O cachorro e o poste do cachorro
Toda manhã Boris fazia o mesmo percurso até o poste em frente à casa dos donos. E, cumprindo um ritual, dava uma espreguiçada, cheirava o “parceiro- vegetal” e, depois, erguendo a perna até não poder mais, esvaziava a bexiga.
Todos, na vizinhança, conheciam e chamavam Boris pelo nome. E até nesse momento íntimo os “olhofotes” acompanhavam o puro schnauzer.
Notável era o orgulho do poste em ter sido o escolhido para servir àquele cachorro tão elegante. Tão cheiroso!
A cumplicidade entre o “mijante” e o mijado era tanta que os demais cachorros da rua desenvolveram um certo repúdio coletivo ao canteiro em que o ato ocorria. Espaço já impregnado daquela urina azul!
Certa vez, quando Boris estava se dirigindo ao “amigo-poste” sentiu uma fisgada na coluna... E, assim, decidiu que não seria boa ideia levantar a perna. Agachou-se e, antes de liberar o jato, ouviu a cachorrada gritar:
─ Assumiu a “cadelice” Boris? (!) Cachorrinho de madame deu nisso...
─ Cuidado com a micose de grama, vai ter que ir ao veterinário! Au, au... (gritou um desafeto).
─ Quem sabe já cortam fora de vez? (concluiu outro)
Boris meteu o rabo entre as pernas e, sem sucesso, correu à casa, deixando um rastro inevitável pelo caminho. Antes de alcançar o fio da calçada, ouviu ainda um último deboche:
─ Vai lá colocar um perfuminho francês?
Cheio de vergonha, Boris nunca mais voltou àquele canteiro. Logo escolheu uma árvore de tronco grosso em outra rua, atrás da qual poderia se esconder, caso uma nova dor surgisse.
Quanto ao amigo-poste?
Custou muito para recuperar a alegria, a moral, arranjar um novo parceiro, alguém que não sentisse nele o cheiro de Boris!
Afinal: poste marcado, poste feliz!
(Maria Cristina Schefer)
Publicado na Web artigos: 03-04-2011
Mostrando postagens com marcador Série "fabulinhas" Mª Docente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Série "fabulinhas" Mª Docente. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 4 de abril de 2011
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Questões de Gênero: uma "fabulinha" contemporânea
Fabulinha nº 3.
A maçã, o lado esquerdo, o direito e a quebra na horizontal
Logo que terminou de criar a Terra, Deus chamou o anjo da ciência e disse:
─ Preciso de ajuda para povoar o planeta; inicialmente, quero que tenha nem mais homens nem mais mulheres. Penso que isso vai garantir o amor entre os pares.
O anjo pediu um tempo para criar uma boa fórmula de reprodução proporcional.
E foi, no pomar celestial, em meio à observação do formato das maçãs, que a solução brotou.
Diante de Deus, com uma maçã na mão, o anjo explicou o método:
─ A legião jogará aqui de cima algumas maçãs: na queda, quando baterem no chão e sentirem a palmada da vida irão se partir. E cada metade da maçã definirá um tipo de ser. Os lados esquerdos serão mulheres; os direitos, homens. E assim, Senhor, as partes buscar-se-ão exaustivamente até a completude, durante toda a vida terrena. E quando unidas, no amor, poderão continuar o povoamento.
Deus aprovou a beleza da idéia e pediu que os anjos iniciassem logo o trabalho.
Passado algum tempo, o fiel ajudante divino voltou entristecido.
─ Senhor ─ disse ele ─, o inesperado aconteceu: percebemos que algumas maçãs se partiram na horizontal e assim cada uma das suas metades tem um pouco de homem e um pouco de mulher: não há como nomeá-los!
Deus, em sua sabedoria, respondeu:
─ Não vejo problemas, apenas diferenças, continuem o trabalho. O importante é que essas maçãs partiram daqui e as suas metades estão destinadas ao amor e ao retorno ao todo, chame-os de seres do horizonte!
Depois da explicação divina, para celebrar a diversidade anunciada, o anjo das Artes criou o arco-íris.
(Maria Cristina Schefer)
(Publicado em "Sociedade e Cultura" na Web artigos em 02/11/2010).
