No Brasil, país capitalista em que os valores humanos estão à mercê do mercado, é comum a reserva de vagas em escolinhas, antes mesmo da criança nascer, isso independentemente da situação econômica familiar. Para acompanhar a rotina de trabalho das famílias, muitas crianças estão sendo sujeitas a doze horas diárias dentro das creches , geralmente o período em que estão acordadas. Quando vão para casa, sobra aos pais o tempo de dar o banho e servir o jantar. Nos meios de comunicação e no murmúrio social , há todo um discurso, de longa data, ecoando no sentido de que o que vale é a qualidade das relações e não o tempo destinado aos filhos. Entretanto, em se tratando de crianças pequenas, para as quais os tempos têm uma medida individual, cabe questionar até que ponto, numa instituição educativa, os tempos podem ser respeitados. Lembrando ainda que esses tempos são biológicos, cognitivos, afetivos, multifacetados.
Em vista de ambições (decisões) pessoais e da mercenária, característica das instituições de ensino (empresas), é possível afirmar que muitas crianças estão crescendo órfãs com pai e mãe e, o pior é que não há consciência social do problema. Todo um aparato de eventos colabora para que a engrenagem funcione sem interrupções. O moderno é criança institucionalizada, outras opções cheiram a “avental sujo de ovos”, a retrocesso.
Dentre os aparatos que alteraram as relações da família com as crianças, encontra-se um vasto capital simbólico das creches que semanticamente apela para a infantilização do serviço no uso sistemático dos diminutivos: escolinhas, criancinhas, mochilinhas, coleguinhas, mesinhas, cadeirinhas. Integram esse campo simbólico gerando expectativas eufóricas ou angelicais para o serviço as denominações das creches: "Pinguinho de gente, Anjinhos trapalhões, Nana Nenê, Trenzinho da felicidade, Anjo da Guarda, Doce Mel"...
Possivelmente, os reflexos dos movimentos feministas, intensificados a partir da ditadura militar, tenham contribuído para a transferência incondicional de tutela das crianças pequenas da família para a creche, pois impuseram como condição a autonomia das mulheres (a subversão) e a presença no mercado de trabalho. Contudo, o ingresso feminino na cadeia produtiva não redimensionou o tempo do trabalho masculino, nem modalizou a exigência do trabalho fora de casa para os homens. E poucos casais abrem mão de sua profissão (mesmo que temporariamente) para a prática de uma paternidade saudável.
Os debates, no meio político e educacional, em relação à primeira infância, têm se pautado na necessidade permanente do aumento de vagas nas creches públicas e na revisão das práticas educativas de modo geral, visto que as críticas, quanto à deficiência do serviço prestado, não se restringirem à oferta pública. Tais encaminhamentos demonstram o consenso social de que o desenvolvimento educacional das crianças deve ocorrer na agência escola e, ao mesmo tempo, retirou-se do debate qualquer outra possibilidade de educação infantil.
Retomando as etapas do desenvolvimento infantil e as contribuições piagetianas, a vivência no coletivo para as crianças precisa preceder a experiência individual. Para que alguém possa socializar-se, precisa compreender-se como um eu, enxergar-se com um nome, um sobrenome, uma identidade. Segundo Lima (2001,P.10):
"Uma das tarefas mais notáveis que o ser humano realiza, especialmente nos primeiros anos de vida, é situar-se no meio em que nasceu como um ser que se comunica e se expressa. As emoções têm um papel muito importante no desenvolvimento do ser humano a vida toda, mas é, sem dúvida nos primeiros meses de vida que elas terão o papel de garantir a sobrevivência do bebê: é através da emoção que se estabelece laços com outras pessoas do meio."
Esse e muitos outros estudos poderiam referendar tais conclusões, mas num acordo, ora consciente, ora inconsciente, ninguém diz que o rei está nu : nem escolas nem famílias. Falta na sociedade atual um discurso legítimo, conduzido por auctores sociais , em prol da manutenção das crianças no ambiente familiar nos primeiros anos de vida. Possivelmente, se a criança pequena tivesse voz (se comunicasse com menor possibilidade de reinterpretações), poderia denunciar a situação arbitrária que vivencia e romper com modismos que ferem a sua natureza, do mesmo modo que fez o personagem da narrativa popular antes citada. Aliás, a metáfora da criança que denuncia é no mínimo intrigante.
