quinta-feira, 31 de março de 2011

Sobre a ideia nova...

Ideia, ideia, ideia, ideia...

Essa ideia de tirarem o acento de ideia deu-me uma ideia.
Ideia sem acento é claro!
Pois, doutro modo seria ideia ultrapassada.
Minha ideia é justamente averiguar os motivos da nova escrita da palavra ideia. Essa ideia, com explicação puramente gramatical, não me convenceu.
Aí deve ter ideia oculta...
Teria sido para conterem a força de ideias subversivas? (ideia de ditadores)
Teria sido uma conspiração filosófica para demonstrar o enfraquecimento das ideias na contemporaneidade? (ideia de pensadores)
Ou seria a materialização semântica da deterioração das ideias pragmáticas? (ideia de anarquista)
E se foi só um golpe de marketing para reeditarem-se as velhas ideias em nova roupagem? (ideia de capitalista)
Tento, mas não faço ideia!
O certo é que precisamos enterrar de vez a velha ideia. Mesmo que o Word continue rejeitando a nova ideia.
O curioso é que outras palavras que também tiveram a ideia de alterar, ainda passam batidas: auto-escola, ante-sala, seqüência.
Mas a ideia, as ideias... aí de quem se esquece de renová-las!
Acabo de ter uma ideia, exercitar, encher linhas: ideia, ideia, ideia, ideia, ideia.
Pedagogicamente questionável, se bem que o exercício de repetição fracassou no passado com as velhas ideias.
Agora, com a nova ideia, vá que funcione!?
                                                                       ( Maria Cristina Schefer)
(publicada na web artigos- 30/03/2011)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Aula nº 2: aprendendo a lidar com os materiais de domínio público...

Hoje estou bem cansada: muita informação! Mas é um cansaço bom, daqueles de ressaca após festança! É que ontem (à noite) participei de uma aula presencial de "Educação Fiscal", num curso gratuito que o governo do estado promove para incentivar a disseminação de informações sobre as fontes de renda pública, via pagamento de impostos. Descobri que a cidade de Montenegro é considerada referência nesse projeto. E que, graças a uma campanha de 'notinhas', uma escola pública (Iara Gaia) modernizou o prédio e instalou ar condicionado (split) em todas as salas.
(...)
Na universidade a manhã foi esclarecedora: fontes de pesquisa, domínio público, ferramentas... Fizemos um debate do primeiro capítulo da obra: Argumentação, estilo, composição: introdução à escrita acadêmica, de Tomaz Tadeu da Silva. Trecho intitulado: "Como enfrentar a síndrome do papel em branco?". Escritos de autoajuda para pretensos pesquisadores, segundo a fala da professora. Gostaria de ter lido isso antes. O autor 'pega pesado' com as nossas maneiras 'ordeiras' de querer dar conta da escrita com: início, meio e fim. "Comece dizendo o que quer dizer e, depois, com o andar da carruagem, as abóboras se ajeitam...". Foi oque ele disse, só que em outros termos...
Outros: Recebi pelo facebook um convite, adorei!: é para a Maratona de contadores de histórias de Caxias. Dia 19 de abril, na biblioteca pública. Levando em conta essa data, acho que devo participar. Fiquei com o pé que é um leque para subir à serra... O convite partiu da Helô Bacichette (uma das coordenadoras da Confraria Reinações- link à esquerda).

