sábado, 2 de março de 2013

O elefante e a pesquisa em educação!


Os Cegos e o Elefante
Certo dia, um príncipe indiano mandou chamar um grupo de cegos de nascença e os reuniu no pátio do palácio. Ao mesmo tempo, mandou trazer um elefante e o colocou diante do grupo. Em seguida, conduzindo-os pela mão, foi levando os cegos até o elefante para que o apalpassem. Um apalpava a barriga, outro a cauda, outro a orelha, outro a tromba, outro uma das pernas. Quando todos os cegos tinham apalpado o paquiderme , o príncipe ordenou que cada um explicasse aos outros como era o elefante, então, o que tinha apalpado a barriga, disse que o elefante era como uma enorme panela. O que tinha apalpado a cauda até os pelos da extremidade discordou e disse que o elefante se parecia mais com uma vassoura. "Nada disso ", interrompeu o que tinha apalpado a orelha. "Se alguma coisa se parece é com um grande leque aberto". O que apalpara a tromba deu uma risada e interferiu: "Vocês estão por fora. O elefante tem a forma, as ondulações e a flexibilidade de uma mangueira de água...". "Essa não", replicou o que apalpara a perna, "ele é redondo como uma grande mangueira, mas não tem nada de ondulações nem de flexibilidade, é rígido como um poste...". Os cegos se envolveram numa discussão sem fim, cada um querendo provar que os outros estavam errados, e que o certo era o que ele dizia. Evidentemente cada um se apoiava na sua própria experiência e não conseguia entender como os demais podiam afirmar o que afirmavam. O príncipe deixou-os falar para ver se chegavam a um acordo, mas quando percebeu que eram incapazes de aceitar que os outros podiam ter tido outras experiências, ordenou que se calassem. "O elefante é tudo isso que vocês falaram.", explicou. "Tudo isso que cada um de vocês percebeu é só uma parte do elefante. Não devem negar o que os outros perceberam. Deveriam juntar as experiência de todos e tentar imaginar como a parte que cada um apalpou se une com as outras para formar esse todo que é o elefante."

Lero-lero:
 Tatear para decifrar uma pequena parte de um gigante... heis o que se faz nas pesquisas... ( o limite)
Bj e bonfindi! ESTUDEM!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

"Passei por aqui" somente para lembrar que abriram hoje as inscrições para o concurso público do Magistério! Ao lado (direita da tela/ sugestões) fiz links para a legislação prevista no Edital e para o formulário de inscrições. Conforme prometi, para amigas e alunas, estarei postando alguns textos específicos (em abril)  a partir da bibliografia recomendada. Bjos e bom estudo!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Quem inventou as "perninhas de índio" nas bibliotecas? !

Bem, acabo de voltar de uma ação com profissionais de educação (capacitação) para a largada do ano letivo!
Pela manhã, "contei histórias" para as auxiliares de biblioteca. Discutimos sobre a necessidade de termos escolas leitoras, e sobre as "perninhas de índio" que, segundo algumas, foi (até ontem) pré-requisito para que iniciassem uma hora do conto...
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(...)
Quem criou essa regra corpo-dominado pelas bibliotecas País afora? Ah, isso ninguém sabe dizer...
CRIADOR OCULTO! E que não fez/faz questão de reclamar autoria! Suspeito que seja o mesmo que inventou o "ziperzinho imaginário"...
(...)
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Ponderamos sobre as "solicitações" (por parte de algumas docentes) de que o horário do "milagroso-conto-semanal-criador-de-leitores-permanentes" seja um momento TAMBÉM para "reforçar" os conteúdos de sala de aula...
Concordamos que o cartesianismo está em nós, precisamos (sim) é reduzir os efeitos dessa humana docência racional (que portamos) sobre as ações pedagógicas que proporcionamos em sala!
Fácil?
Na, na, ni, na, NÃO! Eu é que o diga, minha vontade (às vezes) é de mandar seguirem pontilhados!
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Pela tarde, o assunto foi  o consumismo infantil, um trabalho com professoras da primeira infância.  Preparei uma fala em defesa da retirada dos "televisores" das salas de Educação Infantil, utilizei como exemplo a proposta pedagógica do Instituto Sidarta (SP).  A discussão foi fervorosa!
Também pudera, as "caixinhas de abelhas" foram incorporadas no cenário das salas de  EI (Brasil afora)  de tal modo,  que viraram uma espécie de "assistentes -eletrônicas-econômicas-indispensáveis".
(...) TV/ Um artefato escolar tão bem inserido no cenário educativo que talvez somente não tenha superado (ainda)  o vanguardismo do  "quadro verde".
O fato é que essas "tele-ajudantes", além de representarem uma inovação tecnológica em escolas de  sul  a norte,  não se atrasam, não adoecem, não faltam, e não reclamam!
Se titubearem /chuviscarem, geralmente um bom tablefe resolve!
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Enfim, voltei calada, calando, pensando... no tal do óbvio! No Bauman, e no "revivido Illich"
FUI/FEL!
Beijos!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Coordenação escolar? Fábulas chinesas ajudam a iniciar o debate!

