CRIME
DE REALENGO: O SUTIÃ LILÁS NA TROMBA DO
ELEFANTE VERDE E AMARELO
Maria
Cristina Schefer[1]
Amanda Motta Angelo Castro[2]
Blasius Silvano Debald[3]
RESUMO: Este artigo, escrito a seis mãos
plugadas à rede, examina, do ponto de vista dos estudos culturais: linguagem e
gênero, o assassinato de 12 adolescentes brasileiros. Esse crime ocorreu numa
única ação, dentro de uma escola, na periferia do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, praticado por um
ex-aluno, evento que inaugurou a presença do Brasil no cenário global das
brutalidades gigantescas, àquelas fadadas à não-conclusão. Isso, dado as
inúmeras variáveis que atravessam as tentativas de se desenhar um “elefante”,
sem nunca ter visto ou se quer tateado o animal. O recorte aqui demarcado e o
problema da imprecisão serão delineados na ciência técnica da dificuldade de se
enxergar para além do aparente, bem como na verificação dos perigos inerentes à
banalização de um crime mediante a disputa pela informação entre a mídia e os
órgãos investigativos oficiais. Quando, ambos, passam a supor ou nomear fatos
(terrorismo, esquizofrenismo) e “coisas” (crianças-terroristas), no calor da
emoção, sem distanciamento e rigor, ignoram, respectivamente, outras
possibilidades (crime de gênero-exclusão) (jovens-mulheres) e legitimam aquilo
que o senso comum e o Ibope alimentam. Recorre-se, como tentativa de dirigir um
olhar ampliado, principalmente, à arte cinematográfica e às lentes de aumento
de Gus Van Sant [4]
(2003), em seu documentário crítico sobre o “similar caso” de Columbine (EUA).
Palavras-chave: Linguagem. Mídia. Terrorismo. Gênero.
Introdução
A
parábola budista Os cinco cegos e o
elefante, que conta o desafio que um sábio propôs a cinco cegos, para que
descrevessem o paquiderme apenas tateando parte do animal, trata-se de uma
analogia (de origem popular) que aponta para a impossibilidade de compreensão
de um todo, quando se atém a apenas uma parte. Tal conto serviu de inspiração
para nomear o documentário de Gustav Van Sant, Elephant (2003) sobre o crime de Columbine (EUA). Ao utilizarem
esse “Elephante” para construir o título deste artigo, sobre o crime de Realengo,
os autores (por tabela) imprimiram-lhe a parábola citada. Isso sugere aos
leitores estudos preliminares (via cinema e narrativa popular) para a “pesada”
leitura que segue. De outro modo, os doutorandos buscaram, nesses mecanismos
exploratórios, inspiração para refletir sobre outra questão crucial presente ao
longo da história da humanidade: a narrativa de fatos em meio a “cegueiras
contingenciais”. Especificamente, no caso do crime brasileiro, é possível
verificar o velamento da violência praticada contra a mulher, chamando a atenção
para o poder de autoridade social dos relatores, dos informantes, de certos
excertos e silêncios textuais, que mudam não apenas a manchete de uma
“ocorrência”, mas todo o tratamento dado à questão. Pobres, meninas pobres da
“escola” brasileira.
Os
fatos
Rio
de Janeiro, 7 de abril de 2011.
