quarta-feira, 23 de março de 2011

Tecendo...

Estou escrevendo um ensaio sobre o hábito da leitura, já falei aqui sobre a posição para ouvirmos histórias através da fabulinha "Perninha de quê?". Contudo, hoje revendo meu material do mestrado re-encontrei, num texto, um trecho da obra: Se um viajante numa noite de inverno, de Itálo Calvino, que fez considerações muito interessantes sobre a questão do espaço em que se lê. É o que segue:


"Toma a posição mais confortável: sentado, estendido, encolhido, deitado.
Deitado de costas, de lado ou de bruços. Em uma poltrona, um sofá, uma cadeira
de balanço, uma espreguiçadeira, um pufe. Ou em uma rede, se acaso tens uma.
Em tua cama, naturalmente, ou sob ela. Também podes ficar de cabeça para
baixo, em posição de ioga. Segurando o livro ao contrário, evidentemente.

Não é fácil encontrar a posição ideal para ler, é verdade. Outrora, lia-se de pé
diante de um facistol. Era hábito manter-se de pé. As pessoas repousavam dessa
forma quando se cansavam de andar a cavalo. Ninguém teve jamais a idéia de ler
a cavalo; e, entretanto, ler bem ereto sobre os estribos, o livro posto sobre a crina
do cavalo ou mesmo fixado as suas orelhas por um arreio especial, essa idéia te
parece agradável. Seria necessário estar muito a cômodo para ler com os pés nos
estribos; ter os pés levantados é a primeira condição para se apreciar bem um
livro.

Bem, que espera? Estica as pernas, põe os pés em uma almofada, no braço do
canapé, nas orelhas da poltrona, na mesa de chá, na escrivaninha, no piano, no
mapa mundi. Mas, antes de tudo, tira os sapatos se queres ficar com os pés para
cima; se não, calça-os de novo. Mas não fiques assim, os sapatos em uma das
mãos, o livro na outra.

Regula a luz para não cansares a vista. Faze isso tudo desde já, pois, uma vez
mergulhado na leitura, não haverá meio de mudares de lugar. Providencia para
que a página não fique na sombra: um aglomerado de letras negras sobre fundo
cinza uniforme como um exército de ratos; mas cuida bem que não venha de
cima uma luz forte demais que, refletindo-se na brancura crua do papel, aí corroa
a negrura dos caracteres como, em uma parede, a luz do sol do sul, ao meio-dia.
Tenta providenciar desde agora tudo que possa interromper tua leitura". (1982, p.
9-10).
Segue o link do texto completo , que foi escrito por uma (ex) professora (minha) no Mestrado em Letras e Cultura Regional da UCS:
http://www.ucs.br/ucs/tplPOSLetras/posgraduacao/strictosensu/letras/professores/neires_paviani/artigo.pdf

Lero-lero: Bem, segundo Calvino e Paviani, se adquirido o hábito de ler, o lugar onde se lê é o menos importante. Quando a leitura é boa o cenário se adapta ao corpo do leitor.

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