Recebi hoje cinco exemplares da Revista do Professor (julho- Set/2010)em que publicaram uma "crônica" escrita por mim. Seguida de uma reflexão sobre o (mal) uso das "cadeirinhas de pensar" nas escolas infantis.

Desabafos da cadeirinha...
A tia Poliana, sim, tinha segundo as mães, “um jeitinho todo especial com as crianças”. Sempre alegre, falante e pró-ativa diante dos problemas da sua turma de Educação Infantil, quando comunicou, numa reunião da escolinha, a implantação de uma “cadeirinha de pensar”, foi ovacionada. As mães gostaram tanto da inovação, teledefendida, que, parceiras, também implantaram, em casa, outras versões disciplinadoras: tapetinhos de pensar, caminhas de pensar, e quartinhos escuros de pensar. Mas logo abandonaram as práticas, concluindo, que só a cadeirinha da profe Poli é que funcionava.
Sem a intenção de diminuir o ibope da profe Poli, cabe o esclarecimento da eficácia do método, afim de que a receita seja repassada na íntegra, sem segredos. Ocorreu que, estranhamente, ao separar uma cadeirinha das demais, profe Poli, uxa! virou-se do avesso e plimpliou-lhe vida própria.
Logo que nomeada, Cadeirinha de pensar constatou, no silêncio horripilante do momento, que os problemas da turma tinham solução e optou pelo uso, durante as ações reparadoras, de uma capa cintilante de invisibilidade provisória, da grife mineira by G. Rosa, para ocultar a si e os subversivos que eram jogados diariamente no seu colo, acreditando que o ideal seria magicar os pacientes sem causar ruídos evitando atrapalhar os demais que estavam sobre o controle da Tia Poli. E em meio a esse anonimato ou meta-sanção é que tudo acontecia. Para os “sem ideias”, que segundo profe Poli, não queiram desenhar após as histórias, atrapalhando a aula, depois de Cadeirinha ouvir-concluir que era porque ficavam satisfeitos em escutá-las, preparou um repertório de contos, os quais só contava no aconchego da capa cintilante, até que, os futuros poetas mudavam o semblante, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela profe Poli.
Para os “tipo grilo” que conversavam fora do horário, fazendo profe Poli perder seu raciocínio, após Cadeirinha ouvir-concluir que tinham excesso de fala engasgada, intensificou a estratégia didática e, além da invisibilidade, tomava diante desses, forma de divã e não só permitia que falassem, mas desafiava-os a falar o maior número de palavras por minuto: e como falavam... Depois, os potencialmente jornalistas, mudavam o semblante, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela tia Poli.
Para os “desmancha prazer” que sempre acabavam com as brincadeiras antes da ordem da professora, após Cadeirinha ouvir-concluir que estavam estressados pela sujeição, por tabela, à rotina familiar exaustiva e que sofriam de um mal estar de fundo emociono-gulo-compensatório, providenciou um tratamento caseiro: massageava as barrigas dos discentes até que: PUM! Shrek-relaxavam. Então, os futuros revolucionários, mudavam os semblantes, adquiriam cara de que pensaram e podiam voltar ao grupo. Autorizados pela Poli.
Ocorreu que, lá pelas tantas, havia crianças pedindo para ir para a Cadeirinha falar-pensar... Diante disso, profe, tia, Poli teve outro piripac “-ninguém é de ferro”. Desvirou-se de sopetão: puxa! E assim, destitui-me do poder, “-Acho que pensei demais: the Plim!”
Glossário (escolha de termos):
Polliana- analogia a personagem central do clássico Pollyana, de Eleanor H.Porter que "brincava de contente".
by G. Rosa- referência ao escritor brasileiro Guimarães Rosa e a magia de suas palavras- neologismos.
Tia Poli- inversão ao “solicitado” no texto “Professora sim, tia não” da obra: Cartas para quem ousa ensinar, de Paulo Freire.
Uxa- Alusão à obra Uxa, ora fada, ora bruxa ,de Sylvia Orthof.
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