terça-feira, 29 de março de 2011

Transcrição do discurso de Chimamanda Adichie

(Transcrição -literal- da tradução feita por Erika Barbosa, do discurso de Chimamanda Adichie, durante a TED- 2009).
"Eu sou uma contadora de histórias e gostaria de contar a vocês algumas histórias pessoais. Sobre o que eu gosto de chamar “o perigo de uma história única”.
Eu cresci num Campus universitário no leste da Nigéria.
Minha mãe diz que eu comecei a ler com 2 anos, mas eu acho que 4 é provavelmente a idade mais próxima da verdade. Então, eu fui uma leitora precoce. E o que eu lia eram livros infantis britânicos e americanos. Eu fui também uma escritora precoce. E quando comecei a escrever, por volta dos 7 anos, histórias com ilustrações em giz de cera, que minha mãe era obrigada a ler, eu escrevi exatamente o tipo de história que eu lia. Todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis. Eles brincavam na neve. Comiam maçãs. E eles falavam muito sobre o tempo, em como era maravilhoso o sol ter aparecido. Agora, apesar do fato que morava na Nigéria. Eu nunca havia estado fora da Nigéria. Nós não tínhamos neve, nós comíamos manga. E nós nunca falávamos sobre o tempo, porque não era necessário. Meus personagens também bebiam muita cerveja de gengibre. Não importava que eu não tinha a mínima ideia do que era cerveja de gengibre. E por muitos anos depois desejei desesperadamente experimentar cerveja de gengibre. Mas isso é outra história... Ao meu ver, o que isso demonstra é como nós somos impressionáveis e vulneráveis a uma história, principalmente quando somos crianças. Porque tudo que eu havia lido eram livros nos quais os personagens eram estrangeiros, eu convenci-me de que os livros, por sua própria natureza, tinham que ter estrangeiros e tinham que ser sobre coisas com as quais eu não podia me identificar. Bem, as coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não haviam muitos disponíveis e eles não eram tão fáceis de encontrar quanto os livros estrangeiros, mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção da literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com pele cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura. Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia. Bem, eu amava aqueles livros americanos e britânicos que eu lia. Eles mexiam com a minha imaginação, me abriam novos mundos. Mas a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são. Eu venho de uma família nigeriana convencional de classe média. Meu pai era professor. Minha mãe administradora. Então nós tínhamos, como era normal, empregada doméstica, que frequentemente vinha das aldeias rurais próximas. Então, quando eu fiz 8 anos, arranjamos um novo menino para casa. Seu nome era Fide. A única coisa que minha mãe nos disse sobre ele foi que sua família era muito pobre. Minha mãe enviava, inhames, arroz, e nos roupas usadas para sua família. E quando eu não comia tudo no jantar, minha mãe dizia: Termine, você não sabe que pessoas como a família de Fide não tem nada? Então eu sentia uma enorme pena da família de Fide. Então, num sábado, nós fomos visitar a sua aldeia e sua mãe nos mostrou um sexto com um padrão lindo feito de ráfia seca por seu irmão. Eu fiquei atônita! Nunca havia pensado que alguém em sua família pudesse realmente criar alguma coisa. Tudo que eu tinha ouvido sobre eles era como eram pobres, assim havia se tornado impossível pra mim vê-los como alguma coisa além de pobres. Sua pobreza era minha história única sobre eles. Anos mais tarde, pensei nisso quando deixei a Nigéria para cursar universidade nos Estados Unidos. Eu tinha 19 anos. Minha colega americana ficou chocada comigo. Ela perguntou onde eu tinha aprendido a falar inglês tão bem e ficou confusa quando eu disse que, por acaso, a Nigéria tinha o inglês como língua oficial. Ela perguntou se podia ouvir minha 'música tribal' e, consequentemente, ficou muito desapontada quando eu toquei minha fita da Mariah Carey. Ela presumiu que eu não sabia como usar um fogão. O que me impressionou foi que ela: sentiu pena de mim antes mesmo de ter me visto. Sua posição padrão para comigo como uma africana, era um tipo de arrogância bem intencionada, piedade. Minha colega de quarto tinha uma única história sobre a África. Uma única história de catástrofe. Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem iguais a ela, de jeito nenhum. Nenhuma possibilidade de sentimentos mais complexos do que piedade. Nenhuam possibilidade de uma conexão. Eu devo dizer que antes de eu ir para os Estados Unidos, eu não me identificava, conscientemente, como uma africana. Mas nos EUA, sempre que o tema África surgia, as pessoas recorriam a mim.Não importava que eu não sabia nada de lugares como a Namíbia. Mas acabei por abraçar essa nova identidade. E, de muitas maneiras, agora eu penso em mim mesma como uma africana. Entretanto, ainda fico um pouco irritada quando referem-se à África como um país. O exemplo mais recente foi o meu maravilhoso voo dos lagos, 2 dias atrás, não fosse um anuncio de m voo da Virgin sobre o trabalho de caridade na Índia, na África e em outros países. Então após ter passado vários anos nos EUA como uma africana eu comecei a entender a reação de minha colega para comigo. Se eu