Bem, conforme contei aqui, utilizei para trabalhar na disciplina de verão: Supervisão e Orientação Escolar (UERGS),  fábulas chinesas. A opção de fábulas chinesas não foi aleatória, tenho incentivado a "virada dos pescoços" para o lado oposto daquele que nos treinaram a olhar. Além disso, gosto de "lembrar" onde tudo começou e reforçar que temos muito a aprender com a literatura oral, de base, de essência!  
Seguem as fábulas selecionadas, bem como, uma frase dita pelos estudantes após a leitura quando estabeleceram relações entre o tema da narrativa e  a prática da coordenação escolar. 
Abraços, e  bom carnaval a todos!


O velho louco que removeu as montanhas – Liezi 
   (Coordenação escolar: projetos de curto, médio, e longo prazo)

                Perto das montanhas Taihang e Wangwu, vivia um velho de noventa anos que todo mundo achava louco. Ele tinha uma ideia fixa, a de remover montanhas da frente de sua aldeia e levá-las para outro lugar. Ninguém acreditou que ele fosse fazer isso.
                Certa noite todos foram dormir tranquilos. No dia seguinte, o velho louco acordou bem cedo e disse novamente que iria remover as duas montanhas para abrir um caminho até Hanying, onde os agricultores iam vender seus produtos no mercado.
                Ele começou a encher um cesto com pedras e, pouco depois, passou perto de sua casa com a carga nas costas.
                Sua mulher perguntou:
                - Onde vai jogar a montanha?
                - No mar Bohai.
               Logo seu filho e seus três netos foram trabalhar com ele. Juntos quebravam as pedras, tiravam a terra, enchiam com ela os cestos e iam jogá-las no mar Bohai. Até o filho de sete anos da viúva, que nascera depois da morte do vizinho, veio ajudá-los. Eles trabalhavam de domingo a domingo, de primavera a primavera, voltando para casa apenas uma vez por ano.
                Mesmo algumas pessoas que não acreditavam que fosse possível tirar as montanhas do lugar de dispuseram a ajudar o velho louco. Primeiro sua mulher e seus outros filhos. Depois os vizinhos e os vizinhos de seus vizinhos. Mais tarde acharam, sim, que a montanha tinha de dar passagem até Haying.
                Um sábio que vivia na curva do rio tentou dissuadi-lo daquela loucura.
                - Deixa de ser doido. Um homem velho e fraco como você, incapaz de carregar um saco de areia, vai remover duas montanhas para mudá-las de lugar?
                O velho deu um suspiro. Olhou para a montanha, olhou para o mar Bohai, lá longe, como se calculasse quanto tempo faltava para terminar o trabalho, e disse:
                - Se eu morrer, deixo meu filho e o filho do meu filho, o filho do meu neto, o filho do filho do meu neto. Já as montanhas, não crescem mais nem aumentam de tamanho. Por isso eu vou continuar meu trabalho.
                O sábio da curva do rio não soube o que responder.



