Este Blog, sua escritora, está de férias (a partir de hoje). Novas postagens em FEV/2013, depois de uma série de compromissos inadiáveis com a faxina, a família, e os estudos!(mais ou menos nessa ordem). Presenteio você com o maravilhoso "conto de Natal" de Mia Couto. Boa leitura!
Grande abraço!
(fonte: socialização no facebook)
O menino no sapatinho
Mia Couto
Era
uma vez o menino pequenito, tão minimozito que todos seus dedos eram mindinhos.
Dito assim, fino modo, ele, quando nasceu, nem foi dado à luz mas a uma simples
fresta de claridade.
De tão
miserenta, a mãe se alegrou com o destamanho do rebento - assim pediria apenas
os menores alimentos. A mulher, em si, deu graças: que é bom a criança nascer
assim desprovida de peso que é para não chamar os maus espíritos. E suspirava,
enquanto contemplava a diminuta criatura.
Olhar
de mãe, quem mais pode apagar as feiuras e defeitos nos viventes?
Ao
menino nem se lhe ouvia o choro. Sabia-se de sua tristeza pelas lágrimas.
Mas
estas, de tão leves, nem lhe desciam pelo rosto. As lagriminhas subiam pelo ar
e vogavam suspensas. Depois, se fixavam no tecto e ali se grutavam, missangas
tremeluzentes.
Ela
pegava no menino, com uma só mão. E falava, mansinho, para essa concha.
Na
realidade, não falava: assobiava, feita uma ave. Dizia que o filho não tinha
entendimento para palavra. Só língua de pássaro lhe tocaria o reduzido coração.
Quem podia entender? Ele há dessas coisas tão subtis, incapazes mesmo de
existir. Como essas estrelas que chegam até nós mesmo depois de terem morrido.
A senhora não se importava com os dizquedizeres.
Ela
mesmo tinha aprendido a ser de outra dimensão, florindo como o capim: sem cor
nem cheiro.
A mãe
só tinha fala na igreja. No resto, pouco falava. O marido, descrente de tudo,
nem tinha tempo para ser desempregado. O homem era um fiorrapo,
despacha-gargalos, entorna-fundos. Do bar para o quarto, de casa para a
cervejaria.
Pois,
aconteceu o seguinte: dadas as dimensões de sua vida e não havendo berço à
medida, a mãe colocou o menininho num sapato. E cujo era o esquerdo do único
par, o do marido. De então em diante, o homem passou a calçar de um só pé. Só
na ida isso o incomodava. Na volta, ele nem se apercebia de ter pés, dois na
mesma direcção.
Em casa, na quentura da palmilha, o miúdo aprendia já o lugar
do pobre: nos embaixos do mundo. Junto ao chão, tão rés e rasteiro que, em
morrendo, dispensaria quase o ser enterrado. Uma peúga desirmanada lhe fazia de
cobertor. O frio estreitasse e a mulher se levantava de noite para repuxar a
trança dos atacadores. Assim lhe calçava um aconchego. Todas as manhãs, de prevenção,
ela avisava os demais e demasiados: -Cuidado, já dentrei o menino no sapato.
Que ninguém, por descuido, o calçasse. Muito-muito, o marido quando voltava bêbado e queria sair uma vez mais, desnoitado, sem distinguir o mais esquerdo do menos esquerdo. A mulher não deixava que o berço fugisse da vislembrança dela. Porque o marido já se outorgava, cheio de queixa:
- Então, ando para aqui improvisar um coxinho?
- É seu filho, pois não?
- O diabo que te descarregue!
E apontava o filhote: o individuozito interrompia o seu calçado? Pois que, sendo aqueles seus exclusivos e únicos sapatos, ele se despromoveria para um chinelado?
- Sim - respondeu a mulher. - Eu já lhe dei os meus chinelos.
Mas não dava jeito naqueles areais do bairro. Ela devia saber. A pessoa pisa o chão e não sabe se há mais areia em baixo que em cima do pé.
- Além disso, eu é que paguei os tais sapatos.
Palavras. Porque a mãe respondia com sentimentos:
- Veja o seu filho, parece o Jesuzinho empalhado, todo embrulhadinho nos bichos de cabedal.
Ainda o filho estava melhor que Cristo - ao menos um sapato já não é bicho em bruto. Era o argumento dela mas ele, nem querendo saber, subia de tom:
- Cá se fazem, cá se apagam!
O marido azedava e começou a ameaçar: se era para lhe desalojar o definitivo pé, então, o melhor seria desfazerem-se do vindouro. A mãe, estarrecida, fosse o fim de todos os mundos:
- Vai o quê fazer?
- Vou é desfazer.
Ela
prometia-lhe um tempo, na espera que o bebé graudasse. Mas o assunto azedava e
até degenerou em soco, punhos ciscando o escuro. Os olhos dela, amendoídos
ainda, continuaram espreitando o improvisado herço. Ela sabia que os anjos da
guarda estão a preços que os pobres nem ousam.
Até
que o ano findou, esgotada a última folha do calendário. Vinda da igreja, a mãe descobriu-se do véu e anunciou que
iria compor a árvore de Natal. Sem despesa nem sobrepeso. Tirou à lenha um
tosco arbusto. Os enfeites eram tampinhas de cerveja, sobras da bebedeira do
homem. Junto à árvore ela rezou com devoção de Eva antes de haver a macieira.
Pediu a Deus que fosse dado ao seu menino o tamanho que lhe era devido. Só
isso, mais nada. Talvez, depois, um adequado berço. Ou quem sabe, um calçado
novo para o seu homem. Que aquele sapato já espreitava pelo umbigo, o buraco na
frente autorizando o frio.
Na
sagrada antenoite, a mulher fez como
aprendera dos brancos: deixou o sapatinho na árvore para
uma qualquer improbabilíssima oferta que lhe miraculasse o lar .
No
escuro dessa noite, a mãe não dormiu, seus ouvidos não esmoreceram.
Despontavam
as primeiras horas quando lhe pareceu escutar passos na sala. E depois, o
silêncio. Tão espesso que tudo se afundou e a mãe foi engolida pelo cansaço.
Acordou
cedo e foi directa ao arbusto de Natal. Dentro do sapato, porém, só o vago
vazio, a redonda concavidade do nada. O filho desaparecera? Não para os olhos
da mãe. Que ele tinha sido levado por Jesus, rumo aos céus, onde há um mundo
apto para crianças. Descida em seus joelhos, agradeceu a bondade divina. De
relance, ainda notou que lá no tecto já não brilhavam as lágrimas do seu
menino. Mas ela desviou o olhar, que essa é a competência de mãe: o não
enxergar nunca a curva onde o escuro faz extinguir o mundo.
Retirado de: Na berma de nenhuma estrada. Lisboa: Editorial Caminho SA, 2001.
Acesse ainda a entrevista do escritor, fornecida à equipe da Unisinos/2012:
http://www.juonline.com.br/index.php/fronteiras-do-pensamento/12.11.2012/cidades-cercadas-de-pobreza/2c93

Nenhum comentário:
Postar um comentário