não tivesse nascido na Nigéria e se tudo que eu  conhecesse sobre a África viesse das imagens populares, eu também pensaria que a África era um lugar de lindas paisagens, lindos animais e pessoas incompreenssíveis, lutando guerras sem sentido, morrendo de pobreza e AIDS, incapazes de falar por eles mesmos, e esperando serem salvos por um estrangeiro branco e gentil. Eu veria os africanos do mesmo jeito que eu, quando pequena, havia visto a família de Fide.Eu acho que essa única história da África vem da literatura ocidental. Então, aqui temos uma citação de um mercador londrino chamado John Locke, que navegou até o oeste da África e manteve um fascinante relato de sua viagem. Após referir-se aos negros com 'bestas que não tem casas', ele também escreve:'Eles também são pessoas sem cabeça, que têm sua boca e olhos em seus seios'. Eu rio toda vez que leio isso e alguém deve admirar a imaginação de John Locke. Mas o que é importante sobre sua escrita é que ela representa o início de uma tradição de contar histórias no ocidente. Uma tradição da África subsariana como um lugar negativo, de diferenças, de escuridão, de pessoas que, nas palavras do poeta, Rudygard Kipling são 'metade demônio, metade criança'. E então eu comecei a perceber que a minha colega de quarto americana, deve ter, por toda sua vida, visto e ouvido diferentes versões de uma única história. Como um professor, que uma vez me disse que o meu romance não era 'autenticamente africano'. Bem eu estava completamente disposta a afirmar uma série de coisas erradas com o romance, que ele havia falhado em lugares, mas eu nunca havia  teria imaginado que ele havia falhado em alcançar alguma coisa chamada autenticidade africana. Na verdade, eu não sabia o que era 'autenticidade africana'. O professor me disse que minhas personagens pareciam muito com ele, um homem educado de classe média. Minhas personagens dirigiam carros, elas não estavam famintas. Por isso elas não eram autenticamente africanas. Mas eu devo rapidamente acrescentar que eu também sou culpada na questão da única história. Alguns anos atrás, eu visitei o México saindo dos EUA.O clima política àquela época era tenso. E havia debates sobre a imigração. E, como frequentemente acontece na América, imigração tornou-se sinonimo de mexicanos. Havia histórias infindáveis de mexicanos como pessoas que estavam espoliando o sistema de saúde, passando às escondidas pela fronteira, sendo presos na fronteira, esse tipo de coisa. Eu me lembro de andar no meu primeiro dia por Guadalara, vendo as pessoas indo trabalhar, enrolando tortilhas no supermercado, fumando, rindo. Eu me lembro que o meu primeiro sentimento foi surpresa. E então eu fiquei oprimida pela vergonha. Eu percebi que eu havia estado tão imersa na cobertura da mídia sobre os mexicanos que eles haviam se tornado uma única coisa em minha mente: o imigrante abjeto. Eu tinha assimilado a única história sobre os mexicanos e eu não podia estar mais envergonhada de mim mesma. Então, é assim que se cria uma única história: mostre um povo como uma coisa, e será o que eles se tornarão. É impossível falar sobre uma única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas do poder do mundo, e a palavra é nkali.  É um substantivo que livremente se traduz:'ser mais do que o outro'. Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio de 'nkali'. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder é uma habilidade de não só contar a história de uma pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve: que se você quer destruir o uma pessoa, o jeito é contar sua história, e começar com 'em segundo lugar'! Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente. Recentemente, eu palestrei numa universidade onde um estudante disse-me que era uma vergonha que homens nigerianos fossem agressores físicos como o personagem do pai no meu romance. Eu disse a ele que eu havia terminado de ler um romance chamado Psicopata Americano - e que era uma grande pena que jovens americanos fossem assassinos em série. É óbvio que eu disse isso num leve ataque de irritação. Nunca havia me ocorrido pensar que só porque eu havia lido um romance no qual uma personagem era um assassino em série, que isso era de alguma forma, representativo de todos os americanos. E agora, isso não é porque eu sou uma pessoa melhor do que aquele estudante, mas devido ao poder cultural e econômico da America, eu tinha muitas outras histórias sobre a América. Eu havia lido Tyler, Updike, Steinbeck e Gaitskill. Eu não tinha uma única história sobre a América. Quando eu soube, alguns anos atrás, que escritores deviam ter tido infâncias realmente infelizes para ter sucesso, eu comecei a pensar sobre como eu poderia inventar coisas horríveis que meus pais teriam feito comigo. Mas a verdade é que eu tive uma infância muito feliz, cheia de risos e de amor, em uma família muito unida. Mas também tive avós que morreram em campos de refugiados. Meu primo Polle morreu porque não teve assistência médica adequada. Uma dos meus amigos mais próximos Okoloma, morreu num acidente aéreo porque nossos caminhões de bombeiros não tinham água. Eu cresci sob governos militares repressivos que desvalorizavam a educação, então por vezes meus pais não recebiam