A moça que queria comer no leste e dormir no oeste - Ying Shao
  (Coordenação escolar: exige posicionamento)

               No estado de Qi, havia uma moça em idade de casar. Era muito bonita e tinha muitos pendentes, mas não sabia que noivo escolher. Um dia, dois moços diferentes foram à sua casa pedi-la em casamento. Um morava no Leste e outro no Oeste.
                O moço que morava no Leste era feio, mas vinha de uma família muito rica. O moço que morava no Oeste era bonito, mas vinha de uma família muito pobre. Os pais da moça não sabiam qual marido apresentar para sua filha. Então eles permitiram que ela desse sua opinião sobre a pessoa com quem queria se casar.
                A moça ficou encabulada. Passou o tempo, e nada de uma resposta. Seu pai chamou sua mulher para um canto e perguntou:
                - Nossa filha não tem coragem de falar?
                A mãe foi até onde estava a filha e disse:
                - Você não tem coragem de falar? Se está com vergonha, apenas aponte para o rapaz de sua preferência. Quer dizer, nem precisa apontar. Toque em seu próprio braço. Se tocar no braço esquerdo, é que gosta do rapaz do Oeste, que está na sua esquerda. Se tocar o braço direito, é que gosta do rapaz do Leste, que está na sua direita.
                Depois de algum tempo, a moça voltou, mas ainda não tinha tomado decisão. De repente, ela tocou em sue braço esquerdo. Queria então se casar com o moço do Oeste. Porém, em seguida, tocou também em seu braço direito.
                – O quê? Você pretende se casar com os dois? – perguntou o pai, surpreso.
                – Não – ela respondeu, falando pela primeira vez, com uma voz sussurrante. – Eu quero comer na casa do moço do Leste e dormir na casa do mosto do Oeste.
                Seus pais disseram:
                – Não é possível ter sempre tudo o que se quer. Às vezes é preciso fazer opções!
                A moça pediu mais algum tempo para pensar.

   Esperando um coelho – Han Feizi
   (Coordenação escolar: exige ação)

                No reino de Song existia um camponês que tinha uma árvore dentro de sua propriedade.
                Ele não gostava de arar a terra e mantinha a esperança de que caísse do céu alguma coisa boa. Um dia, enquanto estava lavando, viu que um coelho vinha correndo afoito e, não conseguindo parar, bateu no tronco da árvore, quebrou o pescoço e morreu.
                O camponês ficou feliz da vida, pois não precisou fazer nenhum esforço para conseguir um coelho para comer. Decidiu então não trabalhar mais, ficando embaixo da árvore à espera que outro coelho fizesse a mesma coisa.
                Passaram-se muitos dias e nada de um coelho afoito correr na direção da árvore. As pessoas começaram a rir dele, dizendo que era um folgado, nessa espera por um coelho.
                Uma boa oportunidade deve ser aproveitada, mas não fique de braços cruzados esperando pela sorte.

 A direção errada – Liu Xiang
 (Coordenação escolar: exige planejamento)

                O rei de Wei preparava um ataque à Handan. Ji Lian sabendo disso, sem trocar de roupa e sem mesmo pentear os cabelos, foi à procura do rei para uma audiência. Chegando ao palácio, disse ao rei:
                - Alteza, hoje, quando vinha para a sua audiência, vi um homem indo para o norte. Eu quis saber para onde ele ia. Ele respondeu que ia para o reino de Chu. Eu achei estranho e indaguei: “Se deseja ir para o reino de Chu, por que segue para o norte?” Ele me respondeu: “Porque tenho bons cavalos”. Ponderei: “Mesmo com bons cavalos, esse não é o caminho que leva ao reino de Chu”. E o homem respondeu: “Eu tenho muitos cavalos”. Eu retruquei: “Mesmo tendo muitos cavalos, esse não é o caminho que leva ao reino de Chu”. O homem respondeu: “Eu tenho bastante ouro para as despesas da viagem”. Eu repliquei: “Mesmo com muito dinheiro, esse não é o caminho que leva para o reino de Chu”. O homem respondeu: “Eu tenho ótimos cavaleiros, capazes de conduzir cavalos até o reino de Chu”. Eu falei: “Por mais que você tenha muitos e bons cavalos, com ótimos cavaleiros, jamais chegará ao reino de Chu seguindo na direção errada”. Agora as ações do rei estão todas concentradas no domínio e na conquista. Mas se Vossa Alteza ficar dependendo apenas da grande extensão do seu reino e da força de suas tropas para atacar Handan, com a finalidade de ampliar as fronteiras e ser mais famoso, vai conseguir um resultado oposto ao desejado e se afastará cada vez mais de seus objetivos. É como ir ao reino de Chu para direção errada.

