"Antes tarde do que nunca", esse início é só para que eu não esqueça das minhas origens (hehehe) de mulher ordinária, periférica, que ainda atravessa a ponte (por conta e risco).
Falando em ponte (não a do Fiúza), a aula da última quarta-feira permitiu ao grupo uma reflexão sobre polaridade. Principalmente no que se refere a "como os lados se enxergam?. Quem comanda o olhar de uns sobre os outros?"
A percepção de que o Ocidente desenvolveu antropologicamente um sentimento de superioridade sobre o Oriente foi muito bem delineada na obra "Epistemologias do Sul", organizada por Boaventura de Souza Santos e Maria Paula e publicada pela Cortez em 2010.
Ponderamos nas reflexões que não é fácil para nós "ocidentais", sem uma "mãozinha quase divina", percebermos o quão preconceituosos somos. O quanto estamos imersos no discurso dominante e a partir dele e com ele temos legitimado "verdades".
Historicamente o Ocidente olhou para o Oriente como quem olha do alto de um prédio para o que se passa em baixo, na calçada. Nós até nos importamos com as ocorrências, mas de maneira tão "sutil" que acabamos fechando a porta da sacada, voltamos para o sofá, ligamos a TV e deixamos o resto por conta dos "responsáveis".
Historicamente o Ocidente olhou para o Oriente como quem olha do alto de um prédio para o que se passa em baixo, na calçada. Nós até nos importamos com as ocorrências, mas de maneira tão "sutil" que acabamos fechando a porta da sacada, voltamos para o sofá, ligamos a TV e deixamos o resto por conta dos "responsáveis".
Uma das colegas (Amanda) considerou a epígrafe desse texto essencial para o entendimento do fenômeno da ocidentalização:
"Uma epistemologia do Sul assenta em três direções:
aprender que existe o Sul;
aprender a ir para o Sul;
aprender a partir do Sul e com o Sul."
(Santos, 1995: 508)
Outra colega (Cristiane) ponderou sobre o nosso hábito de utilizar o Norte enquanto verbo legitimador desses preconceitos: "a direção certa parece ser sempre o Norte"- disse ela. E o pior é que, se pararmos para pensar, estamos sempre a nortear... Já é tempo de "sulearmos esse probleminha simbólico". (quase fomos parar no Bourdieu - ficou para a próxima aula)
Depois da discussão desse texto retomamos a reflexão sobre as questões da pesquisa, partimos do clássico texto "Que é uma Tese e para que Serve" de Humberto Eco (1977). Fixamos as discussões principalmente no que tange ao rigor e ao "cronômetro" para praticar um método. Na importância, não de seguirmos um método já testado, mas, ao contrário disso, de definirmos um caminho, mapeá-lo, planejá-lo e sabermos delineá-lo seguindo o estatuto do discurso acadêmico.
Concluindo do mesmo modo que iniciei essa postagem (hehehe) isso significa (em outros termos): "matar a cobra e mostrar o pau!".
Segue o texto que fiz para essa disciplina com as devidas correções após apresentação e arguição dos colegas.
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NEM SÓ DE PREMISSAS VÁLIDAS UMA CONCLUSÃO SE SUSTENTARÁ
(Maria Cristina Schefer)
A cachaça é a literatura do pobre.
João é pobre.
Logo: João toma cachaça.
Certo?
Errado!
Conheço o João e ele é leitor!
Entretanto, é com esse tipo de generalizações, desprovida de rigor, que muitas construções acadêmicas vêm sendo realizadas. A importação de conclusões (legítimas em análises de terceiros) é que tem levado alguns pretensos pesquisadores a gafes teóricas, como a que foi acima simplificada.
E antes que este texto possa ser reconhecido como escrito de suspense, cabe a apresentação dos autores aqui utilizados: Tomaz Tadeu da Silva (2000, p. 24-29.) e Alda Judith Alves-Mazzotti (2002, p. 25-40.), ambos os textos selecionados tratam de critérios para a elaboração de discursos acadêmicos. Esses pesquisadores fazem apontamentos que buscam evitar a feitura de trabalhos intelectualmente pertinentes, mas metodologicamente falhos por parte de um estudante, tanto pela formulação incorreta de proposições para a investigação (como afirma o primeiro) quanto pela incapacidade de seleção de leituras em prol de uma análise (como afirma o segundo). A problematização, tendo um caráter “escorregadio”, faz com que o resultado precise ser reproblematizado, não pela exposição a uma nova contextualização, que é pertinente ao trabalho acadêmico, mas como espaço de contestação primária.
Trabalhos de revisão metodológica (correção) contínua de pesquisas, dentro da comunidade científica, impedem que um estudo findado cumpra o seu papel de ponto de partida para outro. Como diz o dito popular “de boas intenções o inferno está cheio”, e infelizmente também os arquivos das universidades estão cheios de pesquisas risonhas, que emocionam estudantes, familiares, docentes, mas que tecnicamente não têm eficácia. Essas pesquisas, na maior parte das vezes, estão alicerçadas teoricamente no que há de melhor sobre o assunto, apresentadas por investigadores exauridos (horas de trabalho, de estudos), mas erroneamente conduzidas. Conforme Alves-Mazzotti (2002, p. 40.): “muito se tem lamentado que o destino de grandes teses e dissertações é mofar nas prateleiras das bibliotecas universitárias.”
Voltando ao logicismo clássico inicial (sempre presente nas generalizações) conforme exemplificado, em outros termos, por Silva (2000, p.18.) e conjecturando sobre a premissa maior, é possível, ao identificarmos o campo da pesquisadora que anunciou a conclusão (Artes), refazermos hipoteticamente a estrutura da problematização:
A arte da literatura é um modo de deslocar os homens da realidade.
(premissa maior)
(premissa maior)
Esses deslocamentos são similares àqueles em que se ingere álcool.
(premissa menor)
(premissa menor)
Na falta de acesso às Artes, a cachaça é a literatura dos pobres.
(conclusão)
(conclusão)
Ao apropriar-se de uma conclusão sem considerar a problematização, o pesquisador, que elabora uma nova estrutura de investigação, comete e documenta in-verdades, como a gerada inicialmente neste texto: Pobre gosta de cachaça e substitui com esse vício a literatura.
Levando em conta o consensual caráter argumentativo da pesquisa acadêmica, vale reforçar o cuidado com a tendência às falácias e às “caricaturizações”, respectivamente ponderadas por Silva (2000, p. 19.) e Alves-Mazzotti (2002, p. 34-38.). Até porque, são os nossos conhecimentos e limitações que servem de “bússola” para a coleta de dados e definições teóricas. E apenas a capacidade de relativização poderá “garantir sobriedade” à árdua tarefa da problematização. Mas enfim: essa é a nossa cachaça, certo?
REFERÊNCIAS
ALVES-MAZZOTTI, Alda Judith. A revisão ortográfica em teses e dissertações: meus tipos inesquecíveis – o retorno. In: BIANCHETTI, Lucídio; MACHADO, Ana Maria (Org.). A bússola de escrever: desafios e estratégias na orientação de teses e dissertações. Florianópolis/São Paulo: Ed. da UFSC/ Cortês Editora, 2002.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Como argumentar. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. Oficina da escrita. 2000. Texto digitado.
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