A data no quadro foi escrita. Aparentemente, nenhuma
novidade na rotina da Escola Municipal Tasso de Oliveira, situada
no bairro do Realengo (zona oeste). Iniciava-se, o que poderia ter sido, mais
uma manhã de confraternizações e estudos. Poderia! Não se sabe exatamente, mais
ou menos, às 8h30min adentrou, em uma das salas do segundo andar, um suposto palestrante. Tinha um jeito
familiar (disseram) e carregava uma
bolsa que parecia pesada. Ou ele era
pesado? O fato é que abriu a “tromba”
sobre a mesa da professora (que, instintivamente, aguardou pela surpresa próxima da porta); sacou duas
armas e começou o que, segundo relatos, pareceu
inicialmente uma brincadeira. Uma sequência de mais de cem disparos, nessa e em
outra sala (com pausa para recarregar os revólveres de calibres 38 e 32) ausentou do caderno de chamada, para sempre, 12 adolescentes, dentre eles, dez
do gênero feminino. E, desse modo, não foram alvos aleatórios, pois houve uma
pré-seleção por parte do agressor; os rapazes foram poupados, bem como as duas
professoras. Fato, que foi verificado na perícia, na materialidade do crime,
nos depoimentos, pois, segundo os estudantes ainda presentes, o meliante centrou sua fúria na cabeça das meninas.
De gaiato ou por
identificação, pois memória de elefante é grande, morreram: Igor Moraes da Silva, 13 anos, e Rafael Pereira da Silva,
14 anos. O primeiro sonhava ser jogador de futebol; o segundo, amante de jogos
virtuais, estava encaminhando documentação para trabalhar no programa Menor Aprendiz.[5] Algo nesses dois ratinhos (machos) incomodou o assassino.
Já as escolhidas para morrer foram:
Mariana Rocha de Souza, 12 anos, estudiosa,
jogadora de handebol e de queimada[6]
na escola, fã do Restart [7] e
de Luan Santana[8];
Ana Carolina Pacheco da Silva, 13 anos,
somente reconhecida pela família um dia depois do incidente; Bianca Rocha Tavares, 13 anos, gostava de crianças e
sonhava ser pediatra; Géssica Guedes Pereira,
15 anos, jogadora de vôlei na escola, gostava de dançar funk; Larissa dos Santos Atanázio,
13 anos. Na foto fornecida à imprensa, aparece posando para modelo; Laryssa Silva Martins, 13 anos, sonhava com a carreira
militar: “Ela queria entrar na Marinha”,
declarou um familiar; Milena dos Santos Nascimento, 14 anos, sonhava ser modelo e entrar
para a faculdade e, por último, Samira Pires Ribeiro,
13 anos, frequentava a escola de Realengo a menos de um mês. Teriam os pais dessa moça dito, à porta da escola:
“Aqui vais encontrar o mundo!”[9]
(POMPÉIA, 1996, p. 1). Visto que, os problemas sociais de um modo ou de outro
acabam se refletindo no comportamento dos estudantes, nas práticas escolares,
por mais altos que sejam os muros que uma escola possua, eles são ineficazes no
que diz respeito a barrar a violência e outras inferências da sociedade.
Como lido, os mortos tinham sonhos situados e
datados, de jovens ordinários,[10]
periféricos, crentes nas possibilidades de emersão social futura. Na
convergência desses desejos, agora imersos, tem-se a identidade dos estudantes.
Contudo, cabe asseverar que, discursivamente, a adolescência lhes foi
negada pela mídia, pela sociedade, pois, ao contrário do que delimita o
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal 8.069/1990), como faixa
etária da infância:
Art. 2º. Considera-se criança, para os
efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente
aquela entre doze e dezoito anos de idade,
Os narradores da tragédia optaram por designar os mortos como
crianças, infantes (não falantes). Já,
objetivamente, os sobreviventes
viraram informantes; doutro modo, os
noticiantes negligenciaram o ECA, no que diz respeito ao uso da imagem de
pessoas na faixa etária entre zero e 18 anos: “Art.17. O direito ao respeito
consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança
e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da
autonomia, dos valores, idéias, crenças, dos espaços e dos objetos pessoais.”
