quarta-feira, 18 de abril de 2012

O riso é perigoso (Fabrício Carpinejar)

Clarice Lispector beliscava sua amiga Lygia Fagundes Telles quando entravam juntas num encontro literário:
 – Não ri, vai! Séria, cara de viúva. 
 – Por quê? – perguntava Lygia.
 – Para que valorizem o nosso trabalho.
 Não há mesmo imagem de alguma risada da escritora Clarice Lispector. Em livros e revistas, a cena que persiste é seu olhar desafiador, emoldurado por um rosto anguloso, compenetrado e enigmático. Os lábios não se mexem, absolutamente contraídos, envelopes fechados para a posteridade.
 Lispector não mostrava suas obturações, sua arcada para ninguém. Não se permitia gargalhadas para não parecer mulher superficial e leviana. 
 Ela percebeu que existe um imenso preconceito contra a alegria. Os críticos não a levariam a sério, dizendo que ela não era densa, não inspirava profundidade; acabariam por sobrepor a aparência faceira aos questionamentos metafísicos de sua obra. 
 Seu medo não era bobo. O riso permanece perigoso. Todos temem os contentes. Falam mal dos contentes. 
 O riso gera inveja, ciúme, intriga: “Por que está feliz, e eu não?”.
 A alegria é malvista em casa e no trabalho, sempre intrusa, sempre suspeita equivocada de uma ironia ou de um sentimento de superioridade. 
 Ainda acreditamos que profissionalismo é feição fechada, casmurra. Ainda deduzimos que competência é baixar a cabeça e não entregar nossas emoções. 
 Quanto mais triste, mais confiável. Quanto mais calado, mais concentrado. O que é um tremendo engano. 
 A criatividade chama a brincadeira, assim como a risada renova a disposição. 
 Se um funcionário ri no ambiente profissional, o chefe deduz que ele está vadiando, sem nada para fazer. Poderá receber reprimenda pública e o dobro de tarefas. Quem diz que ele não está somente satisfeito com os resultados?
 Se sua companhia ri durante a transa, você conclui que está debochando do seu desempenho. Quem diz que não é o contrário, que ela não festeja o próprio prazer? 
 Se a criança ri no meio da aula, o professor compreende como provocação e pede para que cale a boca. Quem diz que ela não está comemorando algum aprendizado tardio?
 Se o filho ri quando os pais descrevem dificuldades profissionais, a atitude é reduzida a um grave desrespeito. Quem diz que ele não achou graça do tom repetitivo das histórias? 
 Se a esposa ou marido ri e suspira à toa, já tememos infidelidade. O riso é escravo dos costumes, sinônimo de futilidade e distração quando deveria ser visto como sinal de maturidade e envolvimento afetivo. 
Não reagimos bem à felicidade do outro simplesmente porque ela ameaça nossa tristeza.

 (Publicado em 17/04/2012- Zero Hora)

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