A maçã, o lado esquerdo, o direito e a quebra na horizontal
Logo que terminou de criar a Terra, Deus chamou o anjo da ciência e disse:
─ Preciso de ajuda para povoar o planeta; inicialmente, quero que tenha nem mais homens nem mais mulheres. Penso que isso vai garantir o amor entre os pares.
O anjo pediu um tempo para criar uma boa fórmula de reprodução proporcional.
E foi, no pomar celestial, em meio à observação do formato das maçãs, que a solução brotou.
Diante de Deus, com uma maçã na mão, o anjo explicou o método:
─ A legião jogará aqui de cima algumas maçãs: na queda, quando baterem no chão e sentirem a palmada da vida irão se partir. E cada metade da maçã definirá um tipo de ser. Os lados esquerdos serão mulheres; os direitos, homens. E assim, Senhor, as partes buscar-se-ão exaustivamente até a completude, durante toda a vida terrena. E quando unidas, no amor, poderão continuar o povoamento.
Deus aprovou a beleza da idéia e pediu que os anjos iniciassem logo o trabalho.
Passado algum tempo, o fiel ajudante divino voltou entristecido.
─ Senhor ─ disse ele ─, o inesperado aconteceu: percebemos que algumas maçãs se partiram na horizontal e assim cada uma das suas metades tem um pouco de homem e um pouco de mulher: não há como nomeá-los!
Deus, em sua sabedoria, respondeu:
─ Não vejo problemas, apenas diferenças, continuem o trabalho. O importante é que essas maçãs partiram daqui e as suas metades estão destinadas ao amor e ao retorno ao todo, chame-os de seres do horizonte!
Depois da explicação divina, para celebrar a diversidade anunciada, o anjo das Artes criou o arco-íris.
(Maria Cristina Schefer)
(Publicado em "Sociedade e Cultura" na Web artigos em 02/11/2010).
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Para o Dia do Professor: uma "fabulinha" de Maria Docente
(Ilustração- Marina- 11 anos).
A Coruja lecionando para as raposas
A Coruja foi convidada para lecionar na escola infantil do Raposário. Apesar de estranhar o convite, pois não dominava o raposês, aceitou o desafio.
Inicialmente, a Coruja teve dificuldades, pois a comunicação não fluía. As raposinhas não compreendiam as histórias, as brincadeiras, nem conseguiam olhar para o céu. Foi preciso muita criatividade e paciência, paciência e criatividade... para que os vínculos fossem criados.
Passado algum tempo, quando a alegria reinava na turma, a Raposa-diretora resolveu supervisionar o trabalho. Ela ficou tão encantada com o progresso dos filhotes, que decidiu promovê-los para o próximo nível. E esclareceu entusiasmada:
– Amanhã, sairemos antes de o sol nascer e faremos a iniciação à arte de roubar ovos! Eu mesma assumirei essa disciplina.
– Roubar? – perguntou espantada uma raposinha – a Coruja disse que não é certo roubar!
– É diretora, e ovos demais aumentam o colesterol ruim, precisamos rever nossa dieta – retrucou outra.
E a contestação à nova disciplina continuou:
– Sem falar que nós ainda mamamos, não precisamos de ovos...
– E a Coruja disse que, para preservarmos a floresta, só devemos comer quando estivermos com fome.
Até que uma raposinha expôs sua ideia:
– Não podemos ir dar um voo de paraglider? A Coruja disse que voar é a melhor coisa do mundo!
Tal possibilidade gerou a maior euforia na turma:
– Isso!
– Oba! – gritavam as raposinhas.
A Raposa-diretora ficou narizivelmente contrariada, adiou o início da nova etapa de aprendizado, alegando necessidade de revisão do currículo com o corpo docente.Depois de passar horas estudando na sala da direção, para a tristeza das raposinhas, a Coruja foi vista alçando voo pampa afora!
(Maria Cristina Schefer)
(publicado no Jornal Ibiá-Montenegro/RS em 15/10/2010)
Considerações: Nem sempre uma professora formidável, num determinado espaço, será boa professora noutro. Conhecer as expectativas de uma escola em relação aos aprendizados (que perpassam questões ideológicas) permite ao profissional docente avaliar até que ponto poderá ou não contribuir com uma instituição.
