sábado, 31 de julho de 2010

- Pare de me bater ou eu vou chamar o Lula!

(Maria Cristina Schefer)

Nessa onda de bate ou não bate lembrei-me de que, há algum tempo, minha filha recebeu de um "amigorado" a indicação do filme Avaianas de pau, disponível na internet. Depois de ela assistir, repassou-me a “amorosa” dica. Eu estarreci.
– Poupe-me, reclamei, é pura apologia à agressão.
E ela revidou:
– Que nada mãe, é só uma piada, tu que és exagerada. Nem me venha com essas falas de professora.
Como visto, minha filha tem um posicionamento forte, não se deixa intimidar, nem se influencia pelo que os “outros” falam... Será que faltou “havainas” a ela? Há quem diga que sim! Eu prefiro o dito de que “a fruta não cai longe do pé!”
Mas, vamos ao filme: trata-se de uma sequência de cenas, onde crianças apanham brutalmente dos pais por terem feito alguma traquinagem (no entender dos adultos). As surras são satirizadas. O humor macabro inclui mutilações, sangue jorrando e berros desesperados das crianças. De ficcional, a produção é em desenho animado. No entanto, essa escolha artística não impede que, subliminarmente, seja passado o recado da “porrada”, como solução para as peraltices infantis. Mais do que isso, o vídeo insinua que as crianças, além de entenderem o motivo da pancadaria, ficariam gratas aos agressores por terem permitido que elas permanecessem vivas. Mensagens desse tipo circulam com popularidade entre nós. Quem já não ouviu que “tapinha de amor não dói”? Ou que, “é de pequenino que se torce o pepino”?
Essas falas “inofensivas”, atualizadas na internet, são as legitimadoras do arbitrário modo de os adultos resolverem seus problemas com as crianças e que, muitas vezes, acabam em infanticídio. Quem defende a “palmadinha” é porque deve ter apanhado com pantufa, de roupa e de barriga cheia... E jamais sentiu o peso de Um Cinturão.
O fato é que não é possível delimitar a força da mão que dará um “tapinha”, nem adequá-lo ao tamanho “do lombo” que irá sofrê-lo. Também não há como controlar os impulsos que levam alguém (adulto) a torcer um pepino (criança), já que “cada cabeça, uma sentença”.
Portanto, chega de Defenestração,viva o Lula! Viva esse estardalhaço que a emenda do ECA está provocando. Só assim, “ecoando” do Oiapoque ao Chuí, é que as barbáries contra as crianças serão contidas.
É bom que “os moleques” saibam que, no aperto, é gritar e chamar o LULA!
Quem?
O vizinho, o professor, o amigo, o Conselho Tutelar...
Contra a covardia, a vergonha de tê-la publicamente revelada: esse é o X da questão, essa é a lógica da emenda do ECA!
Lamento que a revisão do Estatuto tenha sido aprovada só agora, com Lula saindo... Isso poderá ser usado em 2011 pelos “brutamontes” como argumento:
─ Pode chamar, “ele” já não manda em nada!

Obs:
Foram postados (semanas atrás) dois textos: Um cinturão e Defenestração, que podem contribuir para o melhor entendimento dessa argumentação.

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