quinta-feira, 5 de maio de 2011

Aula número 8: "ratiando"...

Querida María,
Geralmente vou "voando" e volto "lesmando" da Unisinos. "Voando" para chegar logo e "lesmando" para ficar  (por lá) mais um pouquinho. Ontem, contudo, voltei "ratiando"... Isso devido aos inúmeros ratos que atravessaram a sala durante a manhã. O bichinho é pequeno mas incomoda... Assusta!
A colega Sandra trouxe dois na seguinte questão:
"Como fazer pesquisa em Educação sem levar um ratinho em cada mão para o laboratório?..."
Pensei:
Charadinha não é do campo do Senso Comum? Depois, "repensei" e senso comum tem lá  campo?  TEMMMMM!
Conhecimento fora do campo científico existe e o texto Conocimiento, Ciencia y Epitomología de Esther Díaz  (1997.p. 13-26), que permeou as reflexões matinais, busca  não apenas situar o conhecimento popular como o modo cultural do saber como também enfatizá-lo enquanto objeto para pesquisas, tanto no campo das Ciências Sociais quanto nas demais.
Entretanto, a autora enfatiza (em outros termos) a impossibilidade de transformar o que é senso comum em conhecimento científico sem retirá-lo de sua Zona de Conforto. Como exemplo disso foi dado, pela professora, o caso da Acumpuntura que primeiro fazia parte do discurso da tradição religiosa (utilizada em cerimônias de exorção). E que diante  de "resultados positivos popularizados"; depois de muita higienização da prática, e de dados  mensuráveis passou a ser pesquisada na Academia. E, só então,  ganhou do campo científico (das Ciências Exatas) estatuto de "Linha" da Medicina.
Nesse  e  noutros casos de apropriação do conhecimento comum para "matá-lo ou fazê-lo ressurgir em grande estilo", os cientistas  resolveram, numa analogia à fábula de Esopo, pôr o "guizo no gato". Tarefa eminentemente  fácil "quando não se considera a posição de rato de um pesquisador".
Para entender melhor, assim como os ratos (de Esopo) "imaginaram" a resposta ao seu problema (bastaria sinalizar a presença do gato para que pudessem fugir antes da sua aproximação) eles não sabiam os caminhos (hipóteses) para o resultado (de pendurar uma sineta no gato). Como fazê-lo? Como demonstrá-lo?
Além de "mapear" a pesquisa (métodos) os "ratos" devem considerar que essa  possível solução ou resposta  poderá não ser tão magnífica quanto pareceu antes do teste.  Um pesquisador precisa aceitar que  resultado negativo é resultado. 
Desse modo, como Díaz também exemplificou no texto, sempre ideias, ruídos, desejos (pré-conclusões) perpassam nossa mente na hora de definir o objeto de pesquisa (ele não é neutro) e o dedo divino não nos toca (esse é outro Campo). A questão é "matematizar"  o processo metodológico ao ponto de ele ser aceito como um olhar diferente mas fidedigno pela comunidade acadêmica.
 E aí, o conselho de um líder "popular" veio a calhar na manhã (quase o alento):
"Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás."
                                                         (Che Guevara)
Segue a fábula citada:

A ASSEMBLEIA DOS RATOS - Fábula de ESOPO - Fabulista grego do século VI a.C. -

Era uma vez uma colônia de ratos, que viviam com medo de um gato. Resolveram fazer uma assembleia para encontrar um jeito de acabar com aquele transtorno. Muitos planos foram discutidos e abandonados. No fim, um jovem e esperto rato levantou-se e deu uma excelente ideia:
-Vamos pendurar uma sineta no pescoço do gato e assim, sempre que ele estiver por perto ouviremos a sineta tocar e poderemos fugir correndo. Todos os ratos bateram palmas; o problema estava resolvido. Vendo aquilo, um velho rato que tinha permanecido calado, levantou-se de seu canto e disse:
- O plano é inteligente e muito bom. Isto com certeza porá fim à nossas preocupações. Só falta uma coisa: quem vai pendurar a sineta no pescoço do gato?
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Criança é criança? A professora nos contou que seu neto ao ouvir essa história logo emitiu a seguinte opinião: "De que adianta por a sineta se a toca do rato é de terra e o gato vai chegar lá e destruir tudo?"
Quando cheguei em casa contei a história para o meu filho (7anos) e ele foi categórico: "Quem teve a ideia que ponha a sineta!"-falou.
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Saludos Cordiales,
Maria Maestro

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