 O amor pelos dragões – Shen Buhai
  (Coordenação escolar: possui atribuições singulares)

               Zigao, o Senhos de Ye, gostava tanto de gradões que havia mandado esculpir e pintar vários deles na sua casa e nas louças e só vestia roupas que tinham dragões bordados.
                O dragão do céu, sabendo disso, desceu à Terra, entrou com a cabeça pela porta da casa e enfiou a cauda na janela. Ao perceber o que estava acontecendo, o Senhor Ye fugiu, morrendo de medo.
                Isso mostra que o Senhor de Ye não gostava verdadeiramente de dragões. Ele gostava daquilo que parecia ser um dragão, mas não dos dragões de verdade.

  Amolando uma barra de ferro – Chen Renxi
  (Coordenação escolar:  exige preparo, conhecimento)

                Quando era pequeno, o grande poeta Li Bai não gostava de estudar. Um dia encontrou uma senhora idosa na calçada, amolando uma barra de ferro. Ele ficou curioso e perguntou o que ela pretendia fazer.
                - Pretendo amolar essa barra de ferro até que ela vire uma agulha bem fina, para que eu possa costurar um vestido – respondeu ela.
                Após isso, Li Bai compreendeu o que ela estava querendo dizer e, mais tarde, tornou-se um grande poeta.

Fonte: 50 fábulas da China Fabulosa (Organização e tradução: Sérgio Capparelli  e Márcia Schmaltz)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Artigo| Faz bandeira um, tio

Minha paixão por crônicas não é novidade para os amigos, essa que segue capturei da ZH de domingo! Achei ótima, principalmente pelo fato de que o escritor recuperou uma frase secular de Oscar Wilde: "Não sou jovem o suficiente para saber tudo".
 Artigo| Faz bandeira um, tio

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Expulsa da Educação Infantil!(?)

Bom dia, 
Retomo hoje minhas escritas por aqui. Fiz um período razoável de "desintoxicação digital". Além disso,  nas férias da criançada (filhos) o computador aqui em casa vira brinquedo!
Aos poucos estou recuperando a posse do teclado e o rumo das ideias, pois, como bem disse Fabrício Carpinejar, "todos morremos um pouco na madrugada do dia 27/01/2013". 
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Estou lecionando em Cidreira/UERGS (disciplina de verão): Supervisão e Orientação Escolar. Iniciei as aulas com a crônica abaixo.


                Expulsa da Educação Infantil!(?)
Maria Cristina Schefer
             − Expulse-a! Ela precisa ficar bem longe da sala de aula!
Essa foi uma das intervenções que lembro ter feito (enquanto supervisora educacional) diante de uma situação de excesso de sensualidade que uma criança   apresentava em sala de aula.
O problema: uma menininha (de 4 anos) estava vindo para a escola de unhas pintadas, blush, batonzinho, sem uniforme, de saltinhos e com roupinhas insinuantes. “As outras meninas têm ela como referência, os meninos disputam a tapas a cadeirinha ao seu lado, os namoricos estão instalados na turma, e algumas mães já reclamaram”, relatou-me a professora.
A expulsão não foi uma atitude de impulso. Antes, fui até a sala de aula observar a turma. E, realmente, a menina era o centro das atenções! Estava ditando moda! Percebi nos modelinhos (das demais) a tentativa de copiar a “ídolo da Pré-escola”! Admito que fiquei surpresa, nunca imaginei que as crianças da vila/escola tivessem condições para tanto requifife,  e nem que o mercado oferecia tantas opções de tamanquinhos. Senti-memeiovisora”! (não mais SUPER)
De outro modo, e relevante ao caso, verifiquei que, nas paredes, uma gravura também se destacava entre as produções infantis. Era de uma boneca loira! Corpo esbelto! Olhos azuis! Lábios carnudos! Batom rosa! Sombra verde! Trajava um vestido volumoso! Furta cor! Cintilante! Uma Barbie, das legítimas! Depois de uma análise mais detalhada, posso até dizer que a dita esbanjava um “olhar 43, aquele assim, meio de lado [...] Louco por você!”.
Binguinho! Eurekinha!
Senti-me SUPRAvisora!
A solução:
Na conversa de devolutiva, da observação feita na turma, sugeri à professora que a gravura fosse expulsa/retirada do cenário da Educação Infantil. (!) Argumentei da incoerência entre desejar um ambiente com atitudes infantis saudáveis e “enfeitá-lo” com um  ícone  da “purpurinagem”! Da erotização precoce! Do reboladinho!
A princípio, a colega concordou com o teor do retorno pedagógico, mas, percebi que seu rímel escorreu, borrando-lhe (inclusive) o rosto até a altura do blush. Culpei-me, por aquele mal estar docente, talvez a gravura tivesse custado caro, e eu ido direto demais ao ponto (sei lá!), exagerado nas exclamações. Senti-me “minivisora”!
Apesar de aquela divergência de opinião ter “estremecido” certezas, dado “curvas” às exclamações (???), vi, no mesmo dia da orientação, depois da saída das crianças,  a gravura sendo retirada...
Ave! Senti-me “inflavisora”!
Se bem que houve certa lentidão no ato, e posso até dizer que percebi nela (na colega) um “olhar 43, aquele assim, meio de lado, já saindo, indo embora, louco por você!”. Enfim, foi uma sessão nostalgia (frente à gravura) que somente terminou quando um rapaz loiríssimo, num carro conversível, chegou à escola.  Veio buscar a professora!(?)
Quem seria? Ken?
Senti-me “FUXIvisora”! 