os seus salários. E então, ainda criança, eu vi a geleia desaparecer do café da manhã, depois a margarina desapareceu, depois o pão tornou-se muito caro, depois o leite ficou racionado. E acima de tudo, um tipo de medo político normalizado invadiu nossas vidas. Todas essas histórias fazem-me quem eu sou. Mas insistir somente nessas histórias negativas é superficializar minha experiência e nigligenciar as muitas outras histórias que formaram-me. A única história cria estereótipos. E o problema com os estereótipos, não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se única história. Claro, a África é um continente repleto  de catástrofes. Há as enormes, como as violações no Congo. E há as depressivas, como o fato de 5.000 pessoas candidatarem-se a uma vaga de emprego na Nigéria. Mas há outras histórias que são sobre catástrofes. E é muito importante, é igualmente importante, falar sobre elas. Eu sempre achei que era impossível relacionar-me adequadamente com um lugar ou uma pessoa sem relacionar-me com todas as histórias daquele lugar ou pessoa. A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes. E se antes de minha viagem ao México eu tivesse acompanhado os debates sobre imigração de ambos os lados, dos Estados Unidos e do México? E se minha mãe nos tivesse contado que a família do Fide era pobre e trabalhadora? E se nós tivéssemos uma rede televisiva africana que transmitisse diversas histórias africanas para o mundo? O que o escritor nigeriano Chinua Achebe chama: 'um equilíbrio de histórias'.E se minha colega de quarto soubesse do meu editor nigeriano, Mukta Bakaray, um homem notável que deixou seu trabalho num banco para seguir seu sonho e começar uma editora? Bem, a sabedoria popular era que nigerianos não gostam de literatura. Ele discordava. Ele sentiu que as pessoas podiam ler, leriam se a literatura se tornasse acessível e disponível para eles. Logo após ele publicar meu primeiro romance, eu fui a uma estação de TV em Lagos para uma entrevista. E uma mulher que trabalhava lá como mensageira veio e me disse: 'Eu realmente gostei de seu romance. Mas não gostei do final. Agora você tem que escrever uma sequência, e isso é o que vai acontecer...' E continuou a me dizer o que escrever na sequência. Agora eu estava não apenas encantada. Eu estava comovida. Ali estava uma mulher, parte das massas comuns dos nigerianos, que não se supunham ser leitores. Ela não só tinha lido o livro, mas ela havia se apossado dele e sentia-se no direito de me dizer o que escrever na sequência. Agora, e se minha colega de quarto soubesse de minha amiga Fumi Onda, uma mulher destemida que apresenta um show de TV nos Lagos, e que está determinada a contar histórias que nós preferimos esquecer? E se minha colega soubesse sobre a cirurgia cardíaca que foi realizada no hospital dos Lagos na semana passada? E se minha colega de quarto soubesse sobre a música nigeriana contemporânea? Pessoas talentosas cantando em Inglês e Pidgin, e Igbo e Yoruba e Ijo, misturando influências de Jay-Z a Fela, de Bob Marley a seus avós. E se minha colega de quarto soubesse da advogada que recentemente foi a um tribunal da Nigeria para desafiar uma lei ridícula que exigia que as mulheres tivessem o consentimento de seus maridos antes de renovarem seus passaportes? E se minha colega de quarto soubesse sobre Nollywood, cheia de pessoas inovadoras fazendo filmes apesar de grandes questões técnicas? Filmes tão populares que são realmente os melhores exemplos de que os nigerianos consomem o que produzem. E se minha colega de quarto soubesse da minha maravilhosamente ambiciosa trançadora de cabelos, que acabou de começar seu próprio negócio de vendas de extensões de cabelos? Ou sobre os milhões de outros nigerianos que começam negócios, às vezes fracassam, mas que continuam a fomentar a ambição? Toda vez que estou em casa, sou confrontada com as fontes comuns de irritação da maioria dos nigerianos: nossa infraestrutura fracassada, nosso governo falho. Mas também pela incrível resistência do povo que prospera apesar do governo, ao invés de devido a ele. Eu ensino em workshops de escrita em Lagos todo o verão. E é extra ordinário para mim ver quantas pessoas se inscrevem, quantas pessoas estão ansiosas por escrever, por contar histórias. Meu editor nigeriano e eu começamos uma ONG chamada Farafina Trust. E nós temos grandes sonhos de construir bibliotecas e recuperar bibliotecas que já existem e fornecer livros para as escolas estaduais que não tem nada em suas bibliotecas, e também organizar muitos e muitos workshops, de leitura, de escrita para todas as pessoas que estão ansiosas para contar nossas muitas histórias. Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar maligno. Mas histórias também podem ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida. A escritora americana Alice Walker escreveu isso sobre os seus parentes do sul que haviam se mudado para o norte. Ela os apresentou a um livro sobre a vida sulista que eles tinha deixado para trás.' Eles sentaram-se em volta, lendo o livro por si próprios, ouvindo-me ler o livro e um tipo de paraíso foi reconquistado'. Eu gostaria de finalizar com esse pensamento: Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso. Obrigada.

