segunda-feira, 11 de julho de 2011

A inteligência dos "homens ordinários" do passado...

Conversa de matuto

Zé Fulô:

Meu amigo João Moiriço
Eu agora fiquei certo
Que nóis já tamo bem perto
De saí do sacrifiço
Eu ontem ouvi um cômiço
De um doto que é candidato,
Home sero e muito isato
E ele garantiu que agora
Vai havê grande miora
Para o pessoá do mato (...)
Aqueie é home do bem
Quando desceu do palanco
Falou com preto, com branco
Com rico e pobre também;
Ali não ficou ninguém
Pra ele não abraçá,
Veve sempre a conversá,
É alegre e satisfeito,
Num home daquele jeito
Faz gosto a gente votá.


João Moiriço:

Zé Fulo, não seja bruto
Seja mais inteligente,
Repare que aquela gente
Não faz conta de matuto.
Não dou crença e nem escuto
Promessas desses doto,
Pra não passa o que passou
Sendo inganado e inludido,
O meu pobre pai querido
E o finado meu avô.
Tome esta boa lição,
Dêxe logo esta veneta,
Seja sero, não se meta
Com fuxico de inleição
Este doto sabidão
Que agora lhe apareceu
E tudo lhe prometeu,
Depois da vitória pronta,
Fica fazendo de conta
Que nunca lhe conheceu.
                                                  
Fonte: Cante lá, que eu canto cá. Patativa de Assaré. Vozes: 1978.
Lero-lero: Quando a oralidade foi "raptada" dos homens comuns em nome da "magnitude da escrita" ocorreu o enfraquecimento do potencial tático de muitas comunidades. Os "Patativas" calaram, perdeu-se a prática popular de comunicar valores em prol do bem social. Que tal um projeto sobre esse cantador? Ou sobre outros "proseadores" ?

Nenhum comentário: