quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

GOLS DE COCURUTO- Luis Fernando Verissimo

O melhor momento do futebol para um tático é o minuto de silêncio. É quando os times ficam perfilados, cada jogador com as mãos nas costas e mais ou menos no lugar que lhes foi designado no esquema - e parados. Então o tático pode olhar o campo como se fosse um quadro negro e pensar no futebol como alguma coisa lógica e diagramável. Mas aí começa o jogo e tudo desanda. Os jogadores se movimentam e o futebol passa a ser regido pelo imponderável, esse inimigo mortal de qualquer estrategista. O futebol brasileiro já teve grandes estrategistas cruelmente traídos pela dinâmica do jogo. O Tim, por exemplo. Tático exemplar, planejava todo o jogo numa mesa de botão. Da entrada em campo até a troca de camisetas, incluindo o minuto de silêncio. Foi um técnico de sucesso mas nunca conseguiu uma reputação no campo à altura de sua reputação no vestiário. Falava um jogo e o time jogava outro. O problema do Tim, diziam todos, era que seus botões eram mais inteligentes do que seus jogadores. (grifos nossos)
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/08/1993.

Lero-lero: Tal narrativa (implacável) pode ser lida como analogia ao planejado e ao realizado nas escolas. Ou melhor, ao distanciamento entre propostas pedagógicas (gestadas pelas elites escolares) e o resultado prático do ensino "pensado". Trabalho em equipe se faz no comprometimento de todos, tendo por base o entendimento de uma proposta somado à competência técnica para efetivá-la. Caso contrário, é pedagogia de Cocuruto ou "enlatada": sem golos!

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