Nesse
aspecto, é bom “videolembrar” que uma das “crianças”, um menino, agonizou por
cerca de 10 minutos. E, ao que pareceu o seu tamanho (juvenil), não comoveu nem
policiais nem outros civis que circularam seu corpo (“sem dó”) após a morte do
invasor. Ele não foi salvo, salvou-se,
convalesceu por dias numa Unidade de Terapia Intensiva; pouco se ouviu a
respeito de sua recuperação. E, talvez,
esse jovem seja a única vítima capaz de descrever, não o motivo do crime, mas a
dimensão do terror social lá vivenciado. Sofreu ao mesmo tempo diversos
ataques: físico, de identidade, de insignificância, de desrespeito.
Paralelamente
às informações materiais que, quase em tempo real, foram sendo divulgadas na
mídia, as suposições vieram à tona. Instalou-se um “eurekismo” por parte dos jornalistas, “auxiliados” por técnicos
das mais diversas áreas, que aproveitaram “as deixas” para palpitarem em rede
nacional. Um crime globalizado! Uma
notícia dantesca!
Não
demorou muito para que o mundo, espantado, olhasse para o Brasil pasmado.
Afinal, o elephant nem faz parte da
fauna nacional, aceitável (para as lentes mundiais) seria uma arara azul (blue). Também especulações sobre de que
zoológico poderia ter fugido o “pesado” fervilharam. Comparações com o ocorrido
em 20 de abril de 1999, na High School,
de Columbine (no Condado de Jefferson, Estado do Colorado, Estados Unidos),
passaram a colorir carnavalescamente os noticiários. Semelhanças com o período
do ano (mês de abril), a simpatia dos criminosos por ícones do terror étnico ou
religioso: nazismo (caso dos EUA) ou radicalismo islâmico (caso do Brasil) e o bullying escolar serviram de elo e,
porque não dizer, de conforto provisório para a comunidade canarinho. Afinal, crime importado, não genuíno, permite
certo alívio social.
Entretanto,
aos poucos, as semelhanças entre os massacres passaram a ser invariáveis, partes
de um todo turvo e minado de variáveis. Especulações sobre abandono familiar,
propensão genética à esquizofrenia, abuso sexual, rejeição feminina, dentre
outras especificidades do bandido brasileiro, “ventilaram” as notícias investigativas. Parte dessas
suposições surgiu de trechos de uma carta e de vídeos de autoria do criminoso
de Realengo, nos quais ele justificou a ação e, de certa forma, apontou
possíveis aliados e culpados.
Nas linhas que seguem, pode-se averiguar o
início desse processo de diferenciação entre os dois massacres. Em vídeo, disse
o bandido brasileiro:“A luta pela qual muitos irmãos no passado morreram, e eu
morrerei, não é exclusivamente pelo que é conhecido como bullying. A nossa luta é contra pessoas cruéis, covardes, que se aproveitam da bondade, da
inocência, da fraqueza de pessoas incapazes de se defenderem.” (Grifos
nossos).
Escreveram
os bandidos americanos:“Não culpem mais ninguém por nossos atos. É assim que queremos
partir.” (Grifos nossos).
Enquanto o bandido nacional (23 anos) “pousou” discursivamente de vingador
incentivado, os bandidos americanos (de 17 e 18 anos) deixaram claro que nenhuma influência “que
possam ter recebido” foi superior à vontade particular que desenvolveram em cometer o crime. A exemplo do
brasileiro, os jovens americanos fizeram planos, a data do crime (20/4) foi em
homenagem ao aniversário do líder nazista. Os elementos treinaram a ação
em videogame e na garagem de casa com
as armas fatais (honestamente –
compradas e pagas pela internet). E, se, de certo modo, fizeram uma homenagem
ao mentor imaginário, vaidosamente
optaram por não repartir com ninguém o triunfo
da ação. Senhores de si, não
apenas deixaram escritos em que se autodefiniam como “Deus-es” (um de todos,
outro da tristeza), como também evidências de que repudiavam quaisquer crenças
religiosas, isso a ponto de, segundo sobreviventes, terem matado uma colega
(Cassie) depois que ela, em reposta a uma pergunta, disse acreditar em Deus.
