A consciência fonológica: capacidade de discriminar sons e o princípio alfabético: capacidade de relacionar fonemas e grafemas são decisivos no processo de alfabetização. Somente quando estabelecida a ligação entre o dito (sonoro) e o representado (escrito) chega-se ao nível alfabético.
Muitas inferências precisam ser feitas pelo alfabetizador para facilitar essa tomada de consciência que resulta na compreensão da língua escrita.
Entre as possibilidades de trabalho didático, para esse fim, está o uso de artefatos da literatura oral: parlendas, rimas, adivinhas, trava-línguas e ditados populares. As rimas facilitam o reconhecimento sonoro e a memorização. Assim, esses pequenos textos significativos se tornam “um conjunto de termos estáveis” que oportunizam novas relações e facilitam à aprendizagem.
Doutro modo, “brincar” com artefatos da cultura popular é reconhecer a importância da oralidade para o aprendizado da escrita.
Temos muitos folcloristas renomados que coligem artefatos populares, Ricardo Azevedo está entre eles. Seguem algumas rimas, ditados e adivinhas de seu Armazém do Folclore. São Paulo: Ática, 2002.
Adivinhas:
O que é, o que é:
É duro, gordo e careca
É branquinho, sim senhor
Sua mãe é desdentada
Mas seu pai é cantor?
Resp: ovo
O que é, o que é:
Que coisa, que coisa é
Passa a vida na janela
E mesmo dentro de casa
Está sempre fora dela?
Resp: botão
Rimas
Sexta-feira faz um ano
Que meu coração fechou
Quem morava dentro dele
Tirou a chave e levou
Você ontem me falou
Que não anda nem passeia
Como é que hoje cedinho
Eu vi seu rastro na areia?
O fiado já morreu
Foi com o dono enterrado
Quem quiser beber cachaça
Só pagando adiantado
Ditados Populares
Laranja madura na beira da estrada ou está azeda ou tem marimbondo.
Mais há quem suje a casa que quem varra.
Nada duvida quem nada sabe.
Mocidade preguiçosa, velhice trabalhosa.
Quem fala demais dá bom-dia ao cavalo.
Pobre quando põe a mão no bolso só tira os cinco dedos.
Quem gosta volta.
Ressaltando:
A repetição de termos e a assimilação sonora, oferecidos nesses suportes textuais, permitem que o alfabetizando mentalize o layout da escrita e assim consiga levantar hipóteses e avançar na prática da leitura ortográfica. Compreender versos é pré-requisito para a compreensão da prosa.
Outro:
Algumas canções infantis que possibilitam “repetições” também podem ser utilizadas com os mesmos fins. Segue um vídeo que encontrei na Rede e achei muito interessante.
(Tragam as crianças para a frente do computador...)
Sugestão:
Que tal um projeto sobre parlendas, rimas, ditados e adivinhações?
Comece questionando as famílias sobre os ditados que costumam utilizar no dia a dia...
Lembrem-se:
Os ditos populares falam muito sobre nós, transportam valores, subjetividades, tudo em tom de brincadeira. E brincando, brincando é que falamos o que não temos coragem de falar em outro tom, certo?
Desafio:
Que tal tentarmos atualizar com a turma o acervo de ditos. Temos muitas “falas contemporâneas” que já podem ser consideradas relíquias:
Pagando bem, que mal tem?
Quem pode manda, quem tem juízo obedece!
Bobiô, danço!
Não tem tu? Vai tu mesmo!
Antes mal acompanhado do que só.
Enfim, essa lista pode aumentar... E revelar muitas mudanças nas mentalidades...
Obs:
Como ensinar as crianças a memorizar?
Primeiro é preciso permitir experiências lúdicas, a educação passa pelos sentidos (quais são?) perpassa pelo corpo em movimento. Ninguém "sentadinho" aprende feliz.
Assim, dramatizar parlendas com o grupo utilizando figurinos de jornal, objetos ou com gravuras é um bom recurso. Nesses momentos lúdicos, várias habilidades e sensações estarão envolvidas no processo de fixação do texto. Temperado com alegria...
Reescrever os versos com ilustrações das palavras que a rimam (carta enigmática) também pode ser uma opção.
Bom final de semana, feriadão, volto na terça!
Sugestão de leitura:
ABC do alfabetizador, de João Batista Araújo e Oliveira.
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