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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Comer ou não o Menino Jesus?

Entre os presentes que Davi ganhou, no Natal, havia um presépio de chocolate. Passada a euforia da descoberta dessa guloseima, que era maciça (conforme comentário do pai), chegou a hora de saboreá-la. Davi decide iniciar pelas ovelhinhas, assim, as coloca em fila, como se fossem pular numa cerquinha... brinca com elas de saltitar e, com pulmões cheios, grita: “bé, bééééé”. A imitação só termina no glup, glup da digestão. Foram-se uma a uma! Eram seis. Segue a brincadeira com a vaca: “Muuuuuuuuuuu” e glup, glup... Já, com o burro o lance foi muito rápido, quase incompreensível: “inhóÓ”- QUÊ!
Comidos os animais, resolve dar atenção aos outros presentes. Havia ganhado uma bola do time favorito, um livro de piratas, uma pista para carrinhos de corrida; enfim, tinha motivos para distrair-se, e muito, na Noite de Natal. Poderia até ter esquecido o presépio. Nem estava com fome. Mas, agora, com os humanos personagens nas mãos, Davi aproxima-se do pai e pergunta:
─ Qual eu devo comer primeiro?
─ Tanto faz, são todos do mesmo chocolate – responde rapidamente o pai.
─ É, mas... eu não sei...
─ Não sabe o quê?
─ Por quem começar...
─ Então sorteie! (entra na dele, o pai)
Animado, Davi começa a definir a ordem da comilança:
─ Uni, duni, tê! Salamê, minguê! Um presente colorê... O escolhido foi... voooocê!
E lá se vão: primeiro um rei, depois o pastor, outro rei...
Até que... o sorteado pede pausa à degustação: era o Menino Jesus. Indignado com o salamê, minguê, Davi olha para o pai e, antes que o idealizador do sorteio interferisse, justifica:
─ Vou deixar o Menino Jesus por último. Ele é o principal!
O pai faz um sinal com a cabeça, como se concordasse com o argumento.
Davi segue no uni, duni..., come, então, mais um rei lentamente, já demonstrando que o excesso o enfastiava. Precisou fazer outra pausa. A nova vítima sorteada merecia. Era Maria. Olha novamente para o pai e explicando:
─ Se eu comer a Maria, quem vai cuidar do Menino Jesus!?
Sem esperar pela resposta, Davi abocanha o genitor. Foi-se o José, o maior em gramas – concluiu com a boca cheia.
Limpando os beiços, o menino acomoda numa porcelana branca a Maria e o Menino Jesus e guarda-os na geladeira...
Por alguns dias, Davi acompanha a presença de Maria e do Menino Jesus rodeados por outras guloseimas... Era como um novo presépio, em baixa temperatura...
Até que toma coragem e, mesmo indeciso sobre quem deveria comer primeiro – se mãe ou filho com os olhos fechados, abre a porteira do estábulo gelado... Suspira! Tateia rapidamente os chocolates, sem que a identificação das vítimas pudesse ser feita e, glup, glup, dá fim às sobras natalinas...
 (Maria Cristina Schefer- Publicado na Web Artigos: 23-12-2010)

                                        (Presépio de massinha de modelar feito pelo Klaus- 7anos)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Questões de Gênero: uma "fabulinha" contemporânea

Fabulinha nº 3.