Lero-lero: Como também conto histórias é óbvio que pintou uma "empatia" com o discurso, sem falar em algumas outras afinidades com as histórias de vida. Entre as histórias que gosto de contar está O flautista de Hamelin (dos Grimm). Prometeu tem que cumprir... Certo? Pois é, preciso confessar-lhes que só cheguei até o final dessa transcrição (18' 49") de medo que algum leitor (do blog) mandasse ratos para  me pegar, já que eu havia prometido na postagem anterior.  Quando prometi, não imaginei que o texto você tão longo e que a transcrição (ler- pausar- copiar) fosse levar tanto tempo. Mas acredito que valeu, agora é possível  entender o discurso 'tintin por tintin' e não: mais ou menos. Afinal, a palestrante deve ter escolhido essas palavras com muito cuidado. "O peixe morre pela boca".
Como a maioria das traduções, mereceria um olhar mais criterioso em termos de concordâncias e até de escolhas semânticas,  mas "preferi" não interferir (exceto com uns grifos). No mais, tal qual foi traduzido, transcrevi! Espero que gostem!

quarta-feira, 23 de março de 2011

1º Dia de aula: flores para a professora, balas para os coleguinhas!

Fora o trânsito infeliz, e o acesso em obras que fez com que eu passasse "voando" pela microplaca de desvio para a Universidade, depois de eu ter ido quase a Esteio para ter direito ao regresso, pousei no estacionamento da Unisinos em São Leopoldo.
Cheguei muito nervosa na sala. Os meus planos de causar uma impressão de aluna dedicada (que não chega atrasada) "melaram"... Não pude nem comer um pãozinho de queijo e tomar um café com leite antes da aula. Considero esse café da manhã no R.U algo inspirante... Tem um sabor ímpar. Parece o do "sorvete seco da infância".
A disciplina que estou cursando é: Seminário de tese I, com a professora Gelsa Knijnik.
Colegas de várias partes do estado e do país. As apresentações tomaram boa parte da aula: professores gostam de palavras, gostam de narrar a existência...
A aula iniciou em clima de final de campeonato. As falas e os rostos expressavam a alegria da conquista da vaga!
A professora confessou certo nervosismo (imaginem): chegou com uma malinha, cheia de livros, de idéias, de desafios, de substâncias. Deixou claro que o trabalho será intenso, e para quem foi lá (todos) "buscar exatamente intensidade" a manhã foi "deslocante". Socializo hoje com vocês duas preciosidades. Primeiro o pensamento que a professora leu de Jorge Larossa:
“a amizade consiste em haver sido mordidos e feridos pelo mesmo, haver sido inquietados pelo mesmo". (p.145)
Fonte:
Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
Segundo, o vídeo:
Chimamanda Adichie: O perigo de uma única história vídeo em TED.com
Depoimento da novelista nigeriana, Chimamanda Adichie (na TED- 2009) intitulado:
"O perigo de uma única história" (quem conta, lê ou indica obras literárias não pode deixar de assistir). Basta que ao lado do botão inicial selecionem a tradução desejada. Estou transcrevendo a fala da escritora. Postarei assim que concluir. Merece página única. (Ela fala muito rápido e a tradução acompanha o ritmo... Precisarei de algumas horas para capturar todas as palavras...)
Espero que gostem e que "reajam" ou deixem comentários pois, concluindo este post, lembrei-me do desabafo de um outro escritor:

"A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita."
                                                                             (Mário Quintana)
Boa noite!

Tecendo...

Estou escrevendo um ensaio sobre o hábito da leitura, já falei aqui sobre a posição para ouvirmos histórias através da fabulinha "Perninha de quê?". Contudo, hoje revendo meu material do mestrado re-encontrei, num texto, um trecho da obra: Se um viajante numa noite de inverno, de Itálo Calvino, que fez considerações muito interessantes sobre a questão do espaço em que se lê. É o que segue:


"Toma a posição mais confortável: sentado, estendido, encolhido, deitado.
Deitado de costas, de lado ou de bruços. Em uma poltrona, um sofá, uma cadeira
de balanço, uma espreguiçadeira, um pufe. Ou em uma rede, se acaso tens uma.
Em tua cama, naturalmente, ou sob ela. Também podes ficar de cabeça para
baixo, em posição de ioga. Segurando o livro ao contrário, evidentemente.

Não é fácil encontrar a posição ideal para ler, é verdade. Outrora, lia-se de pé
diante de um facistol. Era hábito manter-se de pé. As pessoas repousavam dessa
forma quando se cansavam de andar a cavalo. Ninguém teve jamais a idéia de ler
a cavalo; e, entretanto, ler bem ereto sobre os estribos, o livro posto sobre a crina
do cavalo ou mesmo fixado as suas orelhas por um arreio especial, essa idéia te
parece agradável. Seria necessário estar muito a cômodo para ler com os pés nos
estribos; ter os pés levantados é a primeira condição para se apreciar bem um
livro.

