA: “Hoje, aqui, ser índio é uma escolha”: Eu Sou Índi...
FILOSOMÍDIA: “Hoje, aqui, ser índio é uma escolha”: Eu Sou Índi...: Faz algum tempo, estive com um amauta, que na língua kichwa quer dizer sábio. Seu nome é Luis Fernando Sarango Macas. Ele é reitor da Unive...
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