─ Bem amigos, quem quer brincar?
─ Aqui, na sala do 1º ano? Todo mundo, mas alguém não deixa.
─ Quem?
─ Os que mandam.
─ Como assim?
─ Sim, minha mãe disse que “deu na TV” que, com 6 anos, dava para brincar na sala...
─ E então?
─ Mas eles não deram os carrinhos...
─ E a professora o que diz?
─ Que precisamos acelerar...
─ Não podem brincar nem de faz de conta?
─ Só no recreio...
─ Mas por quê?
─ Acho que é por causa do cheiro da nossa sala...
─ Tem cheiro de quê?
─ Meu irmão disse que é o mesmo de quando ele estava na 1ª série.
─ E a professora, também acha?
─ O nariz dela é pequeno.
─ Não sente?
─ Bueno, um dia ela chegou perfumando tudo; abriu as janelas e arrancou o A de avião e o P de piloto da parede, acho que suspeitou que o cheiro fosse dos cartazes.
─ Legal! Mas e aí?
─ Aí, fizemos a maior festança do Brasil! Até que...
─ O quê?
─ Entrou pela janela um aviãozinho de papel e foi terrível.
─ Como assim?
─ Tinha uma mensagem nele.
─ O que dizia?
─ Você vai se perder nas curvas.
─ E aí?
─ A professora precisou de um pit stop! Coitada!
─ Quem mandou o aviãozinho?
─ Não sabemos.
─ E a professora?
─ Suspeitou deles...
─ O que fizeram?
─ Suspendemos a corrida, voltamos para a mesa e pegamos a cartilha.
─ Não responderam?
─ Capaz, a profe ia perder o empregocínio.
─ E agora?
─ Bagunça, nunca mais!
─ Mas e aquilo que sua mãe ouviu na TV sobre o brincar?
─ Ah, ela não escuta bem em dia de Sol.
Maria Cristina Schefer
Obs.:
A legislação mudou, e a proposta de ingresso de crianças com 6 anos no ensino obrigatório, numa turma intitulada 1º ano, visava à socialização e à aproximação desses pequenos com o mundo da escrita, de forma lúdica.
Entretanto, o que é visto (na maior parte das escolas) é o enquadramento dessas crianças ao antigo modelo de 1ª série: giz, quadro-negro, nada de brinquedos, nada de professora que brinca e muita burocracia.
Sem falar nos programas gratuitos que visam à melhoria da qualidade da alfabetização, e que desconsideram conscientes, ou não, o proposto pelo MEC, no que diz respeito a essa nova clientela.
Crianças do 1º ano estão perdendo minutos valiosos, diariamente, preenchendo tabelinhas obrigatórias; professores, por outro lado, relatórios e mais relatórios estatísticos.
Qualquer programa futuro que vise a auxiliar a alfabetização e o letramento das crianças de 6 anos precisará equipar as salas de aula com boa literatura, com muitos brinquedos e capacitar as equipes em parceria com as universidades, sem cartilhas, sem foco estatístico e, muito menos, marqueteiro.
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