Pergunta (similar, mas essencialmente contraditória) que, no “auge do nazismo”,
foi feita aos membros da Igreja Testemunha de Geová, em que se lhes dava a chance de abandonarem a crença e
migrarem para o Cristianismo positivista,
se quisessem ter a vida poupada.
A liberdade sexual (homossexualidade) apareceu
como característica da dupla americana no documentário Elephant, de Gus Van Sant (2003), quando os assassinos pouparam da morte um dos “seus”, no momento
em que invadiram a escola pedindo-lhe, inclusive, que se mantivesse afastado do
local. E, nesse episódio, deram mais um “tiro no pé”, pois, nazismo e homossexualismo não se aglutinam.
Via de regra, a questão da sexualidade era um assunto resolvido para os jovens
dos EUA.
Outro fato que precisa ser dito
quanto à Columbine é que não foi um crime genófobo; os super-homens da escola (os atletas mortos), ao invés de serem admirados
(“físico ideal”) foram fonte de inveja da dupla americana e de outros amigos
beberrões. Assim, mesmo se dizendo fãs da instituição
nazista, os bandidos americanos, ao não cumprirem especificidades do
estatuto interno do movimento, demonstraram o quão levianos foram na menção (escolha)
da inspiração. Serviram-se de particularidades de um dado regime para praticar
um evento criminoso singular.
Diante dessas informações, pode-se
afirmar que houve pontos convergentes nos massacres, mas as divergências foram grandiosas, que podem ser também ampliadas diante de outras “falas” do assassino nacional, que, similarmente
aos estrangeiros, equivocou-se ao se
autossugerir membro de uma instituição
que não pode reconhecê-lo (radicalismo islâmico). Ele escreveu: "Preciso da visita de um fiel seguidor de Deus
em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha
sepultura pedindo o perdão de Deus pelo que eu fiz rogando para que na sua
vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna".
A crença na vida eterna, uma volta para o Jardim do Éden (Paraíso) remete a
vida terrena para um plano superior, pensada no pós-morte do corpo. Um estudo
realizado por Jacques Le Goff (1983), analisando a Idade Média, destaca que as
pessoas viviam em função da vida eterna, suportando as dificuldades cotidianas.
O caso de Realengo aproxima-se do
cenário descrito pelo historiador francês, uma vez que o criminoso, em seus
escritos (aos quais se teve acesso após sua morte), fazia menção à vida
eterna.
Via de regra, se o matador fosse membro do regime ao qual insinuou fazer parte, não teria pedido perdão a Deus. Afinal, o
crime teria sido em nome dele. Em outro
trecho, pode-se perceber, pela ênfase dada à sua condição de virgem, o quanto a
questão sexual causou ao criminoso
nacional desconforto e como ele tratou de fazer disso sua condição de ser
superior (estava acima dos demais
pela castidade):
Os impuros não
poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas
castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar
sem usar luvas [...], deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me
secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste
prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar. (WIKIPÉDIA,
2011).
Como um
ditador, o assassino de Realengo, no uso do verbo no imperativo (deverão)
deixou ordens. Ficou evidente a importação que esse bandido fez para si de
rituais que somente praticantes efetivos
do Islamismo praticam; ele ignorava que os radicalistas islâmicos tivessem
outras motivações para as ações terroristas; não saem matando garotas em vista
de rejeição sexual, de masculinidade ferida (não se tornam puros por falta de
opção).
E o mais contraditório dessa vingança
em questão é que as adolescentes mortas não foram as colegas que rejeitaram o
matador brasileiro em 2001, quando havia sido aluno da escola. “Matematizando”
a ocorrência, o bandido do Rio matou B
porque A “causou-lhe” lembranças
vexaminosas. E, como invariante nessa situação entre A e B, o fato de ambas
(objetos) serem mulheres. Portanto, se reforça aqui, a ideia que, acima de
tudo, esse foi, particularmente, um crime de gênero. Ao longo dos tempos, as
mulheres sempre lutaram pela igualdade entre os sexos de diferentes formas e em
muitos lugares, mesmo que a história oficial tenha silenciado tais fatos. Safo, na Grécia, em 593 a.C.; Olympe
de Gouges, na França (1748-1793); e Nísia Floresta, no Brasil (1810-1885) são
exemplos de mulheres que não se conformaram com a sociedade patriarcal e
ousaram desafiar tal lógica. (CASTRO, 2011).
Vale lembrar que, quando falamos em
sociedade patriarcal, nos referimos a uma sociedade que valoriza o referencial
histórico masculino muito mais do que o feminino. (GEBARA, 2007). Talvez esse
seja um dos elementos fundamentais para que a violência de gênero seja
silenciada com a paz da indiferença. (EGGERT, 2008).
Passados quase 50 anos do início do movimento feminista, as mulheres sem
dúvida, tiveram conquistas importantes, entretanto, é impossivel negar que o
caminho para a conquista da igualdade entre os sexos está longe de ser
concretizada. Segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado, realizada em 2010,
pela
Fundação Perseu Abramo,
foi constatado que 48% dos brasileiros conhecem alguma mulher que foi vítima de
violência e uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido algum tipo de
violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido.
Na maior cidade do Brasil,
a Secretaria de Segurança Pública (SSP) divulga, pela primeira vez, os números
da criminalidade contra as mulheres: 5.844[11]
casos de violência somente no mês de setembro de 2011, sendo que a cada hora
oito mulheres foram agredidas e 194 mulheres registraram Boletim de Ocorrência por
lesão corporal, no Estado de São Paulo. No Rio
de Janeiro, a situação também não é animadora: de acordo com o Dossiê da
Mulher,[12]
aumentou, entre 2009 e 2010, em 25% os casos de estupro contra a mulher. Em
relação ao Brasil, os pesquisadores concluíram, nesse mesmo relatório, que, há
mais de dez anos, não são verificadas quedas nos índices de violência; somente
em 2008, o número de mulheres mortas somou 4.023 (homicídios dolosos); dessas,
40% morreram no ambiente doméstico.
Para Alemany (2009), a
violência de gênero fere as mulheres, pois as priva do direito de ir e vir, do
sentimento de segurança e confiança. A Conferência Mundial sobre Direitos
Humanos, realizada em 1992, em Viena, Áustria, reconheceu que a violência
contra as mulheres constitui uma violação dos direitos humanos: Doze crianças
mortas, 10 meninas, qual é o crime? Nascer mulher? Será que a sociedade
brasileira inviabilizará o crime de gênero cometido contra essas meninas?
O lençol que o assassino mencionou
na carta, segundo a polícia, não foi encontrado. Esse desejo delineado do
assassino, qual seja o de ser envolto num lençol e ser enterrado ao lado da
mãe, deixou indícios de que todas as mães (aos contrário das demais mulheres)
são santas (seráficas) e se diferem das demais (mundanas). Tudo isso fazia parte do imaginário do
assassino. E, desse modo, o fato de as professoras terem sido poupadas da morte
pode ser esclarecido, já que, também no
imaginário social, são elas as substitutas da figura materna dentro da escola.
Assim, ambos os massacres (de Columbine e Realengo) foram
crimes de pseudonazistas (radicalistas islâmicos). Foram praticados por jovens
perturbados, que, possivelmente, não conheceram alguns ismos benéficos
para o convívio respeitoso e pacífico em sociedade como altruísmo e coleguismo.
Passados
11 anos do crime americano, depois de um sério processo de investigação, que
ocorreu em segredo de Justiça, o assunto por lá somente não foi “enterrado” nas
mentes dos sobreviventes. Um deles se enforcou (meses depois) após escutar no
rádio uma música que falava de um jovem escrevendo uma carta de despedida antes
de cometer suicídio.[13]
E voltando ao problema das vozes do mundo, cabe a questão: Que tipo de artista,
com que tipo de inspiração, alguém faz uma música para “romantizar” o suicídio?
