Da sua natureza
( Luís Fernando Veríssimo)
Sorte nossa que as árvores não gemam e os
animais não falem. Imagine se cada vez que se aproximasse uma motosserra as
árvores começassem a gritar “Ai, ai, ai!” e aos bois não faltassem argumentos
razoáveis para não querer entrar
no matadouro.
Imagine porcos parlamentando em causa
própria, galinhas bem articuladas reivindicando sua participação na renda dos
ovos e gritando slogans contra o hábito bárbaro de comê-las, pássaros
engaiolados fazendo discursos inflamados pela liberdade.
Os únicos bichos que falam são os
papagaios, mas até hoje não se tem notícia de um que defendesse os direitos dos
outros. Papagaio tem voz, mas
não tem consciência de classe.
A vida humana seria difícil se não
pudéssemos colher uma beterraba sem ouvir as lamentações da sua família e
insultos do resto da horta. Não deixaríamos de comer, claro. Nem beterrabas,
nem bois ou galinhas, apesar dos seus protestos.
Mas o remorso, e uma correta noção da
prepotência inerente à condição da espécie dominante, faria parte da nossa dieta. Teríamos
uma ideia mais exata da nossa crueldade indispensável, sem a qual não
viveríamos.
Sorte nossa que os vegetais e os animais
não têm nem uma linguagem, quanto mais um discurso organizado. Não os
comeríamos com a mesma empáfia se tivessem.
O único consolo deles é que também
padecemos da falta de comunicação: ainda não encontramos um jeito de negociar
com os germes, convencer os
vírus a nos pouparem com retórica e dar remorso em epidemias.
Eu às
vezes fico pensando como seria se os brasileiros
falassem.
Se protestassem contra o que lhes fazem, se
fizessem discursos indignados em todas as filas de matadouros, se cobrassem com veemência uma
participação em tudo o que produzem para enriquecer os outros, reagissem a
todas as mentiras que lhes dizem, reclamassem tudo que lhes foi negado e
sonegado e se negassem a continuar sendo devorados, rotineiramente, em
silêncio.
Não é da sua natureza, eu sei, só estou
especulando. Ainda seriam
dominados por quem domina a linguagem e, além de tudo, sabe que fala mais alto
o que nem boca tem, o dinheiro. Mas pelo menos não os comeriam com a mesma empáfia.
(grifos nossos)
Lero-lero: Oi, o blog
não perdeu o foco, não! Apenas, não quer ser linear...
Ademais,
estou utilizando este espaço também para passar adiante dicas de escrita
e como apoio para o planejamentos de minhas aulas. A maravilhosa
crônica acima vou utilizar na disciplina de Língua Portuguesa I, "para
ensinar gramática", é
claro!
Nenhum comentário:
Postar um comentário