(Transcrição -literal- da tradução feita por Erika Barbosa, do discurso de Chimamanda Adichie, durante a TED- 2009).
"Eu sou uma contadora de histórias e gostaria de contar a vocês algumas histórias pessoais. Sobre o que eu gosto de chamar “o perigo de uma história única”.
Eu cresci num Campus universitário no leste da Nigéria.
Minha mãe diz que eu comecei a ler com 2 anos, mas eu acho que 4 é provavelmente a idade mais próxima da verdade. Então, eu fui uma leitora precoce. E o que eu lia eram livros infantis britânicos e americanos. Eu fui também uma escritora precoce. E quando comecei a escrever, por volta dos 7 anos, histórias com ilustrações em giz de cera, que minha mãe era obrigada a ler, eu escrevi exatamente o tipo de história que eu lia. Todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis. Eles brincavam na neve. Comiam maçãs. E eles falavam muito sobre o tempo, em como era maravilhoso o sol ter aparecido. Agora, apesar do fato que morava na Nigéria. Eu nunca havia estado fora da Nigéria. Nós não tínhamos neve, nós comíamos manga. E nós nunca falávamos sobre o tempo, porque não era necessário. Meus personagens também bebiam muita cerveja de gengibre. Não importava que eu não tinha a mínima ideia do que era cerveja de gengibre. E por muitos anos depois desejei desesperadamente experimentar cerveja de gengibre. Mas isso é outra história... Ao meu ver, o que isso demonstra é como nós somos impressionáveis e vulneráveis a uma história, principalmente quando somos crianças. Porque tudo que eu havia lido eram livros nos quais os personagens eram estrangeiros, eu convenci-me de que os livros, por sua própria natureza, tinham que ter estrangeiros e tinham que ser sobre coisas com as quais eu não podia me identificar. Bem, as coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não haviam muitos disponíveis e eles não eram tão fáceis de encontrar quanto os livros estrangeiros, mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção da literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com pele cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura. Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia. Bem, eu amava aqueles livros americanos e britânicos que eu lia. Eles mexiam com a minha imaginação, me abriam novos mundos. Mas a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são. Eu venho de uma família nigeriana convencional de classe média. Meu pai era professor. Minha mãe administradora. Então nós tínhamos, como era normal, empregada doméstica, que frequentemente vinha das aldeias rurais próximas. Então, quando eu fiz 8 anos, arranjamos um novo menino para casa. Seu nome era Fide. A única coisa que minha mãe nos disse sobre ele foi que sua família era muito pobre. Minha mãe enviava, inhames, arroz, e nos roupas usadas para sua família. E quando eu não comia tudo no jantar, minha mãe dizia: Termine, você não sabe que pessoas como a família de Fide não tem nada? Então eu sentia uma enorme pena da família de Fide. Então, num sábado, nós fomos visitar a sua aldeia e sua mãe nos mostrou um sexto com um padrão lindo feito de ráfia seca por seu irmão. Eu fiquei atônita! Nunca havia pensado que alguém em sua família pudesse realmente criar alguma coisa. Tudo que eu tinha ouvido sobre eles era como eram pobres, assim havia se tornado impossível pra mim vê-los como alguma coisa além de pobres. Sua pobreza era minha história única sobre eles. Anos mais tarde, pensei nisso quando deixei a Nigéria para cursar universidade nos Estados Unidos. Eu tinha 19 anos. Minha colega americana ficou chocada comigo. Ela perguntou onde eu tinha aprendido a falar inglês tão bem e ficou confusa quando eu disse que, por acaso, a Nigéria tinha o inglês como língua oficial. Ela perguntou se podia ouvir minha 'música tribal' e, consequentemente, ficou muito desapontada quando eu toquei minha fita da Mariah Carey. Ela presumiu que eu não sabia como usar um fogão. O que me impressionou foi que ela: sentiu pena de mim antes mesmo de ter me visto. Sua posição padrão para comigo como uma africana, era um tipo de arrogância bem intencionada, piedade. Minha colega de quarto tinha uma única história sobre a África. Uma única história de catástrofe. Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem iguais a ela, de jeito nenhum. Nenhuma possibilidade de sentimentos mais complexos do que piedade. Nenhuam possibilidade de uma conexão. Eu devo dizer que antes de eu ir para os Estados Unidos, eu não me identificava, conscientemente, como uma africana. Mas nos EUA, sempre que o tema África surgia, as pessoas recorriam a mim.Não importava que eu não sabia nada de lugares como a Namíbia. Mas acabei por abraçar essa nova identidade. E, de muitas maneiras, agora eu penso em mim mesma como uma africana. Entretanto, ainda fico um pouco irritada quando referem-se à África como um país. O exemplo mais recente foi o meu maravilhoso voo dos lagos, 2 dias atrás, não fosse um anuncio de m voo da Virgin sobre o trabalho de caridade na Índia, na África e em outros países. Então após ter passado vários anos nos EUA como uma africana eu comecei a entender a reação de minha colega para comigo. Se eu não tivesse nascido na Nigéria e se tudo que eu conhecesse sobre a África viesse das imagens populares, eu também pensaria que a África era um lugar de lindas paisagens, lindos animais e pessoas incompreenssíveis, lutando guerras sem sentido, morrendo de pobreza e AIDS, incapazes de falar por eles mesmos, e esperando serem salvos por um estrangeiro branco e gentil. Eu veria os africanos do mesmo jeito que eu, quando pequena, havia visto a família de Fide.Eu acho que essa única história da África vem da literatura ocidental. Então, aqui temos uma citação de um mercador londrino chamado John Locke, que navegou até o oeste da África e manteve um fascinante relato de sua viagem. Após referir-se aos negros com 'bestas que não tem casas', ele também escreve:'Eles também são pessoas sem cabeça, que têm sua boca e olhos em seus seios'. Eu rio toda vez que leio isso e alguém deve admirar a imaginação de John Locke. Mas o que é importante sobre sua escrita é que ela representa o início de uma tradição de contar histórias no ocidente. Uma tradição da África subsariana como um lugar negativo, de diferenças, de escuridão, de pessoas que, nas palavras do poeta, Rudygard Kipling são 'metade demônio, metade criança'. E então eu comecei a perceber que a minha colega de quarto americana, deve ter, por toda sua vida, visto e ouvido diferentes versões de uma única história. Como um professor, que uma vez me disse que o meu romance não era 'autenticamente africano'. Bem eu estava completamente disposta a afirmar uma série de coisas erradas com o romance, que ele havia falhado em lugares, mas eu nunca havia teria imaginado que ele havia falhado em alcançar alguma coisa chamada autenticidade africana. Na verdade, eu não sabia o que era 'autenticidade africana'. O professor me disse que minhas personagens pareciam muito com ele, um homem educado de classe média. Minhas personagens dirigiam carros, elas não estavam famintas. Por isso elas não eram autenticamente africanas. Mas eu devo rapidamente acrescentar que eu também sou culpada na questão da única história. Alguns anos atrás, eu visitei o México saindo dos EUA.O clima política àquela época era tenso. E havia debates sobre a imigração. E, como frequentemente acontece na América, imigração tornou-se sinonimo de mexicanos. Havia histórias infindáveis de mexicanos como pessoas que estavam espoliando o sistema de saúde, passando às escondidas pela fronteira, sendo presos na fronteira, esse tipo de coisa. Eu me lembro de andar no meu primeiro dia por Guadalara, vendo as pessoas indo trabalhar, enrolando tortilhas no supermercado, fumando, rindo. Eu me lembro que o meu primeiro sentimento foi surpresa. E então eu fiquei oprimida pela vergonha. Eu percebi que eu havia estado tão imersa na cobertura da mídia sobre os mexicanos que eles haviam se tornado uma única coisa em minha mente: o imigrante abjeto. Eu tinha assimilado a única história sobre os mexicanos e eu não podia estar mais envergonhada de mim mesma. Então, é assim que se cria uma única história: mostre um povo como uma coisa, e será o que eles se tornarão. É impossível falar sobre uma única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas do poder do mundo, e a palavra é nkali. É um substantivo que livremente se traduz:'ser mais do que o outro'. Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio de 'nkali'. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder é uma habilidade de não só contar a história de uma pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve: que se você quer destruir o uma pessoa, o jeito é contar sua história, e começar com 'em segundo lugar'! Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente. Recentemente, eu palestrei numa universidade onde um estudante disse-me que era uma vergonha que homens nigerianos fossem agressores físicos como o personagem do pai no meu romance. Eu disse a ele que eu havia terminado de ler um romance chamado Psicopata Americano - e que era uma grande pena que jovens americanos fossem assassinos em série. É óbvio que eu disse isso num leve ataque de irritação. Nunca havia me ocorrido pensar que só porque eu havia lido um romance no qual uma personagem era um assassino em série, que isso era de alguma forma, representativo de todos os americanos. E agora, isso não é porque eu sou uma pessoa melhor do que aquele estudante, mas devido ao poder cultural e econômico da America, eu tinha muitas outras histórias sobre a América. Eu havia lido Tyler, Updike, Steinbeck e Gaitskill. Eu não tinha uma única história sobre a América. Quando eu soube, alguns anos atrás, que escritores deviam ter tido infâncias realmente infelizes para ter sucesso, eu comecei a pensar sobre como eu poderia inventar coisas horríveis que meus pais teriam feito comigo. Mas a verdade é que eu tive uma infância muito feliz, cheia de risos e de amor, em uma família muito unida. Mas também tive avós que morreram em campos de refugiados. Meu primo Polle morreu porque não teve assistência médica adequada. Uma dos meus amigos mais próximos Okoloma, morreu num acidente aéreo porque nossos caminhões de bombeiros não tinham água. Eu cresci sob governos militares repressivos que desvalorizavam a educação, então por vezes meus pais não recebiam os seus salários. E então, ainda criança, eu vi a geleia desaparecer do café da manhã, depois a margarina desapareceu, depois o pão tornou-se muito caro, depois o leite ficou racionado. E acima de tudo, um tipo de medo político normalizado invadiu nossas vidas. Todas essas histórias fazem-me quem eu sou. Mas insistir somente nessas histórias negativas é superficializar minha experiência e nigligenciar as muitas outras histórias que formaram-me. A única história cria estereótipos. E o problema com os estereótipos, não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se única história. Claro, a África é um continente repleto de catástrofes. Há as enormes, como as violações no Congo. E há as depressivas, como o fato de 5.000 pessoas candidatarem-se a uma vaga de emprego na Nigéria. Mas há outras histórias que são sobre catástrofes. E é muito importante, é igualmente importante, falar sobre elas. Eu sempre achei que era impossível relacionar-me adequadamente com um lugar ou uma pessoa sem relacionar-me com todas as histórias daquele lugar ou pessoa. A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes. E se antes de minha viagem ao México eu tivesse acompanhado os debates sobre imigração de ambos os lados, dos Estados Unidos e do México? E se minha mãe nos tivesse contado que a família do Fide era pobre e trabalhadora? E se nós tivéssemos uma rede televisiva africana que transmitisse diversas histórias africanas para o mundo? O que o escritor nigeriano Chinua Achebe chama: 'um equilíbrio de histórias'.E se minha colega de quarto soubesse do meu editor nigeriano, Mukta Bakaray, um homem notável que deixou seu trabalho num banco para seguir seu sonho e começar uma editora? Bem, a sabedoria popular era que nigerianos não gostam de literatura. Ele discordava. Ele sentiu que as pessoas podiam ler, leriam se a literatura se tornasse acessível e disponível para eles. Logo após ele publicar meu primeiro romance, eu fui a uma estação de TV em Lagos para uma entrevista. E uma mulher que trabalhava lá como mensageira veio e me disse: 'Eu realmente gostei de seu romance. Mas