(Ilustração- Marina- 11 anos).
A Coruja lecionando para as raposas
A Coruja foi convidada para lecionar na escola infantil do Raposário. Apesar de estranhar o convite, pois não dominava o raposês, aceitou o desafio.
Inicialmente, a Coruja teve dificuldades, pois a comunicação não fluía. As raposinhas não compreendiam as histórias, as brincadeiras, nem conseguiam olhar para o céu. Foi preciso muita criatividade e paciência, paciência e criatividade... para que os vínculos fossem criados.
Passado algum tempo, quando a alegria reinava na turma, a Raposa-diretora resolveu supervisionar o trabalho. Ela ficou tão encantada com o progresso dos filhotes, que decidiu promovê-los para o próximo nível. E esclareceu entusiasmada:
– Amanhã, sairemos antes de o sol nascer e faremos a iniciação à arte de roubar ovos! Eu mesma assumirei essa disciplina.
– Roubar? – perguntou espantada uma raposinha – a Coruja disse que não é certo roubar!
– É diretora, e ovos demais aumentam o colesterol ruim, precisamos rever nossa dieta – retrucou outra.
E a contestação à nova disciplina continuou:
– Sem falar que nós ainda mamamos, não precisamos de ovos...
– E a Coruja disse que, para preservarmos a floresta, só devemos comer quando estivermos com fome.
Até que uma raposinha expôs sua ideia:
– Não podemos ir dar um voo de paraglider? A Coruja disse que voar é a melhor coisa do mundo!
Tal possibilidade gerou a maior euforia na turma:
– Isso!
– Oba! – gritavam as raposinhas.
A Raposa-diretora ficou narizivelmente contrariada, adiou o início da nova etapa de aprendizado, alegando necessidade de revisão do currículo com o corpo docente.Depois de passar horas estudando na sala da direção, para a tristeza das raposinhas, a Coruja foi vista alçando voo pampa afora!
(Maria Cristina Schefer)
(publicado no Jornal Ibiá-Montenegro/RS em 15/10/2010)
Considerações: Nem sempre uma professora formidável, num determinado espaço, será boa professora noutro. Conhecer as expectativas de uma escola em relação aos aprendizados (que perpassam questões ideológicas) permite ao profissional docente avaliar até que ponto poderá ou não contribuir com uma instituição.
Certas propostas pedagógicas podem ferir os princípios de um professor, bem como certas práticas de um professor podem entrar em desacordo com o desejado por uma escola.
Por isso, é importante que a escola deixe claro, desde o primeiro contato com o possível profissional, quais são seus valores, qual é sua proposta pedagógica, quais são seus problemas e que tipo de mudanças ambiciona (se ambiciona). Do mesmo modo, o docente deve esclarecer suas crenças e seus instrumentos de trabalho. “Feito o contrato pedagógico”, caberá a ambos cumpri-lo. Ou, como em qualquer outro tipo de prestação de serviço, revê-lo, cancelá-lo.
Lero-lero: Ouvi falar que as tais raposinhas morreram cedo, nunca foram fiéis, de todo, às leis do seu bando. Adoeceram com a dieta de minhocas que comiam às escuras. Isso comprova, mais uma vez, que a base, “a educação infantil”, é fundamental!
Para quem ficou surpreso com o que possa parecer defesa à estagnação, de minha parte reforço agora, fora do texto de ficção, que a intenção da “fabulinha” era discutir princípios e não métodos...
Feliz Dia do Professor!
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