A maçã, o lado esquerdo, o direito e a quebra na horizontal

Logo que terminou de criar a Terra, Deus chamou o anjo da ciência e disse:
─ Preciso de ajuda para povoar o planeta; inicialmente, quero que tenha nem mais homens nem mais mulheres. Penso que isso vai garantir o amor entre os pares.
O anjo pediu um tempo para criar uma boa fórmula de reprodução proporcional.
E foi, no pomar celestial, em meio à observação do formato das maçãs, que a solução brotou.
Diante de Deus, com uma maçã na mão, o anjo explicou o método:
─ A legião jogará aqui de cima algumas maçãs: na queda, quando baterem no chão e sentirem a palmada da vida irão se partir. E cada metade da maçã definirá um tipo de ser. Os lados esquerdos serão mulheres; os direitos, homens. E assim, Senhor, as partes buscar-se-ão exaustivamente até a completude, durante toda a vida terrena. E quando unidas, no amor, poderão continuar o povoamento.
Deus aprovou a beleza da idéia e pediu que os anjos iniciassem logo o trabalho.
Passado algum tempo, o fiel ajudante divino voltou entristecido.
─ Senhor ─ disse ele ─, o inesperado aconteceu: percebemos que algumas maçãs se partiram na horizontal e assim cada uma das suas metades tem um pouco de homem e um pouco de mulher: não há como nomeá-los!
Deus, em sua sabedoria, respondeu:
─ Não vejo problemas, apenas diferenças, continuem o trabalho. O importante é que essas maçãs partiram daqui e as suas metades estão destinadas ao amor e ao retorno ao todo, chame-os de seres do horizonte!
Depois da explicação divina, para celebrar a diversidade anunciada, o anjo das Artes criou o arco-íris.

(Maria Cristina Schefer)

(Publicado em "Sociedade e Cultura" na Web artigos em 02/11/2010).

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Para o Dia do Professor: uma "fabulinha" de Maria Docente


(Ilustração- Marina- 11 anos).

A Coruja lecionando para as raposas
A Coruja foi convidada para lecionar na escola infantil do Raposário. Apesar de estranhar o convite, pois não dominava o raposês, aceitou o desafio.
Inicialmente, a Coruja teve dificuldades, pois a comunicação não fluía. As raposinhas não compreendiam as histórias, as brincadeiras, nem conseguiam olhar para o céu. Foi preciso muita criatividade e paciência, paciência e criatividade... para que os vínculos fossem criados.
Passado algum tempo, quando a alegria reinava na turma, a Raposa-diretora resolveu supervisionar o trabalho. Ela ficou tão encantada com o progresso dos filhotes, que decidiu promovê-los para o próximo nível. E esclareceu entusiasmada:
– Amanhã, sairemos antes de o sol nascer e faremos a iniciação à arte de roubar ovos! Eu mesma assumirei essa disciplina.
– Roubar? – perguntou espantada uma raposinha – a Coruja disse que não é certo roubar!
– É diretora, e ovos demais aumentam o colesterol ruim, precisamos rever nossa dieta – retrucou outra.
E a contestação à nova disciplina continuou:
– Sem falar que nós ainda mamamos, não precisamos de ovos...
– E a Coruja disse que, para preservarmos a floresta, só devemos comer quando estivermos com fome.
Até que uma raposinha expôs sua ideia:
– Não podemos ir dar um voo de paraglider? A Coruja disse que voar é a melhor coisa do mundo!
Tal possibilidade gerou a maior euforia na turma:
– Isso!
– Oba! – gritavam as raposinhas.
A Raposa-diretora ficou narizivelmente contrariada, adiou o início da nova etapa de aprendizado, alegando necessidade de revisão do currículo com o corpo docente.Depois de passar horas estudando na sala da direção, para a tristeza das raposinhas, a Coruja foi vista alçando voo pampa afora!
(Maria Cristina Schefer)
(publicado no Jornal Ibiá-Montenegro/RS em 15/10/2010)
Considerações: Nem sempre uma professora formidável, num determinado espaço, será boa professora noutro. Conhecer as expectativas de uma escola em relação aos aprendizados (que perpassam questões ideológicas) permite ao profissional docente avaliar até que ponto poderá ou não contribuir com uma instituição.
Certas propostas pedagógicas podem ferir os princípios de um professor, bem como certas práticas de um professor podem entrar em desacordo com o desejado por uma escola.
Por isso, é importante que a escola deixe claro, desde o primeiro contato com o possível profissional, quais são seus valores, qual é sua proposta pedagógica, quais são seus problemas e que tipo de mudanças ambiciona (se ambiciona). Do mesmo modo, o docente deve esclarecer suas crenças e seus instrumentos de trabalho. “Feito o contrato pedagógico”, caberá a ambos cumpri-lo. Ou, como em qualquer outro tipo de prestação de serviço, revê-lo, cancelá-lo.
Lero-lero: Ouvi falar que as tais raposinhas morreram cedo, nunca foram fiéis, de todo, às leis do seu bando. Adoeceram com a dieta de minhocas que comiam às escuras. Isso comprova, mais uma vez, que a base, “a educação infantil”, é fundamental!
Para quem ficou surpreso com o que possa parecer defesa à estagnação, de minha parte reforço agora, fora do texto de ficção, que a intenção da “fabulinha” era discutir princípios e não métodos...
Feliz Dia do Professor!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Barbie e o Enem,

