Temos vários exemplos, de que, quando a "literatura pura" cai nas graças do povo, passa por um processo de tradução cultural.
É cada vez mais comum proferirmos a senteça : "E agora José?" (diante de um problema sem solução) seguida, às vezes, de outro dito: "caso ou compro uma égua?"...
Enfim, eu estava numa farmácia e me chamou atenção a fala de um senhor que, impossibilitado de comprar seus medicamentos ($$$), olhou para a balconista e disse: "E agora José?". A moça ficou com o semblante vermelho, possivelmente certa de estar presenciando "um lapso de memória do idoso"...
Então, vamos a origem do que chamarei de "dito popular contemporâneo"... Tudo começou com Drumond... 1942
José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?
E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
Nenhum comentário:
Postar um comentário