Bem, que espera? Estica as pernas, põe os pés em uma almofada, no braço do
canapé, nas orelhas da poltrona, na mesa de chá, na escrivaninha, no piano, no
mapa mundi. Mas, antes de tudo, tira os sapatos se queres ficar com os pés para
cima; se não, calça-os de novo. Mas não fiques assim, os sapatos em uma das
mãos, o livro na outra.

Regula a luz para não cansares a vista. Faze isso tudo desde já, pois, uma vez
mergulhado na leitura, não haverá meio de mudares de lugar. Providencia para
que a página não fique na sombra: um aglomerado de letras negras sobre fundo
cinza uniforme como um exército de ratos; mas cuida bem que não venha de
cima uma luz forte demais que, refletindo-se na brancura crua do papel, aí corroa
a negrura dos caracteres como, em uma parede, a luz do sol do sul, ao meio-dia.
Tenta providenciar desde agora tudo que possa interromper tua leitura". (1982, p.
9-10).
Segue o link do texto completo , que foi escrito por uma (ex) professora (minha) no Mestrado em Letras e Cultura Regional da UCS:
http://www.ucs.br/ucs/tplPOSLetras/posgraduacao/strictosensu/letras/professores/neires_paviani/artigo.pdf

Lero-lero: Bem, segundo Calvino e Paviani, se adquirido o hábito de ler, o lugar onde se lê é o menos importante. Quando a leitura é boa o cenário se adapta ao corpo do leitor.

terça-feira, 22 de março de 2011

quinta-feira, 17 de março de 2011

Registro de uma aula de sensibilização e estética- Unisinos:

Ontem, participei de uma palestra com Nadja Hermann (professora universitária na PUC- POA). Voltei feliz do evento pois, compartilho de muitas das idéias, em prol da educação estética, que ela trouxe ao grupo. Revejo aqui as minhas anotações e socializo:
- os princípios racionais perpassam pelo sentimento.
- não há como conceitualizar tolerância sem a sensibilização para com o termo.
-a ética na perspectiva do racionalismo não funciona. Menos ainda, uma formação por moral por códigos de ética.
- a relação da Arte com a historicidade traz possibilidades de melhorias nesse campo do saber, visto que, ao sensibilizar para uma dada problemática, o artista desloca e modifica o olhar do “mundo” sobre um dado evento.
- Ou ainda, ao distanciar-se temporalmente de um fato, o artista consegue dar-lhe a dimensão de historicidade.
- Aristóteles, por sua vez, disse que são as experiências práticas e não as contemplações que formam as pessoas.
- experiências com artes permitem o desenvolvimento da competência afetiva (sensibilidade).
- a falta de experiências estéticas favorece o consumismo, o alcoolismo, as buscas das vertigens...
- é da natureza humana a necessidade de deslocar-se da realidade tosca.As crianças expressam isso através dos rodopios...
- o estranhamento é reflexivo.
- a utilização da tragédia grega se deveu a essa noção de que se ensina moral quando se perpassa pela estética. Os sentimentos dos atores são deslocados para a plateia. Faz-se um exercício antropofágico de sensibilização para o problema do outro.
E para concluir:
A formação de professores precisa permitir o deslocamento ( da racionalidade) para a estética. É o caminho mais apropriado para ensinar sobre moral e ética.
Como exemplos de obras que elucidam o potencial subversivo e reflexivo da arte, a professora Nadja utilizou o material abaixo.


 (O mestiço, de Portinari- 1934- uma homenagem à força e a beleza do povo missigenado-  pintada num momento em que a discriminação ainda imperava).
O rapto de Europa- 1471 ( seres mitológicos são utilizados para representar o amor proíbido).

(A morte de Procris- Piero di Cosimo- subverte à idéia de vida primitiva sem sentimentalismo).