(Maria Cristina Schefer)

Onipresente, não se sabe bem em que escola a Barbie “dá o ar da graça”. Afinal, quem poderia instruir a donzela que possui barcos, trailers, aviões, academias e até um foguete?
Sendo Americana, a Barbie domina uma das línguas melhor cotada no Brasil. Língua que aprova, reprova, elitiza.
Enquanto escrevo esse texto e você o lê (em português) mais notas altas estão elevando o currículo cor de rosa dessa estrangeira. Naturalizada (em vários países) ovacionada, desejada.
Sem falar português, ‘Ela’ está em primeiro lugar em tudo.
Ah, garota nacional, global, universal,@!
O quê?(!) O Enem não é concurso de beleza?
Não tem problema, a Barbie passaria na prova.
‘Ela’ é tudo de bom! Encantadora, provocante mesmo sem os “olhos de ressaca da Capitu” ou a “pele morena da Gabriela”.
Já as “pobres meninas”, que atravessaram a infância com uma Barbie na mão, feito a Kristina de Souza, a Gisely Ramos e a Greici Quéli da Silva, não têm jeito, precisarão do exame.
E agora? Terão repertório? Que leituras fizeram?
Eu, pelo menos, nunca soube de uma Barbie bibliotecária!(?)
E, se tivessem lançado essa boneca, que obras, ‘Ela’ indicaria?
A paixão segundo G.H? Vidas Secas? As primeiras estórias? Algo da Martha?
Não, isso teria cansado sua beleza! E a Barbie não quer problemas. Jamais demitiria a empregada, nem perderia tempo com questões de retirantes nordestinos ou travessias de superação. E, acima de tudo, nunca, alguém tão bem resolvida precisaria de um divã. No máximo, nossa puritana, poderia sugerir uma versão fashion (esquadrão) da “Letra Escarbarbie”...
Mas nem tudo está perdido, o Enem traz questões objetivas, assim, talvez “as meninas pobres” possam solucioná-las marcando um X nas opções B, vá que saia um bom resultado da ‘misturinha’...
Improvável!(?)
Mães!: BINGO! “a mão que segura o brinquedo é a mesma mão que fará a(s) prova(s)”. E, nessa (s) hora (s), de nada valerão os exercícios com os batons, unhas, saltos e os demais apetrechos dos ‘kits’ comprados com seus esforços.
Restará às reprovadas uma 2ª opção: a universidade particular paga (vai sobrar menos para os esmaltes)mas poderão comemorar do mesmo jeito. Ser universitária é chique! E tem o vestido da formatura! (não desanimem)
Cabe ainda um último alerta, não permitam “looks atrevidos” ou purpurinas no 1º dia de aula, podem suspeitar que suas filhas sejam Barbies de segunda linha e aí, coitadas! É que não perdoam, nesses espaços, falsidade ideológica!
(Publicado em Educação na web artigos:11/11/2010)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Desabafos da Cadeirinha- (cadeirinha de pensar)

Marias,
Recebi hoje cinco exemplares da Revista do Professor (julho- Set/2010)em que publicaram uma "crônica" escrita por mim. Seguida de uma reflexão sobre o (mal) uso das "cadeirinhas de pensar" nas escolas infantis.