Lero-lero:  Na sequência (do uso das "palavrinhas mágicas" para o ensino)  trabalharemos 7 fábulas chinesas que tratam tanto das qualidades quanto das dificuldades da função de supervisionar e orientar professores/estudantes.  Os textos foram selecionados do livro: 50 fábulas da China Fabulosa, org./ trad.: Sérgio Capparelli e Márcia Schmaltz. Muito bom! 

Compartilho a entrevista abaixo, capturada na Rede. Bem interessante!  Abraços!


sábado, 1 de dezembro de 2012

Feliz Natal, ótimo 2013!

Querido leitor,
Este Blog, sua escritora, está de férias (a partir de hoje). Novas postagens  em FEV/2013, depois de uma série de compromissos inadiáveis com a faxina,  a  família, e  os estudos!(mais ou menos nessa ordem). Presenteio você com o maravilhoso "conto de Natal" de Mia Couto. Boa leitura!
 Grande abraço!
                                                        (fonte: socialização no facebook)

O menino no sapatinho

Mia Couto

Era uma vez o menino pequenito, tão minimozito que todos seus dedos eram mindinhos. Dito assim, fino modo, ele, quando nasceu, nem foi dado à luz mas a uma simples fresta de claridade.
De tão miserenta, a mãe se alegrou com o destamanho do rebento - assim pediria apenas os menores alimentos. A mulher, em si, deu graças: que é bom a criança nascer assim desprovida de peso que é para não chamar os maus espíritos. E suspirava, enquanto contemplava a diminuta criatura.
Olhar de mãe, quem mais pode apagar as feiuras e defeitos nos viventes?
Ao menino nem se lhe ouvia o choro. Sabia-se de sua tristeza pelas lágrimas.
Mas estas, de tão leves, nem lhe desciam pelo rosto. As lagriminhas subiam pelo ar e vogavam suspensas. Depois, se fixavam no tecto e ali se grutavam, missangas tremeluzentes.
Ela pegava no menino, com uma só mão. E falava, mansinho, para essa concha.
Na realidade, não falava: assobiava, feita uma ave. Dizia que o filho não tinha entendimento para palavra. Só língua de pássaro lhe tocaria o reduzido coração. Quem podia entender? Ele há dessas coisas tão subtis, incapazes mesmo de existir. Como essas estrelas que chegam até nós mesmo depois de terem morrido. A senhora não se importava com os dizquedizeres.
Ela mesmo tinha aprendido a ser de outra dimensão, florindo como o capim: sem cor nem cheiro.
A mãe só tinha fala na igreja. No resto, pouco falava. O marido, descrente de tudo, nem tinha tempo para ser desempregado. O homem era um fiorrapo, despacha-gargalos, entorna-fundos. Do bar para o quarto, de casa para a cervejaria.
Pois, aconteceu o seguinte: dadas as dimensões de sua vida e não havendo berço à medida, a mãe colocou o menininho num sapato. E cujo era o esquerdo do único par, o do marido. De então em diante, o homem passou a calçar de um só pé. Só na ida isso o incomodava. Na volta, ele nem se apercebia de ter pés, dois na mesma direcção.
Em casa, na quentura da palmilha, o miúdo aprendia já o lugar do pobre: nos embaixos do mundo. Junto ao chão, tão rés e rasteiro que, em morrendo, dispensaria quase o ser enterrado. Uma peúga desirmanada lhe fazia de cobertor. O frio estreitasse e a mulher se levantava de noite para repuxar a trança dos atacadores. Assim lhe calçava um aconchego. Todas as manhãs, de prevenção, ela avisava os demais e demasiados:
 -Cuidado, já dentrei o menino no sapato.
Que ninguém, por descuido, o calçasse. Muito-muito, o marido quando voltava bêbado e queria sair uma vez mais, desnoitado, sem distinguir o mais esquerdo do menos esquerdo. A mulher não deixava que o berço fugisse da vislembrança dela. Porque o marido já se outorgava, cheio de queixa:
 - Então, ando para aqui improvisar um coxinho?
 - É seu filho, pois não?
 - O diabo que te descarregue!
E apontava o filhote: o individuozito interrompia o seu calçado? Pois que, sendo aqueles seus exclusivos e únicos sapatos, ele se despromoveria para um chinelado?
 - Sim - respondeu a mulher. - Eu já lhe dei os meus chinelos.
Mas não dava jeito naqueles areais do bairro. Ela devia saber. A pessoa pisa o chão e não sabe se há mais areia em baixo que em cima do pé.
 - Além disso, eu é que paguei os tais sapatos.
Palavras. Porque a mãe respondia com sentimentos:
 - Veja o seu filho, parece o Jesuzinho empalhado, todo embrulhadinho nos bichos de cabedal.

