sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre ser pop! Uma crônica sobre cultura!


Quem sou eu? Populista, popular ou elitista                          
                                                                  (Juremir Machado da Silva)
Um leitor quer saber se sou pop, popular, populista ou elitista. Nada disso. Não sei dirigir. Também nunca desmontei a televisão para saber o que tinha dentro. Como nunca toquei no volante de um carro, nunca pedi emprestado a caranga de meu pai para sair com a namorada. Meu pai não tinha carro. Pior de tudo: não ouvi Beatles nem Rolling Stones, nem o resto da galera, quando era adolescente. Muito pior ainda: não tive uma banda de rock quando era garoto. Por tudo isso, não sou nem jamais serei pop. Não fico acordado para ver Jô Soares, detesto Arnaldo Jabor, me lixo para Bob Dylan e não uso suíças de garoto de Segundo Caderno. Não sou pop.
Faltam-me tatuagens, piercings e roupas pretas para ser pop. Estou fora. Para quem ainda não sacou, pop é o que sobrou da cultura na indústria cultural, aquele verniz que adula o consumidor, falando o que ele quer e entende, por imitá-lo, e transforma comédia enfadonha, em arte genial. Pop é a classe média saindo do shopping para ir ao show de rock do filho num bar da Padre Chagas. Sou contra a Padre Chagas. Para ser pop eu teria de escrever um livro que interessasse até um participante de um reality-show. Não tenho talento.
Sou um autor de fracassos.
O BBB, ao contrário do que divulga o holandês que o inventou para nosso desespero, não se inspirou num projeto científico, mas numa semana passada por mauricinhos e patricinhas numa casa de praia. É a cara do Brasil geração Miami e MTV.
Não sou pop por carência. Mas tampouco sou popular, por excesso. Andei lendo demais, viajando muito, misturando coisas e perdi a capacidade de escrever para quem gosta de pagode, de Ratinho, de Faustão, de minissérie da Globo e de Harry Potter. Azar o meu. Vou ficar pobre para sempre. Quem manda não saber dirigir e não ter ouvido rock na infância. Um amigo meu, francês, me soltou os cachorros quando eu disse que acho Beatles uma babaquice. Um desafeto, hoje pacificado, me explicou com maestria: sou assim porque não nasci no Moinhos de Vento. Sou chato demais para ser pop e de menos para ser popular. Isso é incurável.
Também não sou populista. Não faço muitos discursos contra o neoliberalismo, não acho que todos os adversários do PT sejam desqualificados morais, não defendo a superioridade da arte popular e não acredito na redenção do mundo pela ação dos excluídos. Pior ainda: acho Fidel Castro e Hugo Chávez dois canastrões de última linha, mas nem por isso os consideros os gênios do mal.
Elitista? Impossível. Não ponho gravata para ouvir Mozart, o que faço até sentado no vaso, não tenho certeza se a criação de uma música para dançar exige menos talento que uma composição erudita e, se tenho convicção que Carlinhos Brown nunca seria Mozart, imagino que Mozart não ganharia a vida como estrela baiana.
Questão de talento.
Adoro de tudo um pouco e sou relativista por incompetência. Parece-me impossível demonstrar que uma obra é melhor que outra, salvo com critérios que só são bons porque são os de quem os escolheu e servem para elevá-lo acima dos outros.
Como se vê, sou um desajustado cultural, o que me leva a agir como franco-atirador. Não tenho nada a perder e nada a ganhar. De nada me adianta entrar numa auto-escola e ouvir rock tardiamente. Agora é mesmo tarde, Lenon está morto. Eu queria uma arte sem efeito, como um cinema sem filtros, sem maquiagem, com luz natural e câmera na mão – o Dogma 95 fez isso e me provou que a negação do efeito é outro efeito. O meu problema é que tenho alma de sociólogo (o mala que grita eu vi, eu vi, é truque, enquanto todos babam diante do efeito de uma mágica). O pop e o publicitário inventam mitos. O desajustado e o franco-atirador desmontam-nos. Ou tentam.
Deixo apenas um conselho aos pais, escudado em amplo estudo das teorias da psicologia familiar: se quiserem ter filhos normais, tratem de comprar carro e de emprestá-lo ao Júnior. Se ele não se matar de madrugada, nem vendê-lo para comprar drogas, será um homem bem-sucedido, um chefe autoritário ou artista de sucesso. De rock nem se fala! O que me assusta mais nos roqueiros, entre outras figuras pop igualmente temíveis, é o visual radical de vampiro de novela das sete. É hard!
Lero-lero: Lendo um texto acadêmico, encontrei a indicação dessa crônica e gostei muito, grifei o conceito de pop pois achei hilário!  Contudo, não concordo com a crítica à Harry Potter. Ele (o Juremir) deu, no texto, licença para isso. Minha filha tem 12 anos  leu e releu várias vezes cada obra. Aliás, ela lê de tudo. Através dela, conheci melhor a história e o que significa ser um trouxa (um misturadinho) numa escola de bruxos (os purinhos),  o debate da obra é o grande debate social da atualidade: entre os que nascem no "berço de ouro" e os que precisam correr atrás do pão de cada dia. Onde os mitos da miscigenação parcimoniosa caem por terra... Enfim, acho que a saga "inglesa" é papo de gente grande em "pequenas doses" para pré-adolescentes... E aí, eu garanto, poucos aguentam ler até o fim! (7 livros) A maioria prefere o shopping! 
De outro modo, gosto muitíssimo desse cronista gaúcho (do Correio do Povo), pode não ser tão popular como ele insiste em afirmar (no texto) contudo, sua escrita é de uma riqueza perturbadora! Duvido que os ... "mais  pop/populares" não leiam seus recadinhos sociais!
Beijos! São 2h e por hoje chega!
Ah, segue o link do texto responsável por essa postagem:
http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n23/n23a03.pdf

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