Desabafos da cadeirinha...

A tia Poliana, sim, tinha segundo as mães, “um jeitinho todo especial com as crianças”. Sempre alegre, falante e pró-ativa diante dos problemas da sua turma de Educação Infantil, quando comunicou, numa reunião da escolinha, a implantação de uma “cadeirinha de pensar”, foi ovacionada. As mães gostaram tanto da inovação, teledefendida, que, parceiras, também implantaram, em casa, outras versões disciplinadoras: tapetinhos de pensar, caminhas de pensar, e quartinhos escuros de pensar. Mas logo abandonaram as práticas, concluindo, que só a cadeirinha da profe Poli é que funcionava.
Sem a intenção de diminuir o ibope da profe Poli, cabe o esclarecimento da eficácia do método, afim de que a receita seja repassada na íntegra, sem segredos. Ocorreu que, estranhamente, ao separar uma cadeirinha das demais, profe Poli, uxa! virou-se do avesso e plimpliou-lhe vida própria.
Logo que nomeada, Cadeirinha de pensar constatou, no silêncio horripilante do momento, que os problemas da turma tinham solução e optou pelo uso, durante as ações reparadoras, de uma capa cintilante de invisibilidade provisória, da grife mineira by G. Rosa, para ocultar a si e os subversivos que eram jogados diariamente no seu colo, acreditando que o ideal seria magicar os pacientes sem causar ruídos evitando atrapalhar os demais que estavam sobre o controle da Tia Poli. E em meio a esse anonimato ou meta-sanção é que tudo acontecia. Para os “sem ideias”, que segundo profe Poli, não queiram desenhar após as histórias, atrapalhando a aula, depois de Cadeirinha ouvir-concluir que era porque ficavam satisfeitos em escutá-las, preparou um repertório de contos, os quais só contava no aconchego da capa cintilante, até que, os futuros poetas mudavam o semblante, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela profe Poli.
Para os “tipo grilo” que conversavam fora do horário, fazendo profe Poli perder seu raciocínio, após Cadeirinha ouvir-concluir que tinham excesso de fala engasgada, intensificou a estratégia didática e, além da invisibilidade, tomava diante desses, forma de divã e não só permitia que falassem, mas desafiava-os a falar o maior número de palavras por minuto: e como falavam... Depois, os potencialmente jornalistas, mudavam o semblante, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela tia Poli.
Para os “desmancha prazer” que sempre acabavam com as brincadeiras antes da ordem da professora, após Cadeirinha ouvir-concluir que estavam estressados pela sujeição, por tabela, à rotina familiar exaustiva e que sofriam de um mal estar de fundo emociono-gulo-compensatório, providenciou um tratamento caseiro: massageava as barrigas dos discentes até que: PUM! Shrek-relaxavam. Então, os futuros revolucionários, mudavam os semblantes, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela Poli.
Ocorreu que, lá pelas tantas, havia crianças pedindo para ir para a Cadeirinha falar-pensar... Diante disso, profe, tia, Poli teve outro piripac “-ninguém é de ferro”. Desvirou-se de sopetão: puxa! E assim, destitui-me do poder, “-Acho que pensei demais: the Plim!”

Glossário (escolha de termos):
Polliana- analogia a personagem central do clássico Pollyana, de Eleanor H.Porter que "brincava de contente".
by G. Rosa- referência ao escritor brasileiro Guimarães Rosa e a magia de suas palavras- neologismos.
Tia Poli- inversão ao “solicitado” no texto “Professora sim, tia não” da obra: Cartas para quem ousa ensinar, de Paulo Freire.
Uxa- Alusão à obra Uxa, ora fada, ora bruxa ,de Sylvia Orthof.