Ainda o filho estava melhor que Cristo - ao menos um sapato já não é bicho em bruto. Era o argumento dela mas ele, nem querendo saber, subia de tom:
 - Cá se fazem, cá se apagam!
O marido azedava e começou a ameaçar: se era para lhe desalojar o definitivo pé, então, o melhor seria desfazerem-se do vindouro. A mãe, estarrecida, fosse o fim de todos os mundos:
 - Vai o quê fazer?
 - Vou é desfazer.

Ela prometia-lhe um tempo, na espera que o bebé graudasse. Mas o assunto azedava e até degenerou em soco, punhos ciscando o escuro. Os olhos dela, amendoídos ainda, continuaram espreitando o improvisado herço. Ela sabia que os anjos da guarda estão a preços que os pobres nem ousam.
Até que o ano findou, esgotada a última folha do calendário. Vinda da igreja, a mãe descobriu-se do véu e anunciou que iria compor a árvore de Natal. Sem despesa nem sobrepeso. Tirou à lenha um tosco arbusto. Os enfeites eram tampinhas de cerveja, sobras da bebedeira do homem. Junto à árvore ela rezou com devoção de Eva antes de haver a macieira. Pediu a Deus que fosse dado ao seu menino o tamanho que lhe era devido. Só isso, mais nada. Talvez, depois, um adequado berço. Ou quem sabe, um calçado novo para o seu homem. Que aquele sapato já espreitava pelo umbigo, o buraco na frente autorizando o frio.
Na sagrada antenoite, a mulher fez como aprendera dos brancos: deixou o sapatinho na árvore para uma qualquer improbabilíssima oferta que lhe miraculasse o lar .
No escuro dessa noite, a mãe não dormiu, seus ouvidos não esmoreceram.
Despontavam as primeiras horas quando lhe pareceu escutar passos na sala. E depois, o silêncio. Tão espesso que tudo se afundou e a mãe foi engolida pelo cansaço.
Acordou cedo e foi directa ao arbusto de Natal. Dentro do sapato, porém, só o vago vazio, a redonda concavidade do nada. O filho desaparecera? Não para os olhos da mãe. Que ele tinha sido levado por Jesus, rumo aos céus, onde há um mundo apto para crianças. Descida em seus joelhos, agradeceu a bondade divina. De relance, ainda notou que lá no tecto já não brilhavam as lágrimas do seu menino. Mas ela desviou o olhar, que essa é a competência de mãe: o não enxergar nunca a curva onde o escuro faz extinguir o mundo.

Retirado de: Na berma de nenhuma estrada. Lisboa: Editorial Caminho SA, 2001.

Acesse ainda  a entrevista do escritor, fornecida à equipe da Unisinos/2012:
http://www.juonline.com.br/index.php/fronteiras-do-pensamento/12.11.2012/cidades-cercadas-de-pobreza/2c93