Um fato que chamava atenção no grupo de professores na escola de Educação Infantil onde trabalhei, nos últimos cinco anos, era a mudança de comportamento de muitas crianças após os fins de semana. Nas segundas-feiras, retornavam irritadas, chorosas, desorientadas. Era comum ouvirmos dos pais, depois de um feriadão, que já não sabiam mais o que fazer com os filhos. Também ficava evidente o desconforto dos pais quando um recesso escolar se aproximava. Muitas piadinhas sobre a folga das professoras eram ouvidas na portaria da escola.
Durante os “Relatos orais do desenvolvimento das crianças para as famílias”, que eram feitos trimestralmente, outra situação comum era os pais reclamarem do excesso de energia dos filhos e perguntarem se não seriam hiperativos. Deixando escapar, através dessa fala, que, de algum modo, estavam perdendo o controle da situação, ou que não estavam se sentindo aptos para levar a paternidade adiante sem ajuda externa e especializada. Revelando o descompasso no processo natural da vida em família, a ruptura do vínculo primário. Contudo, reverter tal desconforto e recuperar a autoridade perdida em vista do envio precoce das crianças para a instituição escolar é um desafio para os pais. É preciso o entendimento de que, por melhor que possam ser as propostas pedagógicas de uma escola, o papel da família não será suprido ou substituído. Conforme Aquino (1998) professor não é pai e aluno não é filho.
Doutro modo, se os pais estão estressados, muitas crianças também. Mas, como essa patologia esteve por muito tempo relacionada aos adultos, a hipótese de cansaço infantil geralmente é ignorada pelos educadores na análise das atitudes dos pequenos. Lipp e Witzig (2000), em estudo específico sobre estresse entre os escolares enfatizaram:
"Os sintomas de estresse mais prevalentes em crianças são: aparecimento súbito de comportamentos agressivos que não são representativos do comportamento da criança no geral; desobediência inusitada; dificuldade de concentração, depressão, ansiedade, enurese, gagueira, dificuldades de relacionamento, dificuldades escolares, pesadelos, insônia, birras e até o uso indevido de tóxicos. Dentre os problemas físicos relacionados ao estresse, encontra-se: asma, bronquite, hiperatividade motora, doenças dermatológicas, úlceras, obesidade, cáries, cefaléia, dores abdominais, diarréia, tiques nervosos, entre outros. Os sintomas de estresse infantil não são sempre diagnosticados e pais e professores menos avisados se irritam com a criança que exibe mudanças súbitas de comportamento ou queda do rendimento escolar."
Assim, o comportamento das crianças que não se adaptam às exigências de uma rotina diária intensa e maçante, visto que cumprem os horários dos pais, passa a ser diagnosticado, na escola, com o uso da expressão “sem limites”. E para solucionar o problema, surgem as mais diversas estratégias: conversas individuais, reuniões, encaminhamentos a psicólogos, neurologistas, psiquiatras, dentre outros. Nas salas de pré-escola, o castigo como “ação reparadora” produziu a popular “cadeirinha de pensar”, outro bem (mal) simbólico muito utilizado pelos professores.
Para que a escola de Educação Infantil assuma a parceria com as famílias na educação de seus filhos, conforme impresso legalmente na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, primeiramente necessitará reconhecer suas limitações para o atendimento de crianças menores de três anos, bem como o vício de origem desse ato legal, a fim de que não endosse um contrato pedagógico questionável. Cabe às instituições, antes de atenderem ao mercado, pautarem-se no princípio da ética, difundindo assim, a incoerência desse atendimento.
Etimologicamente o termo creche vem do francês e significa: manjedoura (abrigo ao necessitado). Sua eficácia para garantia de condições mínimas para o desenvolvimento infantil entre famílias de baixa renda é um fato. Muitas crianças pobres têm nas creches públicas e nas iniciativas comunitárias a garantia da sobrevivência. Contudo, a escolha desse serviço pode ser a segunda opção das famílias de classe média e alta, nunca a única, jamais a melhor.
REFERÊNCIAS
AQUINO, Júlio Groppa. A indisciplina e a escola atual. Rev. Fac. Educa, São Paulo, V.24, n. 2, jul.dez. 1998.
BRASIL: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/l9394.htm. Acesso em: 9 ago. 2009.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Trad. de Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Trad. de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 1994.
LIMA, Elvira Souza. Como a criança pequena se desenvolve. São Paulo: Sobradinho, 2001.
PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: LTC, 1990.
Obs: Comentem, posso ter tido experiências pontuais, quero saber a sua opinião.