Para
a saúde da sociedade, é preciso que aqueles que estão no poder (da influência)
reflitam sobre o que murmuram, pois existem coisas que não podem ser
tematizadas, que não têm moral para serem reconhecidas, estampadas em
revistas, mostradas em vídeos, não de um ângulo irresponsável, que dê aos
atores de barbáries outra condição que não a de anti-heróis.
A literatura ensina que certos nomes são indizíveis.[14] E, nesses casos, cabe à vida imitar a arte. Não se pode subestimar a vaidade dos corações vazios, das memórias de elefante, que, a exemplo de um ex-presidente brasileiro,[15] possam entender como dignos de aplausos enunciados, como: “Saio da vida para entrar na História!”; contemporaneamente traduzidos por: “Saio da vida para entrar na mídia!”
A literatura ensina que certos nomes são indizíveis.[14] E, nesses casos, cabe à vida imitar a arte. Não se pode subestimar a vaidade dos corações vazios, das memórias de elefante, que, a exemplo de um ex-presidente brasileiro,[15] possam entender como dignos de aplausos enunciados, como: “Saio da vida para entrar na História!”; contemporaneamente traduzidos por: “Saio da vida para entrar na mídia!”
Cabe
lembrar que, em menos de 24 horas, após o crime ocorrido no Brasil, o assassino
já tinha um verbete na Wikipédia[16] (recheado de detalhes). E, no começo da tarde de
8 de abril, no Twitter, as hashtags #realengo e #tragedianorio,
liderava a lista de Trending Topics do Brasil.
Especificamente em solo brasileiro, vale
marcar que o crime ocorreu no dia 7 de abril: “Dia do Jornalista” e dia oficial
da entrada no ar da internet. Pura coincidência? Ou teria o bandido
nacional que escrevia, conforme trechos de cartas divulgados pela imprensa,
brasil com letra minúscula, pensado
em nomear a mídia como o símbolo do terror contemporâneo?
Não há dúvidas sobre o quanto o aparelho
midiático influencia multidões e é capaz de deturpar valores e esfumaçar
lentes. No caso de Realengo, quando os informantes nomearam como crianças os
adolescentes e jogaram pseudoconclusões no ar, na rede, desviaram o olhar
global da especificidade do ocorrido. A manchete ficou oculta: O Brasil tomou
conhecimento, em 7 de abril de 2011, de um dos maiores crimes de gênero
já cometidos dentro dos muros de uma escola.
O
Brasil, de Iracema[17]
às Marias da Penha[18]
de Realengo, no que se refere ao respeito pelo feminino, tem se mostrado
conservador, incapaz de romper com a legitimação patriarcal que paira nos “(L)ares”.
Na segunda metade do
século XX, as mulheres se organizaram coletivamente, e fizeram surgir, então,
um movimento feminista que trouxe para
discussão a questão da mulher, sobretudo das ligadas à violência de
gênero, como sendo urgente e necessária. O movimento adotou a cor lilás, como
uma nova síntese entre a cor azul e a rosa, simbolizando a igualdade entre os
sexos, e o sutiã criado na França, em 1889, foi queimado em praça pública em passeatas
feministas nos EUA. Logo a cor lilás e o sutiã se tornaram símbolos desse
movimento social.
Ao
não tratar o crime brasileiro como violência de gênero, a imprensa (os
difusores da notícia) deixaram escapar o foco principal do evento: aquele
que mostrava um sutiã lilás na
tromba do elefante verde e amarelo.