Certas propostas pedagógicas podem ferir os princípios de um professor, bem como certas práticas de um professor podem entrar em desacordo com o desejado por uma escola.
Por isso, é importante que a escola deixe claro, desde o primeiro contato com o possível profissional, quais são seus valores, qual é sua proposta pedagógica, quais são seus problemas e que tipo de mudanças ambiciona (se ambiciona). Do mesmo modo, o docente deve esclarecer suas crenças e seus instrumentos de trabalho. “Feito o contrato pedagógico”, caberá a ambos cumpri-lo. Ou, como em qualquer outro tipo de prestação de serviço, revê-lo, cancelá-lo.
Lero-lero: Ouvi falar que as tais raposinhas morreram cedo, nunca foram fiéis, de todo, às leis do seu bando. Adoeceram com a dieta de minhocas que comiam às escuras. Isso comprova, mais uma vez, que a base, “a educação infantil”, é fundamental!
Para quem ficou surpreso com o que possa parecer defesa à estagnação, de minha parte reforço agora, fora do texto de ficção, que a intenção da “fabulinha” era discutir princípios e não métodos...
Feliz Dia do Professor!
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Qual a melhor posição para ouvir histórias? Uma "fabulinha" para começarmos a conversa...
A hora do conto na floresta
─ Perninha de quê? ─ perguntou o filhote de serpente.
─ De índio ─ respondeu a coruja.
─ Eu não consigo sentar que nem índio.
─ Então, não poderá ouvir a minha história.
─ E se eu ficar bem enroladinha numa árvore? Prometo não atrapalhar ─ argumentou, mais uma vez, o pequeno réptil.
─ Já falei que não, ou faz “perninha de índio” ou saia daqui!
─ Está bem! Não vou ouvir a sua história, mas você também não irá contá-la.
("Fabulinha" nº1- Maria Cristina Schefer)
(Ilustração: Klaus - 6 anos)
Considerações: Cercear os movimentos dos outros é uma forma de controle que desqualifica a existência humana. É a micro-física do poder, “aquela coisinha tosca”, que passa despercebida, pela maioria, mas que tem um efeito enorme.
Rever permanentemente a literatura de Foucault é algo que as escolas precisam fazer! E depois, tem tanta coisa que índio faz em movimento, por que somente “a perninha de índio” foi importada para a prática escolar?
Falando em cultura indígena, sempre que eu encontro um “tibicuera” vendendo artesanato, compro. Recentemente comprei uma aliança de palha (R$ 2,00) e um “piu” (R$ 5,00). Lamento vê-los gastando o “dinheirinho árduo” em pacotes de salgadinhos e refrigerantes.
Outros:
Uma frase de Foucault:
“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo”.
Uma obra:
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis, Vozes, 1977.
─ Perninha de quê? ─ perguntou o filhote de serpente.
─ De índio ─ respondeu a coruja.
─ Eu não consigo sentar que nem índio.
─ Então, não poderá ouvir a minha história.
─ E se eu ficar bem enroladinha numa árvore? Prometo não atrapalhar ─ argumentou, mais uma vez, o pequeno réptil.
─ Já falei que não, ou faz “perninha de índio” ou saia daqui!
─ Está bem! Não vou ouvir a sua história, mas você também não irá contá-la.
("Fabulinha" nº1- Maria Cristina Schefer)
Considerações: Cercear os movimentos dos outros é uma forma de controle que desqualifica a existência humana. É a micro-física do poder, “aquela coisinha tosca”, que passa despercebida, pela maioria, mas que tem um efeito enorme.
Rever permanentemente a literatura de Foucault é algo que as escolas precisam fazer! E depois, tem tanta coisa que índio faz em movimento, por que somente “a perninha de índio” foi importada para a prática escolar?
Falando em cultura indígena, sempre que eu encontro um “tibicuera” vendendo artesanato, compro. Recentemente comprei uma aliança de palha (R$ 2,00) e um “piu” (R$ 5,00). Lamento vê-los gastando o “dinheirinho árduo” em pacotes de salgadinhos e refrigerantes.
Outros:
Uma frase de Foucault:
“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo”.
Uma obra:
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis, Vozes, 1977.
Assinar:
Postagens (Atom)