Seguem os links em que encontrei as duas narrativas mitológicas retratadas acima:



Também foram sugeridas algumas referências bibliográficas, entre elas, o artigo:

Notas sobre a experiência e o saber da experiência:

http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_JORGE_LARROSA_BONDIA.pdf
E as obras:
E, essa última, da própria palestrante (editada pela Unijuí-RS-2010): que revela na Sinopse algumas das fontes referenciais utilizadas para o belo e deslocante discurso de Nadja Hermann:
 Na perspectiva de compreender como a educação pode enfrentar a tensão gerada entre as exigências de universalidade das normas (provenientes da tradição pedagógica) e de singularidade da autocriação em sua diferença, fez-se presente a necessidade de discutir o ponto de entrelaçamento entre ética e estética. Ou seja, qual o modo de tratamento ético diante de novas experiências de subjetivação, que apontaria outras perspectivas para a educação. O esforço teórico que tem orientado a autora dialoga com estudiosos que abriram caminhos inovadores para a reflexão moral, tais como: Nietzsche, Schopenhauer, Schiller, Rorty, Nussbaum, Iser, Bohrer, Gadamer, Habermas, Adorno, Welsch. O que se pretende expor são as possibilidades de a educação configurar uma nova face, em que a contemplação estética atua na vida moral e a singularidade de nossos juízos articula um mundo comum com aquilo que a sensibilidade percebe em cada situação. Daí a atenção vigilante na busca de categorias ajustadas à finitude e à pluralidade do mundo que concedam plausibilidade à reivindicação ética em educação, quando não mais temos estruturas estáveis do ser, como é o caso de uma época pós-metafísica.

Lero-lero: A morte de Procris pode ser utilizada para introduzir uma fala sobre métodos contraceptivos.

Novidade:
Não fui na palestra da tarde, até tentei, e, virtualmente, cheguei bem próximo ao local do evento. Voei, pulei, tentei espiar... Tudo via Second life, foi mágico! Adorei a minha primeira experiência com o meu avatar. Sentei no telhado do bloco... Na próxima vez eu conseguirei, apareceu um amigo com cara de cavalo que até tentou ajudar mas: "ops" não conseguimos!
Lição de casa feita, grifos inclusive, um abraço!
Eu aqui : Maria "Robin Hoodiana"


sábado, 12 de março de 2011

Projeto educativo a longo prazo: Ah, eu sou gaúcho!

Esse grito, popularizado "mundialmente" pelo povo gaúcho, tem aberto festivais de rock, apresentações tradicionalistas, manifestações políticas e assim por diante.
Entretando, "como nem sempre temos clareza" sobre as coisas que passamos a repetir, possivelmente, muitos gaúchos estão a "papagaear" essa afirmação:
"Ah! eu sou gaúcho!"...
Mas o que é ser gaúcho?
Qual a origem do termo?
Quais os hábitos do povo gaúcho na atualidade?
Quais as vantagens e desvantagens em viver no Rio Grande do Sul?
Quais os "artefatos culturais" que compõe o patrimônio gaúcho?
Como a tradição é difundida entre os gaúchos que moram no Rio Grande do Sul ou fora do estado?
Quais são os principais ritmos da música gauchesca?
Quais os grupos de música gaúcha que hoje fazem sucesso?
E os cantores (cantoras)?
Quais são os principais contos gauchescos?
Quais os principais autores? (passado-presente)
No que a discografia e a literatura do presente se aproximam ou diferenciam das do passado?
Quais são os principais símbolos da cultura gaúcha?
Quem são os gaúchos que se descatam no: esporte, na política, na música, na literatura, atualmente?
Atividades possíveis:
Organização de um acampamento (com as famílias) para vivências de lidas campeiras.
Festival estudantil de trovas e músicas gauchescas e gaúchas.
Visita a um centro de tradições gaúchas (CTG).
Organização de um elenco escolar de danças.
Realização de um "baile" com as famílias na escola.
Organização de murais fotográficos com registros dos familiares em trajes típicos.
Oficina fotográfica de imagens campeiras (ou de ilustrações).
Lero-lero:
Na  escola, costumamos lembrar que somos gaúchos na Semana Farroupilha. E, geralmente, as ações comemorativas se reduzem ao uso das vestimentas e a revisão de símbolos tradicionalistas. Entretanto, ser gaúcho e ter consciência do significado dessa situação é uma necessidade, pois estamos falando em identidade e sentimento de pertença. Ambos, necessários para que os homens vivam bem em suas comunidades.
Obs: Cliquem no título e caiam dentro do MTG (facilitará a pesquisa).
Ah, deixem-me "papagaear" um pouco, nada de cuinhas mimeografadas para as crianças colarem ervinhas, certo? Aliás, as cuias de hoje são feitas de várias formas e materiais... Isso, já renderia um estudo...
Segue um vídeo de Aninha Pires: uma voz feminina que canta as coisas do Sul!