não gostei do final. Agora você tem que escrever uma sequência, e isso é o que vai acontecer...' E continuou a me dizer o que escrever na sequência. Agora eu estava não apenas encantada. Eu estava comovida. Ali estava uma mulher, parte das massas comuns dos nigerianos, que não se supunham ser leitores. Ela não só tinha lido o livro, mas ela havia se apossado dele e sentia-se no direito de me dizer o que escrever na sequência. Agora, e se minha colega de quarto soubesse de minha amiga Fumi Onda, uma mulher destemida que apresenta um show de TV nos Lagos, e que está determinada a contar histórias que nós preferimos esquecer? E se minha colega soubesse sobre a cirurgia cardíaca que foi realizada no hospital dos Lagos na semana passada? E se minha colega de quarto soubesse sobre a música nigeriana contemporânea? Pessoas talentosas cantando em Inglês e Pidgin, e Igbo e Yoruba e Ijo, misturando influências de Jay-Z a Fela, de Bob Marley a seus avós. E se minha colega de quarto soubesse da advogada que recentemente foi a um tribunal da Nigeria para desafiar uma lei ridícula que exigia que as mulheres tivessem o consentimento de seus maridos antes de renovarem seus passaportes? E se minha colega de quarto soubesse sobre Nollywood, cheia de pessoas inovadoras fazendo filmes apesar de grandes questões técnicas? Filmes tão populares que são realmente os melhores exemplos de que os nigerianos consomem o que produzem. E se minha colega de quarto soubesse da minha maravilhosamente ambiciosa trançadora de cabelos, que acabou de começar seu próprio negócio de vendas de extensões de cabelos? Ou sobre os milhões de outros nigerianos que começam negócios, às vezes fracassam, mas que continuam a fomentar a ambição? Toda vez que estou em casa, sou confrontada com as fontes comuns de irritação da maioria dos nigerianos: nossa infraestrutura fracassada, nosso governo falho. Mas também pela incrível resistência do povo que prospera apesar do governo, ao invés de devido a ele. Eu ensino em workshops de escrita em Lagos todo o verão. E é extra ordinário para mim ver quantas pessoas se inscrevem, quantas pessoas estão ansiosas por escrever, por contar histórias. Meu editor nigeriano e eu começamos uma ONG chamada Farafina Trust. E nós temos grandes sonhos de construir bibliotecas e recuperar bibliotecas que já existem e fornecer livros para as escolas estaduais que não tem nada em suas bibliotecas, e também organizar muitos e muitos workshops, de leitura, de escrita para todas as pessoas que estão ansiosas para contar nossas muitas histórias. Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar maligno. Mas histórias também podem ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida. A escritora americana Alice Walker escreveu isso sobre os seus parentes do sul que haviam se mudado para o norte. Ela os apresentou a um livro sobre a vida sulista que eles tinha deixado para trás.' Eles sentaram-se em volta, lendo o livro por si próprios, ouvindo-me ler o livro e um tipo de paraíso foi reconquistado'. Eu gostaria de finalizar com esse pensamento: Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso. Obrigada.
Lero-lero: Como também conto histórias é óbvio que pintou uma "empatia" com o discurso, sem falar em algumas outras afinidades com as histórias de vida. Entre as histórias que gosto de contar está O flautista de Hamelin (dos Grimm). Prometeu tem que cumprir... Certo? Pois é, preciso confessar-lhes que só cheguei até o final dessa transcrição (18' 49") de medo que algum leitor (do blog) mandasse ratos para me pegar, já que eu havia prometido na postagem anterior. Quando prometi, não imaginei que o texto você tão longo e que a transcrição (ler- pausar- copiar) fosse levar tanto tempo. Mas acredito que valeu, agora é possível entender o discurso 'tintin por tintin' e não: mais ou menos. Afinal, a palestrante deve ter escolhido essas palavras com muito cuidado. "O peixe morre pela boca".
Como a maioria das traduções, mereceria um olhar mais criterioso em termos de concordâncias e até de escolhas semânticas, mas "preferi" não interferir (exceto com uns grifos). No mais, tal qual foi traduzido, transcrevi! Espero que gostem!