(in) Conclusão
Apesar
da imprecisão (dada a subjetividade) que um crime violento, dentro de uma
escola, como foi o de Realengo, possibilita em termos de conclusão. Nesse episódio, a matemática e sua precisão
numérica foram subestimadas, por isso se optou por recorrer tanto à literatura
neste artigo, pois é no Campo das Artes que a somas dos números dependem (puramente) da vontade do poeta. Em suma, a morte de dez jovens do gênero
feminino e dois do masculino não pode continuar sendo descrita como o massacre
de 12 adolescentes assexuados. Não, sem que se inviabilize parte significativa do
fato para a compreensão desse tipo de violência contra a mulher.
_________________________________________________________________________
[1] Doutoranda em
Educação pela Unisinos. Bolsista da Capes. E-mail: mariacris.7@hotmail.com.
[2] Doutoranda em Educação
pela Unisinos. Bolsista da Capes. E-mail:
motta.amanda @terra.com.br
[3] Doutorando em
Educação pela Unisinos. Professor na Uniamérica. E-mail: blasius@uniamerica.br
[4] Elephant (Trad. de elefante) do cineasta Gus Van Sant (2003) que, a partir do ponto de vista dos envolvidos, intenta uma retomada do massacre de Columbine. O
título do filme remete a uma parábola budista na qual um grupo de cegos tenta
descrever um elefante a partir das diferentes partes de seu corpo. Daí, ninguém
logrou ter uma visão do animal em sua totalidade, restando a cada um uma
apreensão parcial, embora se imagine generalizante. Disponível em: <filosomídia.blogspot.com>. Acesso em: 21 maio 2011.
[7] Grupo (quarteto) de Rock romântico. Considerado um fenômeno
para a geração teen. Roupas
coloridas, comportamento sadio (sem bebidas, sem drogas) fazem parte da
biografia do Restart.
[8] Cantor revelação do Sertanejo Universitário. Imagem
popularizada de bom moço: sensível e romântico. Tem fãs adolescentes em todo o
Brasil.
[9] Frase que abre o texto autobiográfico
O Ateneu (1888) de Raul Pompéia,
quando o personagem principal (Sérgio) é levado pelo pai para o internato. Lá
ele conhece as mais diversas agressões socioescolares. Esse escritor
suicidou-se numa noite de Natal.
[10] Adequação da expressão homem ordinário utilizado pelo culturalista
Michel de Certeau (1994), para descrever os nascidos em populações periféricas,
de margem.
[11] Dados do jornal Folha de São Paulo. Disponível em: <http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/images/stories/PDF/noticias2011/notviol/estadosp26102011umamulherapanhaacada7minutos.pdf>.
Acesso em: 26 out. 2011.
[12] Relatório de atos de violência contra
a mulher (2011), do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (IPC).
[13] Música Adams Song (Trad. de
Cântigo de Adam) da Banda Blink 182.
[14] Por isso, os autores do presente
texto, em nenhum momento, identificaram os assassinos pelo nome.
[15] Enunciados finais da carta suicida
deixada por Getúlio Vargas em despedida ao povo brasileiro em 23/8/54.
[16] Enciclopédia
livre disponível na internet.
[17] Alusão à mulher da América,
“espelhada artisticamente” em obra de José de Alencar, escrita em 1865.
[18] Maria da Penha ficou paraplégica em virtude
de agressões domésticas. É considerada, atualmente, o símbolo da luta nacional da mulher pela não-violência.
A Lei 11.340/2006, de
proteção aos crimes de natureza de gênero no Brasil, leva seu nome.
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______. Lei Maria da Penha. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Lei Marida Penha>. Acesso em: 24 out. 2011.
______. Massacre de Columbine. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre de Columbine>. Acesso em: 24 out. 2011.
______. Massacre de Realengo. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre de Realengo>. Acesso em: 24 out. 2011.
____________________________. Nazismo. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Nazismo>. Acesso em: 24 out. 2011.
Lero-lero: Esse texto foi publicado na revista Pleiade da Uniamérica- PR ( dez. 2011)
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