Um abraço bem xinxado!
Boa semana, muitas rodas ( de chimarrão, inclusive!)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Instantes (Nadine Stair)

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser perfeito; relaxaria mais.
Seria mais tolo do que tenho sido; na verdade,
bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilhas,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente
cada minuto de sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabes, disso é feita a vida, só de momentos,
não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas;
se eu voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço
no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vida pela frente.
Mas vejam, tenho 85 anos e sei que estou morrendo...
Lero- lero:
Essa poesia "rodou o mundo" tendo como autor: Jorge Luís Borges. O fato, de parecer ser dele, garantiu, a quem pertence de direito, à americana: Nadine Stair, uma porção de fãs borgeanos. Aliás, tem uma música dos Titãs: Epitáfio, que também parece ter sido inspirada em Instantes.
Etá! Poesia danada! Que mexe com os valores da gente!

quarta-feira, 2 de março de 2011

Dia da mulher? Dia de tirá-las do poço!

A mulher do piolho
Era uma vez um homem muito circunspeto e cioso de sua personalidade. Muito moço teve a dita ou desdita de casar com uma mulherzinha extrovertida e por demais faladeira. Num dia de domingo, depois do almoço, o homem estava sentado debaixo de uma árvore, tomando fresco, quando a mulher veio para junto, querendo lhe catar cafuné.
De bom grado o homem deitou a cabeça no seu colo. Cafuné para cá, cafuné para lá, acabou por cochilar, enquanto a mulher já meio distraída mexia nos seus cabelos. De repente algo estranho atravessou correndo o couro cabeludo do homem.
Mais que depressa a mulher diligenciou uma busca meticulosa, terminando por encontrar um piolho.
— Um piolho!... Acorde marido! Olhe um piolho na sua cabeça.
O homem acordou assustado e logo viu o piolho esborrachado entre os polegares da esposa. Encabulou, mas nada disse. Porém a mulher não parou mais de falar durante a tarde. A noite chegou e ela falando. O homem calado estava, calado continuou. Noite a dentro, volta e meia, a mulher exclamava: — Marido, o piolho!...
No dia seguinte, indo bem cedo para a feira fazer as compras, percebeu que a mulher contava a todos quanto cruzavam o seu caminho o achado da véspera.
— Gente, não lhe conto! ontem eu encontrei um piolho na cabeça do meu marido.
— Um piolho! — Quem ouvia se escandalizava e com justa razão.
— Sim, senhor. Um p-i-pi-o-l-h-o-lho.
O marido cada vez mais aborrecido, calado estava, calado continuava. Entrava dia, saía dia, dormindo ou acordada, a conversa da mulher convergia somente para o malfadado achado.
Por fim, já furioso, o marido arranjou uma mordaça de cachorro e pôs na boca da esposa. Ela pareceu meio sufocada mas teve medo de protestar e se conservou em silêncio. Assim o homem acreditou ter solucionado a questão. Mas sua alegria durou pouco. Na feira, em casa, na missa, toda a vez que alguém olhava para os dois, ela não perdia tempo. Esfregava a unha do polegar direito da no esquerdo, como se estivesse matando um piolho, e apontava depois para a cabeça do marido.
Em desespero de causa, o marido carregou com ela para a beira de um rio fundo. Atou aos seus pés uma pedra e lhe deu um empurrão. A pobrezinha caiu na água e começou a se debater, tentando se manter à tona. Mas quando percebeu pessoas que corriam em seu socorro, suspendeu os braços acima da cabeça e fez o gesto de esfregar as unhas dos polegares. Foi afundando, se afogando, mas sem deixar de fazer o gesto de matar um piolho.
Satisfeito, o homem voltou para casa, crente de ter se livrado da desmoralização. Mas no dia seguinte, quando foi à feira, todos se dirigiram a ele como o marido da mulher do piolho. Repetindo o que ele pensava ter sepultado. Assim acaba a história.

(Em Viana, Hildegardes. "A mulher do piolho". A Tarde. Salvador, 09 de outubro de 1967, primeiro caderno, p.4)
 
Lero-lero: Esse conto, impresso em várias obras da literatura popular, demonstra que calar mulheres é uma prática social que há muito vem sendo praticada. A mulher do piolho foi, certamente,  uma  das  "Elizas" do passado. Dessas "mulherzinhas" que falam a verdade e com isso mexem com os brios dos companheiros, dos patrões, dos filhos, dos netos e, em vista disso, são por eles caladas.
Esse conto é um bom meio de introduzir a questão da violência doméstica na sala de aula. A queima de mulheres numa indústria têxtil específica (no passado) pode ter originado o Dia da mulher, entretanto, questões bem mais corriqueiras é que precisam fomentar as discussões sobre a realidade feminina. "Bullings" de gênero, falta de isonômia salarial, crimes passionais e pancadarias são problemas diários e que precisam ser discutidos na escola. A Lei Maria da Penha existe, ok? Mas só será legítima fora do papel, na boca das comadres...
Feliz Dia da mulher, MARIAs! Bom trabalho!
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm